Corpo Território do Sagrado

Palestra proferida pela Prof. Dr. Evaristo Eduardo de Miranda no dia 10 de Maio de 2010 no Teatro de São Bento em São Paulo

 

Nossa época explora o mistério da corporeidade, como outras exploraram o da espiritualidade. Este livro visa àqueles que desejam viver seu corpo e não somente cuidar dele. Para penetrar na riqueza da visão bíblica do universo simbólico corporal, são necessárias chaves etimológicas, semânticas, culturais, psicológicas e espirituais. Ninguém possui o monopólio da simbologia corporal. A chave é um símbolo ambíguo: tem o duplo papel de abrir e fechar.

Apresentamos a simbologia de cada uma das principais partes e órgãos do corpo humano, fundamentada na tradição mística judaica. De baixo para cima, dos pés para a cabeça, do Reino (Malchut) para a Coroa (Ketér), no sentido do chamado à verticalização, ele inicia o leitor num território que todos conhecem e desconhecem.

Na perspectiva judeu-cristã, apesar dos séculos de desvios e absurdos corporais, o bem-estar do Homem, seu estar bem, depende de um ser bem, ser mais. O simbolismo do corpo é um instrumento para compreender seu dinamismo e sua inteireza, caminho extra-ordinário de comunicação com o divino. 

Dr. Evaristo Eduardo de Miranda ladeado por Ir. João Baptista Barbosa e Verbena Neves

 

A riqueza simbólica e espiritual, vinculada a cada porção do território corporal, não pode sr esgotada, mesmo se um livro inteiro fosse dedicado a cada parte ou órgão. Na geografia do corpo, este livro é uma viagem de exploração um caminho iniciático. Para nós, a descoberta de outras conexões, menos visíveis, desse território misterioso do imaginário e do sagrado, o corpo humano, virá de imediato ou no futuro, como novos frutos desta primícia 

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RESILIÊNCIA – Qual o Saber e o Sabor da Superação?

Palestra proferida pela Profª Msª Cristina J. Dias no dia 08 de Março de 2010 no Teatro de São Bento em São Paulo

“ A pessoa resiliente é capaz não só de resistir às forças desagregadoras, 

Mas de capitalizá-las no processo de seu desenvolvimento pessoal e social”. 

(Antonio Carlos Gomes da Costa).    

 
 

Cristina J. Dias e Patricia Janaina

 A resiliência representa uma mudança de paradigma que inclui a passagem do modelo médico tradicional, centrado na fraqueza e na doença, para outra perspectiva que inclui a capacidade de enfrentamento, o estímulo às potencialidades, a consideração da esperança e o ato de lidar com o desafio. A possibilidade de enfrentar a adversidade, e superá-la é que torna as pessoas fortalecidas e que gera a resiliência. Vera Placco conceitua a resiliência como sendo: 

a capacidade do indivíduo de responder de forma mais consistente aos desafios e dificuldades, de reagir com flexibilidade e capacidade de recuperação diante desses desafios e circunstâncias desfavoráveis, tendo uma atitude otimista, positiva e perseverante e mantendo um equilíbrio dinâmico durante e após os embates – um aspecto que ativado e desenvolvido, possibilita ao individuo superar-se e às pressões de seu mundo, desenvolver um autoconceito realista, autoconfiança e um senso de autoproteção que  considera a abertura ao novo, à mudança, ao outro e à realidade subjacente. (Placco, 2002: 7).  

Ir. João Baptista com a medalha de ouro conquistada por Patricia Janaina no Campeonato mundial de judô de 2008

 É imprescindível que a resiliência seja exercida no Campo Profissional, pois se os chefes, supervisores e gestores de pessoas forem preparados para serem cada vez mais resilientes em relação aos seus compromissos pessoais e profissionais, sem dúvida poderão ser mais capazes de formar pessoas e cidadãos, também, cada vez mais resilientes. 

 As pesquisas mostram que a resiliência é uma variação individual em resposta ao risco, e que os mesmos fatores de estresse podem ser vivenciados de maneira distinta por diferentes pessoas. 

Os estudos apontam para uma série de variáveis, tais como: as diferenças individuais, experiências compensatórias  dentro e fora de casa, o desenvolvimento da auto-estima, oportunidades, grau apropriado de estrutura e controle, a presença de vínculos e relacionamentos íntimos e a aquisição de competências. 

O que importa não é preciso fugir das adversidades, o essencial é podermos estudar o que o indivíduo faz quando está na situação de risco, pois isso é que vai determinar se a experiência será estressora ou protetora em seus efeitos. 

Para os pesquisadores Werner & Smith (1989) citados em Tavares (2002) há três tipos de fatores de proteção que marcam as pessoas resilientes: 

a) nível de atividade e sociabilidade, competência em comunicação (linguagem e leitura); 

b) laços afetivos na família que oferecem suporte emocional em momento de estresse; 

c) sistemas de suporte sociais na escola, no trabalho, na igreja, que propiciam competência e determinação individual e um sistema de crenças para a vida. 

Os estudos afirmam que uma boa medida de tornar as pessoas mais confiantes e resilientes para enfrentar a vida perante as adversidades é justamente, ajudá-las a descobrir as suas capacidades, aceitá-las e confirmá-las positiva e incondicionalmente. 

As empresas e as organizações serão tanto mais resilientes quanto mais coletivas, flexíveis, livres, rápidas nas respostas, partilharem seus processos e seus resultados. Neste sentido, as organizações resilientes estão no pólo oposto das organizações burocráticas. Nas sociedades desburocratizadas e mais resilientes, o desenvolvimento de mudanças  promovem a inovação e a criatividade por meio de novas aprendizagens sobre como lidar com o stress,  aplicação de gestão de respostas rápidas, espírito empreendedor, capacidade de congregar ideias e ações, sentimentos e vontades para objetivos convergentes e solidários. 

Rodríguez citado em Melillo (2005) propõe uma formulação para expressar a relação entre resiliência e fatores de resiliência: 

Resiliência = Fatores de resiliência + X  

Com essa expressão, Rodríguez “quis mostrar a resiliência, como resultado individual da resposta de superação às adversidades, é mais do que a soma dos fatores de resiliência que a promovem e que supõe a existência de um imponderável, o X, que determinará o resultado final”. 

A intenção do autor é mostrar que a resiliência parece residir mais numa combinação particular de fatores protetores do que na soma deles. Haverá um fator-surpresa na maneira como o indivíduo, o grupo ou a instituição lida com os fatores de risco e vulnerabilidade que influenciará no resultado final. 

Para o fortalecimento das instituições e dos trabalhos comunitários é preciso  investir na mudança do paradigma de um modelo centrado no indivíduo para um modelo  de inserção social, voltado para construção da cidadania. Uma alerta: na hora de trabalhar com a comunidade é preciso escolher entre se abater de dificuldades ou impedimentos ou lutar com os recursos disponíveis e com as reais possibilidades. 

Para reforçar essa postura, citamos a experiência da educadora Cuestas, citado em Melillo (2005), que relata resultados do programa de Oficina de Artes, incluindo artes plásticas, música e literatura, desenvolvido há muitos anos em uma pré-escola na Argentina. A autora relata que a cada fim de ano, nas exposições das produções dos alunos e dos professores, “o produto criativo dos trabalhos, realizados na escola em parceira com a família, revelou que, apesar da obscuridade exterior, dentro de cada pessoa, a alegria teimava em continuar de pé” . 

Assim, podemos perceber que nós somos co-responsáveis por favorecer o desenvolvimento sadio, o acolhimento e o bem-estar das pessoas com as quais convivemos em nossos relacionamentos pessoais, profissionais e sociais. É preciso reconhecer a condição pela qual nos ligamos às pessoas, valorizar a cooperação e o senso de humanidade; portanto, convidamos o leitor a seguinte reflexão: 

“Quando você ajuda alguém a atravessar o rio transportando-o em seu barco,  

você também chega à outra margem”.  (Autor Desconhecido).  

A palestrante com alguns dos participantes da palestra

Referências Bibliográficas.            

DIAS, Cristina Jorge. A Interação de Pares na Construção do Jovem Protagonista. Universidade São Marcos. Dissertação de Mestrado em Psicologia. São Paulo, 2008. 

DIAS, Cristina J. e LOPES, Penha F. Compartilhar Jogos e Vivências – manual prático de intervenções grupais. SP: Expressão e Arte, 2008. 

MELILLO, Aldo; Ojeda, Elbio Nestor Suárez e colaboradores; Resiliência: descobrindo as próprias fortalezas. Porto Alegre: Artmed, 2005. 

POLETTI, Rosette e Dobbs, Bárbara. A resiliência – a arte de dar a volta por cima. Rio de Janeiro: Vozes, 2007. 

TAVARES, José (org.) Resiliência e Educação. 3.ed. São Paulo: Cortez, 2002. 

ZIBAS, Dagmar M. L.; Vitar, Ana; Ferrettti, Celso; Tartuce, Gisela L. B. P. (orgs.). Gestão de Inovações no Ensino Médio. Brasília: Líber Livro Editora, 2006.  

Mini-curriculo: 

Cristina Jorge DiasEducadora, Mestre em Psicologia, Psicodramatista Socioeducacional. 

É autora do livro: “Compartilhar Jogos e Vivências”. SP: Ed: Expressão e Arte, 2008. 

Ministra cursos e oficinas para jovens, educadores e coordenadores de grupos, em geral.                                        e.mail:  cristinajdias@uol.com.br 

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A Importância do resgate da corporeidade no Cristianismo

Palestra proferida pela Profª Sylvie Lagache no dia 22 de Fevereiro de 2010 no Teatro de São Bento em São Paulo*

Profª Sylvie Lagache

É ao mesmo tempo uma crítica ao cristianismo de hoje e uma apologia ao cristianismo primitivo. 

RESGATAR: 

Quer dizer que já existia uma valorização da corporeidade na História do cristianismo, mas foi se distanciando por causa de várias influências. Precisa-se  buscar na fonte onde havia unidade e não divisão, dualismo. 

CORPOREIDADE: 

Significa várias dimensões do corpo: corpo-carne, alma, espírito; ou corpo, mente, emoções, espiritualidade. Quer dizer que a corporeidade é o ser humano na sua totalidade. O corpo é o ser humano. Portanto, falar em corporeidade não é culto ao corpo (carne), mas bem pelo contrário, é considerar o corpo como a pessoa humana na sua inteireza: corpo-alma-espírito. 

CRISTIANISMO: 

Cristianismo é a religião mais corporal que existiu em toda história da humanidade. 

a) Um Deus que se fez carne, que se fez corpo. Um Deus encarnado, incorporado; 

b) Uma religião que promete a ressurreição da carne e não a ressurreição das almas, ou do espírito; 

c) Uma religião que pede obras; 

d) O cristianismo traz um Deus do amor e da misericórdia, (Mt 9,13), superando o Deus julgador e que castiga do Antigo Testamento. O amor, obrigatoriamente se expressa por manifestações corporais de afeto: abraço, aproximação, contato, beijo… O maior mandamento cristão é “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”

O Jesus histórico e não mítico, era extremamente corporal: acolhia (com os braços), servia (com as mãos e os pés) e curava (com as mãos e a saliva..); inclusive usava as mãos para curar: nos olhos do cego, nos ouvidos do surdo, na pele do leproso…E ainda: curava o homem total, de corpo e alma. 

O CRISTIANISMO NOS TRAZ UM NOVO TEMPLO 

  • Agora o templo não é mais um lugar externo para orar, mas o nosso corpo é o templo do Espírito para orar “em Espírito e em Verdade”: escutando a Palavra, e respondendo se colocando a serviço de Deus, em fidelidade à aliança: “em que os verdadeiros adoradores, adorarão o Pai em espírito e verdade” (Jo 4, 23).
  • O Novo Templo é Jesus Cristo, anunciado por Ele quando falou que será destruído o antigo templo e restaurado em três dias (Jo 2, 19).
  • O Novo Templo é também o Corpo do Cristo formado pela comunidade de filhos e filhas de Deus, reunidos na Igreja, no corpo místico de Cristo, cuja alma é o Espírito Santo.
  • O Nosso corpo torna-se também Templo do Espírito no batismo, quando mergulhado na água; nasce um novo corpo, um novo ser, renascido em Cristo.
  • Jesus nos oferece seu próprio corpo como alimento para se comer na última ceia, na eucaristia, onde Ele se dá para remissão dos nossos pecados, e nos pede para oferecer nossos corpos também: “…que ofereceis vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus; este é vosso culto espiritual” (Rm 12, 1). 
  • Jesus ressuscita corporalmente (pede para olhar e tocar as feridas Dele) e nos promete a ressurreição dos mortos, a ressurreição da carne em corpo glorioso, para todos que comerão de sua carne (Ele inteiro): “ Quem come de minha carne e bebe do meu sangue, tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no ultimo dia. Pois a minha carne é verdadeira comida e meu sangue é verdadeira bebida. Quem se alimenta com a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele” (Jo 6, 54-57). 

 

A religião cristã se fundamenta, então neste tripé: 

O Corpo Templo do Espírito, no batismo, o Corpo do Cristo, na eucaristia, e Corpo Glorioso, na ressurreição. 

Assim, O CORPO É O EIXO DA SALVAÇÃO (Caro salutis est cardo) Tertuliano. 

Jesus era judeu e conhecia bem o Antigo Testamento e bebia de sua fonte. 

a) No A.T encontramos muito a visão do corpo como Templo do Espírito, dom recebido de Deus e criado a Sua imagem e semelhança, em unidade corpo, alma, espírito. 

b) Em Gênesis, encontramos que somos feitos do pó da terra. Hoje sabemos através de estudos científicos da Nasa, que o pó da terra é o mesmo que o pó das estrelas, porque o homem é composto dos mesmos elementos bioquímicos encontrados  nas estrelas: átomos de carbono, hidrogênio, nitrogênio e fósforo. (Cf. Edwards Denis, Sopro de Vida, teólogo e cientista). Podemos pensar, então, que somos pó de luz, em essência, que pode se desenvolver em corpo de luz conforme a nossa caminhada espiritual, e que esse corpo de luz pode ser o futuro corpo glorioso que teremos no fim dos tempos. 

c) Deus insuflou nas narinas do homem, um hálito de vida. O hálito, em hebraico: Ruah é o sopro, a respiração que é assimilada ao espírito, ou Espírito de Deus. Significa que Deus criou um homem espiritual. 

d) Deus não deixou o homem solitário: Ele lhe deu uma companheira. As tradições semíticas insistem no amor aliança, o encontro entre dois seres, o povo com Deus. 

e) Esse amor entre homem e mulher culmina no mais belo poema de amor: O Cântico dos Cânticos que convida ao culto de Deus nas experiências de amor, na união erótica dos corpos. Falar do sentir, tocar, lamber, olhar o corpo sem nojo, sem medo, mas é mediante o amor e a abertura para o outro que Deus se manifesta. 

f) As Escrituras indicam o papel fundamental dos órgãos e membros do corpo na vida, não só psicológica (como os chineses: rim=medo; fígado=raiva; pulmões=tristeza e mágoas; baço=preocupação), como, também, espiritual: 

  • A garganta (nefesh) em hebraico é totalmente ligada à alma. A alma é garganta, por isso as carências de alma se saciam com o comer e lhe dá um alívio.
  • O coração: lugar de oração, de conhecimento e sentimentos: Maria guardava o conhecimento em seu coração.
  • Os olhos: refletem a alma; percebem a harmonia e beleza da criação.
  • Os ouvidos para escutar a Palavra.
  • A boca para proclamar a Palavra.
  • Os pulmões para respirar e fazer circular o sopro de vida no homem.
  • As mãos para servir
  • Os pés para caminhar, o Peregrino, o missionário.

Tudo para a Gloria de Deus em vista a um gozo espiritual acima de um gozo carnal; Assim os sentidos contribuem para desenvolver a percepção de Deus em todas as coisas sensíveis. 

COMO SE PERDEU ESSA CONCEPÇÃO DE UNIDADE CORPORAL ? 

Houveram varias influências desde a época cristã que separaram o corpo da alma e pior ainda: julgaram o corpo como “mal” (trevas) e o espírito como “bem” (luz) criando assim uma hierarquia. 

a) Influência grega, Platão: o corpo é um obstáculo para a “subida do espírito” 

b) Certa leitura hermenêutica das cartas de S.Paulo condenam a carne, e não o corpo, quando entrega a imoralidade e dominada pelos desejos, pelas paixões. Também justificava o desprezo corpóreo em vista do celeste através do sacrifício da morte de Jesus. 

c) A concepção do corpo como templo do Espírito= purificação=santificação=entrada para o conceito da renúncia sexual. 

d) Sec. II a pratica sexual passou a ser o pecado. Hermas, Origenes, Valentino

Os padres do deserto=mortificação para dominar os desejos e a mente para a Glorificação. 

Influência do gnosticismo: salvação pelo conhecimento. 

e) Sec. III o maniqueísmo: Espírito =luz e corpo=trevas (hierarquia) 

f) Sec. IV Influência de Agostinho: natureza pecaminosa porém sujeita a graça. 

g) Sec. VI Influência dos padres Irlandeses com pratica penitencial: espiritualidade do sofrimento: Jesus na cruz.  

h) Idade Media: valorização exacerbada da virgindade e castidade. Mulher considerada fraca e pecadora. Liturgias: o corpo é apenas símbolo=sacralização excessiva do corpo que leva ao um corpo quase assimilado à condição dos anjos. 

i) Sec. XVII Influência de Descartes e das ciências modernas: corpo objeto de especulação. 

j) Sec. XVIII Oposição ao mecanicismo, volta a sensibilidade humana, pois surge grande moralismo pelo jansenismo. 

Como vimos, a primazia da alma e da racionalidade, da ascese e mortificação do corpo, virgindade e castidade como renúncia e desprezo do corpo não são fontes puras do cristianismo. 

COMO SE VIVE O CORPO HOJE ? 

Ele reflete todas essas influências que acabamos de citar: 

Fragmentado, materialista, racional, mecânico, cortado ou afastado de sua interioridade, hedonista, consumível, consumista, corpo pelo corpo, prazer pelo prazer e que busca essencialmente poder, prazer e fama. Torna-se egoísta e individualista, agressivo e violento. Corre pra ganhar dinheiro para comprar…a vida. Relacionamentos que trazem lucro também. Não tem tempo de saborear a vida, de parar, escutar, olhar, orar, contemplar, meditar. As liturgias seguem o mesmo caminho: ou frias e racionais, ou barulhentas e mecânicas. Às vezes, elas afastam mais que atraem. Não são acolhedoras, até discriminativas. Carecem de escuta, de acolhida e partilha. Não são incorporadas na sua espiritualidade.  

O CORPO DE HOJE É UM CORPO FRAGMENTADO E NÃO DUALISTA 

Não existe espírito ruim num corpo bom, com não existe um espírito bom num corpo ruim: não existe um espírito de luz com um corpo em trevas; como não existe um espírito trevoso num corpo de luz: ou somos luz de corpo e alma, ou somos mergulhados nas trevas de corpo e alma. Como diz Jesus: “não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem a arvore ruim que dê frutos bons, porque toda arvore é conhecida pelos seus frutos” (Lc 6, 43-45). 

Logo: não existe dualismo, nem hierarquia: espírito superior ao corpo; mas existe, sim, desintegração e dissociação. 

Mas existem também meios de transformação, transformar nossas trevas em luz; nosso corpo pesado em corpo de luz; nosso corpo fragmentado em corpo integrado: corpo, alma, espírito, para uma espiritualidade incorporada, encarnada. Um corpo integrado com o cosmo, com a natureza, com o outro, com o Cristo. Começamos, ai a construir nosso corpo transfigurado, o corpo glorioso com essa caminhada espiritual; iniciamos o Reino de Deus, no aqui agora, e entramos na dimensão da vida eterna. Assim como diz Jesus: “Eu com meu Pai, somos um” (Jo 10,30) e “não sou mais eu que vivo, mas Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). 

Quais são os meios que nos levam à transformação, à conversão? 

 No cristianismo temos muitas propostas corporais: 

A escuta da Palavra, a ascese, a oração, a meditação, a liturgia (principalmente a eucaristia) que inclua o canto, a música, a dança… 

No cristianismo não existe um trabalho corporal para a espiritualidade, como no budismo a prática do Zen e no hinduísmo a yoga. Essas práticas ajudam o ser humano a canalizar e trabalhar suas energias sexuais e emocionais para depois poder transcendê-las. 

Hoje, proponho uma iniciação corporal para viver o Espírito com o corpo, 

Sylvie Lagache sendo prestigiada por seus amigos

pois a consciência corporal e a respiração são duas vias que nos ajudam a transformar nosso coração de pedra (couraça emocional) em coração de carne, e pela respiração trazer a vida do Espírito em nós, o sopro de Deus, iluminando o nosso corpo templo do espírito. 

Precisamos ser receptivos às energias divinas, à Graça, para que nos tornemos verdadeiros cristãos.  

*Sylvie Lagache é terapeuta corporal, acupunturista, bailarina e teóloga.  

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Psicocine (Psicocologia no Cinema)

Palestra proferida pelo Prof. Henrique Marcusso mo dia 16 de Novembro de 2009 no Teatro de São Bento em São Paulo* 

Na noite do dia 16 de Novembro de 2009 foi exibido o filme Saraband (2003), de Ingmar Bergmam. 

Cena do filme Saraband de Ingmar Bergmam

O filme trata das angustias humanas no que tange à questão do relacionamento. Tal relacionamento é demonstrado como a necessidade do outro. Observamos máscaras que os personagens precisam carregar para sobreviverem. Mas, ao longo do filme tais máscaras caem, fazendo com que os personagens possam reencontrar a individualidade perdida. 

É interessante mencionar sobre as cenas sempre compostas por dois personagens, obtendo diálogos extremamente profundos. Ao longo do filme temos apenas cinco ou seis personagens, mais eles nunca estão todos juntos. Nestes diálogos notamos a tridimensionalidade dos personagens. é uma miscelânia de dor, amor, ódio e pena. 

Embora pareça continuidade de “Cenas de um casamento” da década de 70, Begmam nunca afirmou ser continuação de tal obra.  

Ao fazer a análise do  um filme do diretor sueco Ingmar Bergman (1918-2007) é sempre um momento de reflexão sobre o sentido da vida, sobre a fé e sobre a condição humana. Ninguém mais no meio cinematográfico soube melhor elucidar estas questões, levando-nos a refletir sobre nossa própria existência. Tal como um um filósofo da modernidade, Bergman lança mão de conceitos em forma de imagens para nos fazer pensar sobre nós mesmos, nossos desejos, nossos limites, nossas possibilidades de superação. A partir de um filme criado por um dos grandes mestres do cinema mundial, este encontro visa discutir as fronteiras entre imagem e palavra, entre o visível e o dizível, entre o racional e o irracional, entre o imperceptível e o interdito. É um fiilme que trata do olhar, de sua insuportabilidade e de toda sua transcendência. 

*Prof. Henrique Marcusso é Psicólogo formado pela PUC-SP, Psicoterapeuta. A doze anos se dedica à pesquisa sobre cinema, especialmente sobre a obra de Ingmar Bergmam. Deu cursos de Psicocine durante cinco anos no Mosteiro de São Bento de São Paulo, com temas e diretores variados. Foi o único latino-americano a participar do 1º Simpósio Internacional Ingmar Bergmam, oferecido pela Univeresidade de Estocolmo na Suécia em 2005. 

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Venha conhecer a China! 

Palestra proferida pelo Prof. Jayme Martins no dia 10 de Agosto de 2009 no Teatro de São Bento em São Paulo*

 

O Jornalista Jayme Martins e o Ir. João Baptista
O Jornalista Jayme Martins e o Ir. João Baptista

Na China da era Deng não importa a cor do gato 

“Quando se traça um ideal, pode-se vislumbrar o que se pretende, mas é preciso evitar o impossível”.(Aristóteles) 

“Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que nela caibam, nem jamais aparecem novas e mais altas relações de produção antes que as condições materiais para sua existência tenham amadurecido no seio da sociedade anterior. Por isto, a humanidade se propõe sempre unicamente os objetivos que pode alcançar, pois, bem vistas as coisas, sempre observamos que estes objetivos só vingam quando já se dão ou, pelo menos, estão em gestação as condições materiais para sua realização”. (Marx, no Prólogo de “Contribuição à Crítica da Economia Política”): 

A partir de 1978, isto é, depois da morte de Mao Zedong (1976), do fim da “revolução cultural” (1966-76), da derrubada do “Bando de 4” (1977), da liderança meteórica de Hua Guofeng (1977) e da reabilitação de Deng Xiaoping (1977), a economia chinesa, que seguia uma orientação de planejamento burocrático altamente centralizado, tornou-se, passo a passo, uma economia de mercado socialista descentralizada e desburocratizada, através do processo de Reforma e Abertura para o Exterior. 

Tendo em vista antigo sonho nacional, alimentado desde os tempos imperiais, tanto por confucianos como por budistas e taoístas, de conquista do reino da harmonia em múltiplos aspectos, ocorreu na China uma alteração ideológica, correspondente à que prevalecia no PCCh antes da proclamação da República Popular (1949) e mesmo depois, até 1957/58, quando, na passagem do 1.o para o 2.o Plano Qüinqüenal, a direção chinesa, comandada por Mao, sofreu tremenda desmunhecada de “esquerda”, com a precipitada criação das comunas populares rurais e com o aventuroso e mal sucedido “grande salto adiante”. 

Com a adoção do sistema de Reforma e Abertura, em vez de movimento de agitação política, tendo por centro a luta de classes (como aconteceu sobretudo durante a “revolução cultural”), esta deixou de ser considerada a contradição principal e passou-se a concentrar esforços na edificação econômica. 

Prevaleceu, assim, a compreensão de que a contradição principal nesta etapa inicial de uma sociedade socializante (etapa que pode durar um século) reside na discrepância entre as crescentes necessidades materiais e culturais do povo e o atraso da produção social, ou seja, o atraso em educação, ciência, tecnologia e capital. 

MODERNIZAÇÃO 

Especificamente quanto às contradições de classes, Deng Xiaoping afirmou, em março de 1979, que “A luta de classes na sociedade socialista é algo que existe objetivamente, e não devemos subestimá-la nem exagerá-la”

Com esta compreensão, a direção chinesa deu outro passo adiante, rejeitando a tese trotskista de “revolução permanente sob a ditadura do proletariado”, que foi a diretriz básica da “revolução cultural”. 

Passou a prevalecer, então, a orientação pela qual tais contradições devem ser resolvidas de acordo com método definido, havia muito, pelo PCCh sobre os dois tipos de contradições sociais – as antagônicas e as não-antagônicas –, assegurando-se, assim, uma situação de estabilidade, unidade e harmonia, indispensável ao processo de modernização do País. 

FUNÇÃO DO MERCADO 

A economia planificada super-centralizada (operada exclusivamente por diretrizes administrativas) foi descartada, passando o mercado a desempenhar papel cada vez maior na vida econômica. O ponto de partida para a manifestação pública desta compreensão pela direção chinesa data de 1978, quando decidiu que a economia planificada fosse tomada como o principal, tendo como auxiliar a função reguladora do mercado. 

Já era um salto adiante em relação ao velho sistema imperante, que admitia apenas a economia planificada centralizada. Esta decisão data da Sessão Plenária do Comitê Central do PCCh, realizada em dezembro de 1978. 

Esta e outras decisões tratavam de eliminar, no essencial, perniciosas posições “esquerdistas” consistentes em fazer a revolução apenas pela revolução, passando por alto a importância do desenvolvimento das forças produtivas e provocando nestas, assim como na superestrutura, desastrosas alterações. 

Em novembro de 1979, ao receber Massayoshi Ohira, então primeiro-ministro do Japão, Deng Xiaoping referiu-se, pela primeira vez, à economia de mercado como “uma conquista da civilização humana” e que ela “já florescia dentro mesmo da sociedade feudal” (a economia mercantil). 

Logo depois, apareciam na imprensa chinesa declarações suas, no sentido de que, como mecanismo de gestão, como conjunto de meios e métodos de distribuição dos recursos naturais, “a economia de mercado é fruto do desenvolvimento econômico do mundo moderno”. 

Em 1984, a economia chinesa seria oficialmente caracterizada como economia mercantil planificada, distanciando-se ainda mais da concepção que contrapunha a economia mercantil à economia planificada. 

ECONOMIA DE MERCADO SOCIALISTA 

Ainda por alguns anos, a concepção segundo a qual a economia de mercado seria própria, exclusiva, do capitalismo, continuou dificultando novos passos teóricos e práticos nesse sentido, devido à resistência “esquerdista” dentro da direção chinesa. 

Contudo, o desenvolvimento econômico e a necessidade de aprofundar as reformas ajudaram a aclarar a questão, com o que alguns dirigentes passaram a falar em economia de mercado socialista. 

Em viagem de inspeção pelo Sul do País, em princípios de 1992, Deng Xiaoping botava os pingos nos is, ao afirmar textualmente que “economia planificada não é sinônimo de socialismo, pois no capitalismo também existe plano, e economia de mercado não é sinônimo de capitalismo, já que no socialismo também existe mercado”

Por fim, em outubro de 1993, o Congresso Nacional do PCCh homologou o termo economia de mercado socialista, logo referendado pela Assembléia Popular Nacional, através de emenda constitucional, conferindo-lhe força de lei. 

Segundo Deng Xiaoping, a diferença essencial entre economia socialista e economia capitalista não consiste em um pouco mais de plano ou um pouco mais de mercado. 

Ela está em qual sistema de propriedade – pública ou privada – exerce o papel dirigente da economia. Segundo ele, em nossos dias, nenhum país adota de forma pura nem a economia de mercado, nem a economia planificada, pois, desta ou daquela forma, plano e mercado estão sempre combinados em qualquer país – uns acentuando o plano, outros enfatizando o mercado competitivo. 

A China adota oficialmente uma economia sujeita à regulamentação macroeconômica do Estado, mas atribui cada vez mais ao mercado o papel fundamental na distribuição dos recursos. 

CARACTERÍSTICAS CHINESAS 

A direção chinesa sempre faz questão de acentuar que a economia de mercado socialista adotada tem características chinesas, ou seja, corresponde obrigatoriamente ao atual nível de desenvolvimento de suas forças produtivas, estando livre de qualquer voluntarismo ou outras atitudes que não correspondam à capacitação do País em termos de educação, ciência, tecnologia e capital (venha este de onde vier). 

Apresentação cultural - harpa chinesa

Apresentação cultural - harpa chinesa

Trata-se de uma posição que a liderança chinesa já assumira antes mesmo da proclamação da República Popular (1949). 

CORRESPONDÊNCIA OBRIGATÓRIA 

Lembrando que o socialismo não pode advir da noite para o dia, nem ser implantado por decreto ou voluntariosamente na marra (como se pretendeu desastradamente em alguns países), com o conseqüente abandono de leis econômicas fundamentais enunciadas pelos clássicos do marxismo para a sociedade socialista, o economista Xue Muqiao, diretor do Instituto Nacional de Economia, em seu livro “Problemas da economia socialista chinesa”, condena o desprezo com que era vista na China, até 1978, a “Lei objetiva da correspondência obrigatória entre as relações de produção e o nível de desenvolvimento das forças produtivas”, assim formulada por Marx, no prólogo de sua obra “Contribuição à crítica da economia política”: 

“Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que nela caibam, nem jamais aparecem novas e mais altas relações de produção, antes que as condições materiais para sua existência tenham amadurecido no seio da sociedade anterior. Por isto, a humanidade se propõe sempre unicamente os objetivos que pode alcançar, pois, bem vistas as coisas, sempre observamos que estes objetivos só vingam quando já se dão ou, pelo menos, estão em gestação as condições materiais para sua realização”

TODAS AS INICIATIVAS 

É exatamente sob tal orientação que hoje são permitidas na China, além da estatal, todas as formas de empreendedorismo: a privada, a coletiva, a mista (da estatal com a privada nacional, da estatal com a privada estrangeira, da privada nacional com a privada estrangeira, da estatal chinesa com estatal estrangeira) e até a da iniciativa privada 100% estrangeira, desde que dedicada à importação de tecnologia e à exportação de sua produção, a fim de render divisas para o País. Mais de 60% do PIB chinês já é proveniente da iniciativa privada. 

Antes mesmo disso tudo, já em 1962, Deng Xiaoping já se saia com a polêmica metáfora: Pouco importa se o gato seja preto ou amarelo, o que interessa é que ele cace os ratos”. 

REMOVENDO O “ESQUERDISMO” 

Na mesma ocasião, num balanço das quase quatro décadas anteriores, ele dizia: “A verdade é que, nestes 38 anos desde 1949, cometemos uma montanha de erros. 

Nossa meta fundamental – construir o socialismo – é correta, mas ainda estamos tentando compreender o que seja socialismo e de que forma construí-lo. A principal tarefa do socialismo é desenvolver as forças produtivas. (…) Contudo, nós atuamos muito mal no desenvolvimento das forças produtivas. 

E isso principalmente porque tivemos pressa demais, adotamos políticas de “esquerda”, e o resultado foi que, em vez de acelerar o desenvolvimento das forças produtivas, nós o atrapalhamos. 

Começamos pelos nossos erros “esquerdistas” no campo da política, em 1957; no campo econômico, esses erros conduziram ao ‘grande salto adiante’ de 1958, o qual redundou em penúria para o povo e estragos imensos na produção. 

De 1959 a 1961, passamos por tremendas dificuldades – a população não tinha o que comer, para não mencionar outras coisas. Em 1962, as coisas começaram a melhorar, e a produção
Voltou gradualmente ao nível anterior. 

Mas o pensamento de “esquerda” persistia. Então, em 1966, veio a ‘revolução cultural’, que durou uma década inteira, um verdadeiro desastre para a China. (…)Diziam-nos que devíamos estar satisfeitos com a pobreza e o atraso, e que era melhor ser pobre em um regime socialista e comunista do que ser rico em um regime capitalista. 

Foi este o tipo de asneira propagada pela ‘bando de 4’. A tese absurda do ‘bando de 4’ sobre socialismo e comunismo só gerou pobreza e estagnação. 

“Nos dois primeiro anos, depois que esmagamos o ‘bando de 4’, nem todos os erros de ‘esquerda’ foram corrigidos. Os anos de 1877 e 1978 foram um período de hesitação na China. 

Só em dezembro de 1978, quando o 11.o Comitê central realizou sua 3.a Sessão Plenária, foi que passamos a fazer uma análise séria de nossas experiências ao longo dos 30 anos desde a fundação da Nova China. 

Formulamos então uma série de novas políticas, notadamente a política de reforma e a política de abertura, tanto interna como externa. 

Definimos uma nova linha mestra que mudaria o foco de nosso trabalho para a construção econômica, derrubando todos os obstáculos e devotando todas as nossas energias ao avanço da modernização socialista. 

Para alcançar a modernização, implementar a reforma e fazer a abertura política, precisamos, internamente, de estabilidade política e unidade e, externamente, de um ambiente internacional pacífico. 

Com isto em mente, firmamos uma política externa que,em essência, cifra-se na oposição ao hegemonismo e na preservação da paz mundial”. 

REMOVENDO AS DIFERENÇAS 

Para que se efetive a meta de estabilidade, unidade e harmonia, a liderança chinesa tem hoje como prioridades reduzir os principais desequilíbrios existentes, como as diferenças de renda entre ricos e pobres; a diferença entre os níveis de desenvolvimento dos centros urbanos e do meio rural; tratam também de promover no Centro e no Oeste do País o nível de desenvolvimento conseguido nas províncias litorâneas do Leste. 

Outras prioridades: impor um paradeiro à corrupção burocrática, responsável pelo desvio anual de bilhões de yuans; conter a devastação ecológica ocasionada por uma industrialização descontrolada, a qual afetou profundamente o solo, a água e o ar, por toda parte. 

* Jayme Martins é jornalista ediretor da Overchina Consultoria e Editoração Ltda.  

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A Declaração Universal dos Direitos Humanos: primado da dignidade humana e do Bem Comum 

Palestra proferida pela Profª Drª Maria Luiza Marcílio no dia 15 de Junho de 2009 no Teatro de São Bento em São Paulo* 

No dia 10 de dezembro de 1948, a Assembléia Geral das Nações Unidas adotava e proclamava a Declaração Universal dos Direitos do Homem, instrumento valiosíssimo que criou na agenda internacional a importância dos Direitos Humanos na convivência da família humana e em escala planetária. 

No ano de 2008 foi celebrado os 60 anos desse documento, marco que mudou a ordem mundial contemporânea e a ordem de cada nação democrática. 

Depois da violência e das destruições da Segunda Guerra Mundial, a humanidade tomou consciência da necessidade de construir uma nova ordem mundial empenhada na sustentabilidade da Paz e na centralidade da tutela e promoção da dignidade da Pessoa Humana. 

A partir da Declaração de 1948, foram sendo efetuados constantes e incessantes aperfeiçoamentos dos Direitos do Homem, acompanhando a evolução de novos contextos, que se concretizaram em tratados de proteção geral, como os Pactos de Direitos Civis e Políticos e o de Direitos Econômicos e Sociais, para citar apenas dois dos mais importantes, ou em tratados de proteção particularizada, como a Declaração Universal dos Direitos da Criança. A USP, através de sua Comissão de Direitos Humanos, vêm reunindo esses instrumentos internacionais (e também os nacionais e históricos) elaborados para aperfeiçoar o respeito e a promoção do Homem todo, em uma Biblioteca Virtual de Direitos Humanos, um dos maiores e mais consultados serviços que presta à sociedade.  

USP 

O impacto, ao longo destes 60 anos, da Declaração Universal foi significativo no processo de desenvolvimento da ordem mundial e no interior de cada país. Valores como a Tolerância, a Fé na Liberdade de Pensamento e de Expressão, a Fraternidade entre os Povos, o respeito à Pessoa Humana estão presentes na maioria das Constituições que regem os paises democratas. 

O processo histórico em que vivemos está marcado pela predominância da cultura do consumo, da mídia, do individualismo, com ênfase no aqui e agora, frente às dificuldades e a rejeição do sofrimento. Hoje é proibido proibir; nada deve restringir o prazer e o ter, erigidos falsamente em grandes valores. 

 A necessidade de um alicerce sobre o qual construir a existência pessoal e social faz-se sentir de maneira premente, sobretudo quando se é obrigado a constatar o caráter fragmentário de propostas que elevam o efêmero ao nível de valor, a riqueza pessoal ao nível de sucesso a ser conquistado a qualquer preço. 

Parece que um dos dramas mais salientes de nosso tempo consiste na “crise de sentido” e na sua conseqüente pulverização de propostas de rumos. Com o crescente fenômeno da fragmentação do saber, ao longo particularmente do século XX, forma feliz para se avançar mais eficazmente à pesquisa cientifica, em contrapartida, tornou-se difícil à procura de um sentido geral para a vida. O imenso crescimento do poder técnico da humanidade está impondo uma renovada e viva consciência dos valores éticos. Faltando estes valores, a alta tecnologia poderia facilmente transformar-se em potencial destruidora do gênero humano ou da Natureza. 

De fato, diante dos desafios que emergem no campo social, econômico, político e cientifico, a consciência ética do Homem desorientou-se. Os problemas mais urgentes da humanidade seriam hoje o problema ecológico, o problema da paz e da convivência das raças e culturas, o crescente fosso entre muito ricos e miseráveis. Eles poderiam ter solução à luz de uma colaboração clara e honesta de cada um, para a renovação da humanidade. A Declaração dos Direitos Humanos trouxe uma contribuição básica para a ética e a solidariedade universal do  mundo globalizado, uma esperança para um convívio melhor. 

A globalização, de fato trouxe novas esperanças para o mundo. Ela trouxe alguns importantes benefícios para a humanidade inteira. Basta lembrar o desenvolvimento explosivo das telecomunicações, o crescimento fenomenal das relações comerciais e financeiras que têm permitido baixar os custos das telecomunicações e das novas tecnologias, a extraordinária rapidez de movimentação das pessoas e de mercadorias, pelo planeta todo. 

Na “Declaração do Milênio das Nações Unidas”, as 191 nações presentes na Assembléia Geral da ONU nesse ano de 2000, por unanimidade declararam: “Nos acreditamos que o desafio central que enfrentamos hoje é o de assegurar que a globalização se torne uma força positiva para todos os povos do mundo” e ainda que, “somente através de esforços vastos e sustentados na criação de um futuro compartilhado, baseado em nossa comunidade humanitária em toda sua diversidade, pode a globalização se tornar completamente inclusiva e justa”.Em escala mundial verifica-se, hoje, que há um despertar e um avanço de consciências pela igualdade de oportunidades e pelo reconhecimento do valor da dignidade humana. 

Mas, por outro lado, a globalização trouxe consigo inquietações e riscos com as novas relações econômicas e com os novos comportamentos sociais. Não estaria aí a tendência ao aumento das desigualdades entre paises industrializados e paises pobres, e mesmo no interior de cada país? Dentro do sistema capitalista neoliberal prevalecente, paralelamente ao crescimento da riqueza, crescem os processos de pobreza. O desemprego atinge cruelmente os mais jovens e os não tão jovens. Estimulada pela miséria nos campos, a migração para as cidades tem resultado na explosão de favelas e de habitações irregulares, meio fácil de produção da violência ou de tráficos ilegais. Nas favelas vivem atualmente, perto de um milhão e meio de pessoas (de um total mundial de quase sete bilhões). 

 Não podemos estar alheios e omissos no esforço de libertar Homens e Mulheres das condições sub-humanas da extrema pobreza, na valorização de Homens e Mulheres em sua dignidade própria e na promoção do Bem Comum. 

Sem dúvida, é centrada na dignidade da pessoa humana que os fundamentos dos Direitos Humanos que são universais e invioláveis, devem ser buscados.  Quando os Direitos Humanos são violados, a dignidade do ser humano está também violada. 

O principio do Bem Comum deriva dos princípios da dignidade, da unidade e da igualdade de todas as pessoas, princípios estes que se integram e compõem o principio da solidariedade ou fraternidade entre os homens. 

A meta prioritária de uma sociedade deve ser o Bem Comum, ou seja, para que o conjunto das condições sociais esteja a serviço e atinja cada ser humano. As exigências do Bem Comum estão estreitamente relacionadas ao respeito e à promoção da pessoa em sua integralidade e com os seus direitos fundamentais respeitados. 

A responsabilidade de promover o Bem Comum compete não apenas às pessoas consideradas individualmente, mas também ao Estado, sendo a Bem Comum a razão mesma de ser da autoridade pública.  O Bem Comum tem valor quando em referência à obtenção universal da dignidade de toda a humanidade, quando a destinação universal dos bens busca cuidar particularmente dos mais vulneráveis, e em especial das crianças às quais pertence o futuro. O Bem Comum deve abranger as imensas multidões de famintos, de mendigos, de sem-teto, dos portadores de necessidades especiais, dos iletrados, dos que não dispõem de assistência médica, e, sobretudo, dos que não têm esperança em um futuro melhor. 

 Essa atenção refere-se não apenas à pobreza material, mas também às numerosas formas de pobreza cultural. O Bem Comum diz respeito ao homem todo, tanto às suas necessidades do corpo, como às do espírito. O Bem Comum consiste no conjunto das condições da vida social que possibilite o desenvolvimento integrado da pessoa humana. Assim, políticos, legisladores e do poder judiciário devem estar cientes de sua responsabilidade social e devem sentir-se particularmente interpelados pela sua consciência a apresentar e apoiar leis inspiradas nos valores impressos na natureza humana e nos Direitos Humanos fundamentais.  

A preocupação se estende ainda à promoção de uma Paz justa e duradoura em todo o mundo. É um contra-senso lutar pela paz; ou fazer a guerra, para obter a paz. A paz vem depois do amor, nunca depois da guerra. Não se luta pela paz, mas pelos Direitos Humanos, pela exaltação da dignidade humana.  

O cidadão está chamado a exercitar livre e responsavelmente o seu papel cívico com e pelos outros; ai está uma das colunas mestras de todo ordenamento democrático e uma das garantias da existência e de permanência da Democracia.  Toda democracia que se quer definida e exercitada pelo povo e em favor do povo deve ser participativa

Os valores sociais inerentes à dignidade humana, e fundamentos da cidadania e da democracia participativa são essencialmente a verdade, a liberdade, a justiça e a fraternidade. A sua prática constitui a via segura e necessária para alcançar um aperfeiçoamento pessoal e uma convivência social mais humana, mais harmônica.   

Os valores da verdade, da justiça, da liberdade nascem e se desenvolvem do manancial interior da fraternidade. Este valor pressupõe e transcende a justiça. Está comprovada e historicamente, que por si só não basta às relações humanas serem reguladas apenas pela medida da justiça se não permitir a força mais profunda que é a solidariedade. Somente a fraternidade pode animar e plasmar o agir social no contexto de um mundo cada vez mais complexo. Este valor não pode ser mostrado apenas como inspirador da ação individual, mas como força capaz de suscitar novas vias para enfrentar os problemas do mundo de hoje e para renovar profundamente, o interior das estruturas, das organizações sociais, dos ordenamentos jurídicos e do próprio homem. A fraternidade nos leva a lutar pelo Bem Comum, a buscar efetivamente o bem de cada pessoa em sua dimensão individual e social, em sua dimensão integral. A fraternidade leva-nos a construir uma sociedade nova por que mais humana.  

A comunidade política deve perseguir o Bem Comum atuando com vista à criação de um ambiente humano em que aos cidadãos seja oferecida a possibilidade de um real exercício dos direitos humanos e de um pleno cumprimento dos respectivos deveres. Isto só será possível se for baseada na ética e nos valores sociais. Ninguém esta isento de colaborar, de acordo com suas possibilidades, na busca e na promoção do Bem Comum e na implantação da ética e dos valores sociais.  Ai esta a parábola dos Talentos a nos servir de guia.  

É fato sobejamente conhecido de que, nas várias culturas e nas várias nações, a distância é vasta entre, de um lado, a letra, a norma, o espírito e, de outro, a realidade concreta. Há uma distância considerável entre o Sonho (a lei) e a Realidade. Aproximar a solene proclamação dos Direitos Humanos com a realidade de violações, de guerras, de violências, da corrupção generalizada, de terrorismos de todo tipo, de genocídios, de deportações em massa, de formas novas de escravidão, de tráfico de mulheres, de crianças violadas, da exploração de trabalhadores, do tráfico de drogas, de uma juventude delinqüente, da prostituição forçada, do uso freqüente da tortura, da destruição sem volta do meio ambiente, dos mares, das águas, das últimas florestas tropicais, eis o grande esforço de cada um de nós e de cada governo, da Universidade.  A Universidade deve ter em seus objetivos básicos, a contribuição na tarefa de encontrar e de propor meios para que se diminua o escândalo da fome, da subnutrição, da miséria material e cultural que padecem milhões de pessoas.  

O imenso desafio é o de diminuir a distancia entre a lei e a realidade da situação social. Um dos caminhos mais seguros para alcançar essa situação humanista ideal passa necessária e prioritariamente pela educação de todos: educação de base de qualidade, e pela excelência na Universidade.  

Tem-se a consciência clara que o quadro teórico tem o papel de servir como modelo imperativo, e de certa forma até utópico e romântico. As concretizações históricas ficam sempre aquém: a teoria é uma, e num certo sentido a prática é outra. A defasagem entre teoria e práxis dos direitos humanos constitui um desafio para governantes e para governados.  

Estamos juntas com o teólogo católico Hans Küng[1] quando afirma “que nosso planeta não poderá sobreviver sem uma ética global, uma ética mundial”. A construção dessa ética global cabe a cada um de nós, na luta pela instauração de uma nova civilização da Liberdade, da Igualdade, da Fraternidade, em uma palavra, uma Civilização do Amor, da Solidariedade, contra toda sorte de violência e de exploração humana, onde o centro das preocupações e das atuações esteja no respeito da dignidade humana e em seu corolário, a ação pelo Bem Comum.  

Evidentemente, repetimos o ideal pertence ao campo da utopia. Não se supõe uma desarticulação ou um desconhecimento da complexa realidade social. A busca do ideal apresentar-se de forma tendencial; não se pode pretender mais do que isso.  

As causas dos Direitos Humanos como causas universais é um fermento de esperança e de solidariedade que apostará na infalibilidade da causa da justiça e da fraternidade. Nos Direitos Humanos estão os fundamentos e a esperança, por um amanhã melhor.  

Para terminar gostaria de contar-lhes uma velha lenda que li recentemente no belo livro do Rabino Nilton Bonder. “Tirando o sapato: O caminho de Abraão, um caminho para o outro” O titulo “tirando os sapatos” ele extraiu do Livro do Êxodo (3-5): “tira teus sapatos dos pés porque o lugar em que tu estás é terra santa. Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão”. A moral dessa historinha esta no ensinamento da corrente da solidariedade e em sua importância para a transformação de nosso comportamento, ante as exigências do bem comum e da promoção da dignidade humana.  

A velha lenda fala de um homem perdido num deserto, já a ponto de morrer de sede. Quando estava por se desesperar avistou um abrigo rudimentar, onde havia uma velha bomba de água. A bomba estava tão enferrujada que o homem, mesmo com seu empenho, não conseguiu retirar uma única gota de água. Então deu com os olhos em uma garrafa cheia de água límpida, escondida atrás da bomba. Nela havia um bilhete com instruções claras. “Derrame todo o conteúdo da garrafa dentro da bomba e ela funcionará. Mas deve ser toda a água: caso contrário, não irá funcionar. Feito isso, encha novamente a garrafa e deixe para o próximo viajante”. Diante da água que ele tanto precisava para sua sobrevivência, o homem ficou num dilema. Cumprir as instruções da garrafa ou garantir sua vida? Finalmente, optou por seguir a sugestão da garrafa. Despejou toda a água dentro da bomba, temeroso de que poderia esta jogando fora sua própria sobrevivência. Começou a bombear. Inicialmente a bomba começou a ranger, mas nada de água. Ele insistiu e pouco a pouco a bomba foi ganhando pressão e um filete deu vazão a um fluxo que fez jorrar água em abundancia. Depois de beber a água cristalina à saciedade ele encheu a garrafa como instruído.  

*Maria Luiza Marcilio 

Professora Titular do Departamento de Historia 

Presidente da Comissão de Direitos Humanos da USP 


[1] KÜNG, Hans.A Igreja Católica. Rio de Janeiro, Objetiva, 2002. 

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Colesterol e Saúde: Mitos e Verdades

Palestra proferida pela Dra Tânia Leme da Rocha Martinez no dia 13 de Maio de 2009 no Teatro de São Bento em São Paulo.*

Atualmente a principal causa de mortalidade no mundo, tanto em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento é a doença cardiovascular. Dentre as diversas morbidades compreendidas sob o nome de “doença cardiovascular”, as principais em termo de mortalidade são a doença arterial coronária e o acidente vascular cerebral (popularmente conhecido como derrame). Estudos de projeção de mortalidade prevêem que por volta do ano 2040 o Brasil será o país com o maior número de mortes por doença cardiovascular. 

Vários fatores contribuíram para estas doenças tornarem-se as líderes de mortalidade: inicialmente, a pressão evolutiva presente há milhares de anos em nossos antepassados, privilegiou aqueles que tinham um metabolismo melhor adaptado para o armazenamento de energia, sendo que estas características metabólicas transferiram-se geneticamente aos seus descendentes; na era moderna, já com maior disponibilidade de alimentos, este genótipo favoreceu o desenvolvimento de obesidade; além disso, a adoção do estilo de vida ocidental, com uma dieta hipercalórica e rica em gorduras saturadas e carboidratos simples, a utilização de veículos automotivos ao invés da caminhada a pé ou da bicicleta, a diversão através de cinema, televisão ou computador, levando ao sedentarismo, o consumo de cigarros e bebidas alcoólicas, a vida agitada, estressante e competitiva, foram importantes determinantes para o aumento na prevalência das doenças cardiovasculares. 

Todos estes fatores acabaram gerando uma verdadeira epidemia de obesidade, a qual é um fator de risco importantíssimo no mínimo para várias doenças. Também em conseqüência dos fatores citados acima, assiste-se a uma alta prevalência de hipertensão arterial, de dislipidemias (“colesterol alto”) e de diabetes. 

O que fazer então para tentar diminuir a ocorrência de doença cardiovascular? 

O primeiro passo é a conscientização da população, que deve procurar orientação médica sobre a prevenção de doenças. 

Atendendo à solicitação, o médico deve prever o grau de risco do paciente e tomar as medidas que se fizerem necessárias para a redução deste risco. Entretanto, para a implementação destas medidas, o médico muitas vezes vai depender do apoio de uma equipe multidisciplinar (nutricionista, psicólogo, professor de educação física, fisioterapeuta, enfermeiro, assistente social, etc) e também da colaboração do próprio paciente. Inicia-se sempre com a mudança no estilo de vida, mudança esta que compreende uma série de alterações comportamentais, nem sempre muito fáceis de serem realizadas. O paciente deve corrigir o sedentarismo e iniciar a prática de atividade física, que pode variar desde uma simples caminhada até a prática de esportes ou academia de ginástica, dependendo da preferência do paciente e da indicação médica. 

Exercícios

 Deve-se abandonar o tabagismo quando este está presente. Quanto às bebidas alcoólicas o paciente deve ser orientado para uma restrição em seu consumo, de acordo com seus dados clínicos. 

Em relação à dieta, deve-se consumir alimentos saudáveis e naturais, equilibrada na proporção de seus nutrientes, sendo que esta dieta vai variar dependendo das morbidades já presentes, por exemplo, obesidade, hipertensão arterial, dislipidemias, diabetes. De uma maneira geral deve ser constituída por proteínas, carboidratos complexos, gorduras mono ou poliinsaturadas, com o total calórico diário dependendo do peso do paciente. O sal acrescentado não deve ultrapassar 5 gramas por dia, sendo  esta quantia reduzida no caso de hipertensão arterial. 

Contato com a natureza

Se apesar destas medidas as condições clínicas do paciente não forem corrigidas, faz-se necessário o uso de medicamentos, seja para a correção da obesidade, da dislipidemia, do diabetes ou da hipertensão arterial. Hoje em dia dispõem-se também de fármacos que auxiliam no abandono do tabagismo; de uma maneira geral, salvo algumas exceções estes fármacos devem ser utilizados de maneira permanente, sempre sob orientação médica. 

Com o comprometimento da população e a adoção das recomendações médicas, podemos combater preventivamente a doença cardiovascular, diminuindo seu custo tão elevado, não só financeiramente como também na qualidade de vida das pessoas acometidas.  

*Dr. Sidney Carvalho Fernandes 

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A contribuição dos Beneditinos na São Paulo contemporânea (O sentido da Vida Monástica hoje na Igreja) 

Palestra proferida por Dom Abade Mathias Tolentino Braga, OSB no dia 14 de Abril de 2009 no Teatro de São Bento em São Paulo* 

Ao nos propormos este tema “o sentido da vida monástica hoje na Igreja”, creio ser apropriado nos colocarmos antes a questão: a vida monástica tem algum sentido para o homem de hoje? Mais precisamente, esta questão não se situa só na ordem do ser, mas também no âmbito da mentalidade que se estabelece atualmente, em que o próprio vocábulo “monástico” soa sem significação para muitas pessoas. 

Apresento aqui um fato atual que nos sugere esta cautela: recentemente um dicionário inglês destinado aos jovens, editado pela Oxford University Press, provocou uma polêmica ao excluir algumas palavras associadas ao universo cristão do seu vocabulário (cf. Passos, Revista mensal de CL, ano XXIV, nº 101, jan./fev. 2009, p. 27).  Alguns destes verbetes supressos eram justamente relacionados à missa católica e à vida monástica: altar, capela, bispo, batizar, discípulo, ministro (de culto), páscoa, pentecostes, eucaristia, paróquia, púlpito, santo, pecado, diabo, banco (de igreja), abade, abadia, monges, mosteiro, convento. O argumento para a exclusão é de que estas palavras caíram em desuso, porque se referem a realidades que já não fazem parte da vida cotidiana das pessoas, porque a maioria das pessoas já não vai mais à igreja. 

Deixando de lado a polêmica se a exclusão destas palavras não revelaria uma marginalização do cristianismo na cultura ocidental, consideremos tão somente este fato incontestável de que hoje vivemos num mundo multicultural, pluri-religioso e em constantes e abruptas mudanças. Até mesmo circunscrever este “hoje” não é tarefa fácil: qual é a atualidade do hoje, num mundo pós-contemporâneo, em que o “hoje” não se confunde com o presente, mas o extrapola, porque, ao mesmo tempo em que é gerado no passado e carrega seus condicionamentos, já nasce prenhe do futuro que irrompe a todo o momento e nos impulsiona a nos refazer continuamente: é o mundo globalizado da internet, celulares, twitter, blogs etc. 

Primeiramente, creio que, ao menos entre nós, em São Paulo, no Brasil, na TV brasileira, ainda têm sentido as palavras monge, mosteiro, monaquismo. Se bem que, mais corriqueiramente, vamos evidenciando na mídia em geral um estranhamento de muitos em relação a estas realidades, por exemplo, quando se substituem tais vocábulos por estrangeirismos como monastério e manasticismo. Todavia, ao se falar em monge, pensa-se, de maneira geral, em uma realidade muito mais larga que o monaquismo cristão e católico. Por vezes, é apreendido como uma religiosidade totalmente alheia e diversa da experiência cristã. Não é raro entre nós associarem os monges antes a budistas ou a hindus. 

Ademais, entre os cristãos que reconhecem “o monge e o mosteiro” como parte integrante de sua Igreja, ao pensá-los, muitos têm diante de si um monaquismo descrito na literatura – quase sempre sob o signo de estereótipos, numa visão anacrônica, resultado de uma reconstrução arqueológica. Assim o Mosteiro aparece ao senso comum como um lugar retirado à beira de um magnífico lago, ou no alto de uma bela montanha, diante de um íngreme desfiladeiro, ou no interior de uma densa floresta, ou ao menos cercado de um aprazível bosque; enquanto o monge, que o habita, é idealizado genericamente como um contemplativo alheio às realidades da vida do homem comum. Ou seja, são imagens e idéias caricaturadas que abordam aspectos externos destes conceitos, não penetrando a identidade mesma do ser monge nem o dinamismo da vida em um mosteiro. 

Diante disso, o que um monge pode falar de si, da vida monástica e de sua Igreja para o homem de hoje? De uma maneira simples, mas ousada, afirmo que ser monge, em qualquer tempo e lugar, é tornar-se humano, é defrontar-se com a própria existência diante do mundo e empreender a busca de dar-lhe um sentido mais pleno e totalizante. Nesta acepção, creio poder referir-me a esta realidade na sua dimensão antropológica mais ampla, isto é, dentro do espectro multicultural e pluri-religioso.  

claustro 

 Tornar-se humano: isso não é coisa fácil nem banal, pois, em todo tempo e lugar, para cada indivíduo (e para toda comunidade e civilização), este é um empreendimento sempre desafiador! Ao contrário, em oposição à meta do monge, é com a desumanização que nos deparamos diuturnamente. É desumano tudo que fere a dignidade da pessoa: o desemprego, a fome, a pobreza e a violência, gerados pela exclusão e pela exploração de nosso semelhante, frutos de nossa cegueira ou acomodação ante os próprios males, da nossa indiferença diante dos males alheios, do consumismo imposto pelo mercado que nos leva à escravidão alienante pela droga e pelo hedonismo. É sempre desumano intimidar-se ante os desafios da vida!  Pecar não é humano: é desumanizador manchar-se com o mal e com a injustiça, porque isso desfigura a pessoa, fere-a em sua dignidade. 

Doutra parte, também podemos sempre contemplar o extraordinário e maravilhoso fazer-se humano através do trabalho e do convívio. Por exemplo, as artes, as ciências, a política, o esporte… são expressões deste humanizar-se. Também o é gerar e educar um filho, cultivar uma amizade, apreciar sabiamente as coisas e os momentos, mesmo quando estes vêem marcados pela dor e pelo sofrimento. Ser humano não acontece espontaneamente sem o concurso consciente da pessoa, é necessário seu agir, livre e responsável, atuando em sua vontade e em suas capacidades. Ser humano é ser diverso e único: conservador, progressista, descolado, brega, camponês, empresário, varredor de rua, professora, erudito, iletrado, adolescente, idoso… é ser gente, é ser alguém. 

O Humano e o Desumano acompanham o mistério de nossa existência, e não é a cultura ou a racionalidade, o acúmulo de conhecimento por si só, que nos faz melhores, mas a maneira como agimos livremente diante do ter e do ser, como direcionamos nossa vontade nas escolhas diante da vida e de Deus. Constatamos que mesmo a racionalidade pode brutalizar o ser humano, levando-o a aprimorar-se na arte de fazer o mal, de prejudicar o outro, de centrar-se em seu egocentrismo, de desferir agressões a si próprio e a seu semelhante, de destruir o meio ambiente. Humano é buscar o bem comum, é primar-se pela ética, doar-se pelo bem de outrem e, sobretudo, acolher o encontro com o Divino. 

Mas nem todo aquele que se constitui em ser humano, que persegue esta meta, é monge. Na verdade, monge é coisa raríssima sempre – mesmo dentro da Igreja! Embora o monge se identifique com tudo que seja verdadeiramente humanizador. O que lhe é peculiar e distintivo é, sobretudo, sua espiritualidade assumida como o caminho de sua realização pessoal. Podemos, portanto, identificá-lo entre aqueles que buscam tornarem-se humanos através de sua relação com a Divindade, com o Sagrado, com o Absoluto. 

No cristianismo e na Igreja, o monge se compreende à luz do Evangelho. Assim seu humanizar-se se dá em conformidade com a Palavra de Deus revelada em Jesus Cristo que, em sua humanidade divina, inspira o amor a Deus sobre todas as coisas. Mas, mesmo isso não é específico dele, pois na Igreja, através de muitas outras formas de vida, diversas da monástica, pode-se empreender a aventura da vida humana fundando-a na correspondência ao amor de Deus. Portanto, à vida monástica, além de defini-la como a busca verdadeira de Deus (Si revera Deum quaerit, RB 58, 7), devemos acrescentar-lhe ainda a maneira como o monge realiza tal busca, tanto no plano interno da pessoa, como no externo, na sua relação com o mundo e com as demais pessoas. Assim, interiormente, o monge busca a perfeição humana através da purificação do coração mediante o exercício de abandono de si mesmo, do renegar-se a si mesmo; enquanto externamente o faz através da fuga do mundo, do desapego das coisas, do recolhimento, do silêncio, da contemplação, da meditação. 

Tanto no esvaziar-se de si, quanto na fuga do mundo, o monge, em seu aniquilamento, diante de seu tempo e no lugar onde se encontra, assume uma existência contestatória, que suscita novidade e provocação a si mesmo e aos seus semelhantes. Assim, caracteriza-se antes por propor perguntas que dar respostas. Não se confunde com a massa dos humanos, mas dela se retira, não por desprezo, mas por deferência à mesma humanidade que, contemplada em si e nos outros, instiga-lhe a partir ao encontro de Deus. 

Este êxodo de si e do mundo custa ao monge esforço e luta, pois almeja uma conquista. Destarte, a idéia de tranqüilidade que é primeiramente associada ao monge, esconde uma inquietação que lhe é constitutiva. É constitutiva não só dele, mas de todo ser humano: em sua fuga do mundo, o monge revive a errância humana, esta dimensão existencial do ser humano que sempre se coloca a caminho, como eterno migrante, como peregrino desassossegado. Não só no plano físico-geográfico, em que o vemos, desde os seus primórdios, ser nômade, ser andarilho a intercambiar-se entre os diversos povos; mas também no plano espiritual diante de sua existência terrena compreendida como passagem a outra realidade, diante da vida como trajeto contínuo, como ponte que ele próprio deve construir desde sua origem até o seu destino último. 

Neste sentido podemos compreender a vida do monge à semelhança da saga de Abraão narrada na Bíblia em sua autêntica experiência de se confrontar com Deus, ao partir da sua terra natal de Harã para a desconhecida terra de Canaã: “O Senhor disse a Abrão: ‘Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrarei. Farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma bênção […] Por ti serão abençoados todos os clãs da terra!’. E Abrão partiu, como o Senhor lhe havia dito.’” e disse ainda o Senhor a Abraão: “Eu sou o Deus Poderoso. Anda na minha presença e sê perfeito.” (Gn 12, 1-4; 17,1). 

Neste convite de Deus a Abraão, para ele se pôr a andar e a aperfeiçoar-se, vemos o constante movimento migratório inerente ao ser humano ser espiritualizado, ser re-significado à luz da Palavra Divina. Este andar, este partir e viver no encalço de uma promessa divina, na procura de um destino a conquistar, o monge o vive em sua retirada do mundo. Em São Bento, mesmo ao propor em sua Regra a estabilidade para o monge, a fuga do mundo se faz no interior do claustro do mosteiro: o monge se coloca conscientemente em êxodo tal qual Abraão, deixando-se guiar por uma promessa. Ao fixar-se no seu eremitério ou no seu cenóbio, em sua estabilidade, o monge parte para uma peregrinação espiritual, uma aventura humano-divina. 

Também assim, na inquietação da vida monástica, podemos compreender as recomendações de Jesus ao enviar seus discípulos em missão pelos caminhos ao encontro do povo: “De graça recebestes, de graça dai. Não leveis ouro, nem prata, nem cobre […] Não penseis que vim trazer a paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a espada. […] Aquele que ama pai ou mãe, filho ou filha, mais do que a mim não é digno de mim […] quem perde a sua vida por causa de mim, vai achá-la. […] Todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras, por causa do meu nome, receberá muito mais e herdará a vida eterna” (cf. Mt 10,5-42; 19,29). Sob a égide deste conselho evangélico, o monge se define, portanto, pela sua vocação de abandonar-se à Providência. Abandono que também lhe confere a marca de contemplativo, como se segue também em mais estas palavras de Jesus: “Não vos preocupeis com a vossa vida quanto ao que haveis de comer, nem com o vosso corpo quanto ao que haveis de vestir […] Olhai as aves do céu […] vosso Pai celeste as alimenta. Aprendei dos lírios do campo […] como vosso Pai celeste os veste de glória e esplendor […] Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça e todas as demais coisas vos serão acrescentadas ”(Mt 6,29.33; Lc 12,27.31). 

Quanto à busca da pureza de coração (puritas cordis), esta luta interior do monge constitui o meio proclamado por Jesus para se alcançar a meta última que é a contemplação de Deus: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). Com propriedade ensina Santo Irineu: “a glória de Deus é a vida do homem e a vida do homem é a visão de Deus”, isto é, a vida do homem é o lugar onde Deus se manifesta excelentemente, e esta contemplação de Deus traz a verdadeira vida ao homem. Portanto, na vida monástica, a pureza de coração que conduz a Deus é alcançada sobretudo no próprio convívio humano, através dos desafios que isso nos impõe ao exigir um constante aperfeiçoamento no trato entre nós, ao consideramos o ser humano em sua dignidade própria e, mais ainda, ao ponderarmos sua divinização por Jesus. Enfim, no convívio fraterno, o monge é aquele que, com solicitude, busca verdadeiramente a Deus, dia e noite, “subindo todos os graus da humildade”, de modo a obter a purificação de seu coração e atingir a perfeita caridade de Deus; quando, então, o próprio Senhor, por meio do Espírito Santo, manifesta-Se e Se deixa ver (cf. RB 7, 67.70). 

Dom Abade Mathias Tolentino Braga
Dom Abade Mathias Tolentino Braga

Como conclusão, diria que o sentido da vida monástica hoje na Igreja exige do monge uma empenho eclesial, ecumênico, inter-religioso e multicultural. Sempre há que se considerar a vida monástica como uma constante que acompanha a realidade humana em sua dimensão antropológica espiritual. Neste sentido, diviso a vida monástica como um dentre os vários caminhos de humanização possíveis, isto é, uma dentre as muitas tentativas do ser humano de se expressar como pessoa. À luz da fé revelada é mais: é testemunhar a presença de Deus no mundo, identificando-se com Jesus Cristo diante da humanidade. O monge no seu modo peculiar de viver deve, portanto, fazer-se pessoa humana e de fé, empenhado em ser santo, perfeito e misericordioso, individual e comunitariamente, sempre interagindo com o mundo, tendo sua consciência enraizada na Palavra de Deus e na interdependência com seus semelhantes.  Desta forma, torna-se fiel à sua vocação pessoal e evidencia que o ser humano somente se dignifica plenamente quando corresponde ao dom de sua vida, e, sobretudo, que seu agir comprometido com a vida se torna um imperativo quando é Deus mesmo que vem ao seu encontro. Assim a vida monástica deve expressar seu sentido hoje se tornando autêntica referência ao divino e ao humano, não só na Igreja, mas também diante do mundo. 

*Dom Abade Matthias Tolentino Braga OSB, Abade do Mosteiro de São Bento de São Paulo.  

 

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6 Respostas to “Palestras”

  1. Maria Teresa Alvarez Says:

    Excelente site, excelentes artigos.

  2. gilberto Says:

    como e possível me candidatar na ordem Cartuxa

    1. Cultura Geral Says:

      Caro Gilberto,
      Para obter tal resposta, o senhor deve entrar em contato com os próprios cartuxos. Eis o endereço:
      Cartuxa Nossa Senhora MEDIANEIRA
      98160 – 000 – IVORÁ – RS – BRASIL
      Tel. et Fax (055) 3289 50 21

      Atenciosamente,

      Ir. João Baptista, OSB
      e-mail :

  3. Isabel Says:

    Olá.
    Onde tenho acesso à programação das próximas palestras deste ano? No site encontrei apenas as que já aconteceram.

    Obrigada.


  4. Olá!

    Também quero saber QUANDO sai e SE PODEM ME ENVIAR por e-mail a programação das palestras para este ano de 2011.

    E TAMBÉM onde se encontra informações sobre o Curso com o Prof. Joel, que deu Patrística no ano passado.
    Obrigada.

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