Abadia de Santa Maria*

Faltava no Brasil o ramo feminino da Ordem Beneditina, as monjas, filhas do grande patriarca, que se dedicam à vida contemplativa. Tardou, mas afinal chegou o dia previsto nos desígnios de Deus para a realização dessa obra.

Em 07 de Maio de 1907 seguiu para a Inglaterra, com destino à abadia de Nossa Senhora da Consolação de Stanbrook (Worcester), Dona Ana Abiah da Silva Prado, filha de uma das principais famílias de São Paulo, para fazer o noviciado naquele mosteiro e mais tarde realizar a fundação de um cenóbio de monjas beneditinas no Brasil.

Pouco tempo depois outras jovens de distintas famílias brasileiras trataram de regressar à pátria. Entretanto o zeloso abade, Dom Miguel Kruse, o inspirador dessa fundação, havia preparado o necessário para o estabelecimento das monjas em São Paulo. Escolheu para a futura abadia um sítio em bairro aprazível e afastado do centro ruidoso da cidade, e cuidou da construção de belo mosteiro em estilo romano-florentino, o qual estava quase em condições de receber as monjas, quando de regresso ao Brasil.

Partiram da Inglaterra em 28 de Setembro de 1911, acompanhadas por três outras monjas inglesas da abadia de Stanbrook, tendo como prioresa uma delas, a Ver. Madre Dona Domitila Tolhurst, que faleceu a bordo, em viagem, já em águas do Brasil. Ao chegarem a São Paulo, 18 de Outubro, acolheram-se no Sanatório Santa Catarina – atual Hospital Santa Catarina, na Avenida Paulista -, e Dona Gertrudes Cecília Prado foi nomeada prioresa da nova fundação.

A 24 de Novembro do dito ano (1911), tiveram o imenso prazer de tomar posse do seu mosteiro nele estabelecendo desde logo a vida regular monástica. Presidiu o ato da instalação das monjas e da clausura do mosteiro Dom Gerardo Van Caloen, Arquiabade da congregação, à qual ficou o cenóbio das monjas filiado, como parte integrante da mesma.

No ato de posse do mosteiro a Rev. Dona Prioresa recebeu, genuflexa, à porta principal, as chaves da casa das mãos do Rvmo. Arquiabade, e nesse mesmo dia foi inaugurado solenemente o Opus Dei, cujas melodias desde então sobem diariamente ao trono de Deus, unindo-se às melodias celestes.

Deus abençoou esta fundação. Em 1917 a comunidade contava já com 12 professas solenes. O Arquiabade dirigiu-se então à Santa Sé, pedindo elevá-la a abadia, ao que o Santo Padre Bento XV, tendo anuído, fez expedir a Bula “Ad perpetuam rei memoriam”, de 25 de Janeiro de 1918, pela qual elevava o mosteiro à categoria de abadia de clausura papal, com todos os privilégios e isenções das abadias da Congregação Brasileira, e nomeava a Rev. Prioresa Dona Gertrudes Cecília da Silva Prado, sua primeira abadessa.

No dia 15 de Março foi ela instalada nesse cargo, conforme o ritual monástico, e em 08 de Abril seguinte, recebeu a bênção abacial solene. A cerimônia realizou-se, com a devida licença, na Igreja Abacial de Nossa Senhora da Assunção do Mosteiro de São Bento, sendo oficiante o Senhor Arcebispo Dom Duarte Leopoldo e Silva.

Ao ato, que se revestiu de grande solenidade, compareceram, além do Cabido Metropolitano e outros vultos do clero, as autoridades civis e grande número de outras gradas.

Os anos seguintes assinalaram-se pelo crescente desenvolvimento da abadia. Graças ao aumento da família monástica, os atos litúrgicos foram executados com maior perfeição e esplendor, apesar de a abadia não ter ainda condigno templo para as funções do culto. Só em 1932 é que se iniciaram as obras da igreja abacial, terminada em Novembro do ano seguinte.

A Rvma. e zelosa madre abadessa, a par dos deveres primordiais da vida contemplativa – Opus Dei, meditatio, lectio divina, etc. – fez desabrochar na abadia o trabalho sob seu duplo aspecto: intelectual e manual, de acordo com a tradição multissecular da Ordem de São Bento.

Assim o mosteiro de Santa Maria tornou-se um Centro de Estudos. Foi facilitado às monjas estudo mais aprimorado do latim e do grego, do canto gregoriano, das ciências eclesiásticas e também da arte sacra. Dedicaram-se ainda à divulgação da boa imprensa, não só traduzindo para o vernáculo obras litúrgicas e de espiritualidade em geral, como também se ocuparam da impressão, em modesta tipografia, de trabalhos feitos na abadia.

Esta tipografia foi adquirida em 1929 e prestou bons serviços ao mosteiro. Há outras oficinas em que as monjas exercem a atividade manual: pintura, bordado, peças sacras e biscoitos – algumas peças são encontradas na loja do mosteiro. Várias outras ocupações de caráter exclusivamente monástico desempenham ainda as religiosas nas horas dedicadas ao trabalho manual.

Em 1936, após 25 anos de fundação do mosteiro, as monjas tiveram a grande satisfação de ver aprovadas pela Santa Sé as “Declarações” da Santa Regra para as beneditinas da Congregação Brasileira.

Fundação na Argentina

A pedido do padre prior do mosteiro de São Benito de Buenos Aires, Argentina, Dom André Azcárate, ingressou em Santa Maria, em 1939, um grupo de distintas jovens argentinas para fazerem na abadia o noviciado e depois de formadas na vida monástica realizarem a fundação de um mosteiro na Argentina.

Acolhidas com grande solicitude pela madre Abadessa e comunidade, aí fizeram o noviciado, seguidas de outras jovens que vieram posteriormente.

Em 1941 as primeiras monjas portenhas, acompanhadas por três outras brasileiras, entre as quais a Prioresa da nova fundação, Dona Plácida de Oliveira, partiram do Brasil para a Argentina e se estabeleceram em Punta Chica, perto de Buenos Aires, no mosteiro de Santa Escolástica, que fora entretanto para este fim construído.

Passado quatro anos, em 1945 o Rvmo Dom Arquiabade, Lourenço Zeller, consagrou a igreja do mosteiro. Dois anos depois o mosteiro foi elevado à categoria de abadia, sendo nomeada a Ver. Prioresa, Dona Plácida de Oliveira, Abadessa da mesma, a qual foi empossada no cargo a 15 de Março seguinte e recebeu a bênção abacial, solene, a 13 de Abril, sendo esta a segunda abadia Beneditina da América.

Morte da primeira Abadessa

Aos 10 de Março de 1944, Dona Gertrudes Cecília da Silva Prado, fundadora e primeira abadessa do mosteiro de Santa Maria, faleceu santamente, assistida pelo padre capelão da abadia e rodeada de suas filhas espirituais.

No dia 15 realizaram-se os funerais, presididos pelo Dom Arquiabade Lourenço Zeller. Os despojos mortais foram inumados no coro da igreja abacial, de modo que as monjas, ao cantarem os louvores divinos e outras funções litúrgicas, tem em mente a presença da Mestra e Mãe.

2ª Abadessa

No dia 13 de Abril seguinte as monjas, depois da missa do Espírito Santo, reuniram-se sob a presidência do chefe da Congregação, Rvmo Dom Lourenço Zeller, a fim de preceder à eleição da nova abadessa.

Logo nos primeiros escrutínios foi eleita Dona Rosa de Queiróz Ferreira, zelosa prioresa da abadia, recebendo a bênção abacial, solene, das mãos do Rvmo Dom Arquiabade no dia 16 do dito mês.

3ª abadessa

Após a morte da Rvma Abadessa Dona Rosa de Queirós Ferreira, foi eleita nova abadessa, Maria Teresa Amoroso Lima, em 5 de Maio de 1978. Filha do saudoso Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, Me. Maria Teresa ficou a frente de todas as necessidades das irmãs e da própria Abadia por 33 anos.

Foi uma das monjas responsáveis pela transferência da sede da abadia para a Zona Norte de São Paulo, no Jardim Tremembé. Faleceu a 1 de Julho de 2011.

4ª abadessa

A Abadia de Santa Maria se renova e elege uma nova abadessa. A 06 de Agosto de 2011, foi eleita sua 4ª Abadessa, Madre Escolástica Ottoni Mattos. Dois meses depois, a 09 de Outubro de 2011, aconteceu sua Bênção Abacial.

O evento aconteceu na igreja do referido mosteiro, tendo como presidente da celebração o Cardeal Dom Odilo Scherer. Contou com a presença do Arquiabade da Bahia e Presidente da Congregação Beneditina Brasileira, Dom Abade Emanuel d’Able do Amaral, do Abade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, Dom Matthias Tolentino Braga e demais abades beneditinos. Também abrilhantaram a celebração, as abadessas da congregação beneditina brasileira, monjas e monges de diversos mosteiros do Brasil e monjas do Mosteiro de Santa Escolástica de Buenos Aires, Argentina – primeiro mosteiro fundado pela Abadia de Santa Maria.

Com a igreja lotada, Dom Odilo concedeu a Bênção demonstrando contentamento com a nova abadessa e a comunidade de Santa Maria.

Em ação de graças foram aclamados os versos das “Laudes Hincmari” – antigas aclamações que exaltam o acontecimento e são feitos pedidos a Deus.

O Mosteiro de Santa Maria foi fundado  na região da Av. Paulista e transferida para nova sede na Zona Norte de São Paulo, em 26 de Novembro de 1976. A construção atual é projeto do importante arquiteto austríaco Hans Broos.

Fundações diretas da Árvore Mãe:

1941: Mosteiro de Santa Escolástica na Argentina

1949: Mosteiro de Nossa Senhora das Graças em Belo Horizonte – Minas Gerais

1960: Mosteiro da Santa Cruz em Juíz de Fora – Minas Gerais

1974: Mosteiro Nossa Senhora da Paz em Itapecerica da Serra – São Paulo.

Dessas quatro fundações surgiram:

06 Mosteiros na Argentina

13 Mosteiros no Brasil

 

Celebrações:

24 de Novembro – 8h – Missa do Jubileu de 100 anos da Abadia de Santa Maria presidida pelo Abade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, Dom Abade Matthias Tolentino Braga, OSB;

11 de Dezembro – 9h – Missa com o Abade Primaz da Ordem de São Bento, Dom Abade Notker Wolf, OSB.

 

*Texto de Dom Joaquim Luna, OSB, em Os Monges Beneditinos no Brasil. Edições Lumen Christi, Rio de Janeiro. 1947. Adaptação, acréscimo e revisão: Ir. João Baptista Barbosa Neto, OSB.