Antigo palco de festas e eventos sociais, local também ganha exposição fixa

Restaurado: edifício tinha sérias falhas estruturais

Arthur Guimarães – Veja São Paulo

Não satisfeita com os sete anos em que viveu o papel de amante de dom Pedro I no Rio de Janeiro, Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos, mudou-se para São Paulo em 1829, quando seu caso com o imperador chegou ao fim, e seguiu no altíssimo nível de relacionamentos: casou-se com Rafael Tobias de Aguiar, bom partido que era nada menos que uma espécie de governador do estado na época. Coincidência ou não, ela decidiu morar bem ao lado do trabalho do novo amor, que despachava no palácio oficial erguido onde hoje está o Pátio do Colégio. Comprou então um imóvel na Rua do Carmo, hoje chamada Roberto Simonsen. O Palacete do Carmo, ou Solar da Marquesa de Santos, fervia. Era palco de tradicionais eventos sociais e animadas festas. Também se realizavam ali reuniões beneficentes, já que Domitila tinha uma associação de apoio a prostitutas e mães solteiras, e saraus literários que contaram com a participação de poetas como Castro Alves.

Após sua morte, em 1867, o endereço acabou descaracterizado. Em 1909, o imóvel foi adquirido pela The São Paulo Gaz Company, que demoliu paredes, janelas e portas, além de alterar o desenho do telhado. O tombamento veio somente em 1971, quando não restavam mais vestígios de parte da arquitetura original.

De lá para cá, inúmeros projetos de restauro foram prometidos pelo poder público. Na prática, o edifício ficou esquecido e se deteriorou. “As calhas do telhado já se haviam oxidado, e isso ocasionara vazamentos e infiltrações que comprometiam algumas paredes feitas de taipa”, explica Regina Ponte, diretora do Museu da Cidade, que funciona em determinadas salas do imóvel desde 1993. Esse quadro decadente começou a ser revertido nos últimos três anos, com um projeto de obras financiado por um empréstimo de 3,5 milhões de reais do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O prédio reformado será aberto para visitação pública no próximo sábado (19).

A fachada, as pinturas na parede e os salões passaram por reformas. Foi criada ainda uma sala refrigerada para armazenamento de todo o acervo iconográfico de São Paulo, que estava guardado precariamente no local. Os visitantes também poderão contemplar uma exposição fixa montada para contar a história do solar e da própria marquesa de Santos. No espaço, foram reunidos os poucos objetos que pertenciam a ela e sobreviveram ao tempo. Há somente uma cama, um espelho e uma espreguiçadeira, entre outros pequenos utensílios, todos garimpados em museus pelo Brasil. “É difícil encontrar esses artigos. Mas vamos engordar o acervo com outros itens da época”, afirma a curadora Heloisa Barbuy.

O salão de festas: casarão fervia com eventos dados pela Marquesa

A mostra foi dividida em três partes, espalhadas por treze cômodos: uma sobre a Rua do Carmo e os entornos, outra a respeito da vida da antiga proprietária e, como não poderia deixar de ser, um espaço para lembrar a tórrida história de amor entre ela e dom Pedro I, por meio de cartas enviadas pelo imperador, que as assinava como “Demonão” e chamava a amante de “Titília”.
 

UM MUSEU DE FOTOS

Bem ao lado do Solar da Marquesa, o paulistano poderá conferir outra novidade que está saindo do forno da Secretaria Municipal de Cultura. Na chamada Casa Número 1, também reformada recentemente, funcionará a Casa da Imagem, espaço que sediará exposições de artistas e fotógrafos que usam São Paulo como matéria-prima para seus registros. “Serão três salas em que vamos exibir o que há de melhor no acervo iconográfico da cidade”, explica Henrique Siqueira, gestor do museu. A inauguração será feita com uma mostra sobre Guilherme Gaensly (1843-1928), um dos mais respeitados fotógrafos de seu tempo. Ele registrou com maestria um centro ainda movido a charretes e bondes. Na abertura, será feito também o lançamento de um livro sobre o autor, montado pela editora Cosac Naify.