“Das virtudes quase não se fala mais. Isso não significa que não precisemos mais delas, nem nos autoriza a renunciar a elas. É melhor ensinar as virtudes, dizia Spinoza, do que condenar os vícios. É melhor a alegria do que a tristeza, melhor a admiração do que o desprezo, melhor o exemplo do que a vergonha.” Pequeno Tratado das Grandes Virtudes (A.Comte-Sponville, capa do livro)

Como se pode ver, o livro não trata de um romance mas, assim como o livro ‘Ética para o meu filho’, trata um tema específico: as virtudes. O autor divide o livro em 18 capítulos que contemplam 18 virtudes. É um tanto filosófico, dado que o próprio autor é um filósofo, mas é muito gostoso de ler. E o principal: não é preciso entender de filosofia para entendê-lo! As vezes um pouco confuso, mas quando se apreende o estilo da escrita, se torna fácil. Os temas apresentados, juntamente com os respectivos exemplos, nos convida a refletir sobre aquilo que temos como valores e, principalmente, como agimos em relação ao próximo.  É um livro que vale a pena ler e indico a todos. Aliás, todos deveriam lê-lo!
 
Abaixo alguns trechos de cada uma das 18 virtudes:
 
1. A Polidez 
‘Há o que é permitido e o que é proibido, o que se faz e o que não se faz. Bem? Mal? A regra basta, ela precede o julgamento e o funda’ (pg. 15)
‘A polidez, se levada por demais a sério, é o contrário da autenticidade. Os certinhos são como crianças grandes bem comportadas demais, prisioneiras das regras, enganadas quanto aos usos e às conveniências’ (pg. 20). 
 
2. A Fidelidade
‘A fidelidade é virtude de memória, e a própria memória como virtude’ (pg. 26)
‘A infidelidade supõe a memória: uma pessoa só pode ser fiel ou infiel àquilo de que se lembra (um amnésico não poderia nem manter nem trair sua palavra), e é nisso que fidelidade e infidelidade são duas formas opostas da lembrança, uma virtuosa, a outra não’ (pg. 27).
 
3. A Prudência
‘De uma virtude intelectual, explicava Aristóteles, pelo fato de haver-se com o verdadeiro, com o conhecimento, com a razão: a prudência é a disposição que permite deliberar corretamente sobre o que é bom ou mau para o homem (não em si, mas no mundo tal como é, não em geral, mas em determinada situação) e agir em consequência, como convier’ (pg. 38)
‘A prudência é o que separa a ação do impulso, o herói do desmiolado’ (pg. 41)
 
4. A Temperança
‘A temperança é essa moderação pela qual permanecemos senhores de nossos prazeres, em vez de seus escravos’ (pg. 46)
‘Ser temperante é poder contentar-se com pouco; mas não é o pouco que importa: é o poder,e é o contentamento.(…) A ilimitação dos desejos, que nos condena à falta, à insatisfação ou à infelicidade, nada mais é que uma doença da imaginação’ (pg. 47)
 
5. A Coragem
‘… digamos um domínio de si e de seu medo, disposição ou domínio de si que, sem serem sempre morais, são pelo menos a condição – não suficiente, mas necessária – de toda moralidade. O medo é egoísta. A covardia é egoísta’ (pg. 56)
‘Um homem de alma forte, lemos em Spinoza, “esforça-se por agir bem e manter-se alegre”; confrontado com os obstáculos, que são muitos, esse esforço é a própria coragem’ (pg. 61)
 
6. A Justiça
‘A justiça é aquilo sem o que os valores deixariam de ser valores …’ (pg. 71)
‘A justiça situa-se neste duplo respeito à legalidade, na Cidade, e à igualdade entre indivíduos: “O justo é o que é conforme à lei e o que respeita a igualdade, e o injusto o que é contrário à lei e o que falta com a igualdade”‘ (pg. 72)
‘…é necessário “pôr a justiça e a força juntas”; é para isso que a política serve e é isso que a torna necessária’ (pg. 93)
 
7. A Generosidade
‘A generosidade só é uma virtude tão grande e tão gabada porque é muito fraca em cada um, porque o egoísmo é mais forte sempre, porque a generosidade só brilha, na maioria das vezes, por sua ausência…’ (pg. 103)
‘Ser generoso é ser livre de si, de suas pequenas covardias, de suas pequenas posses, de suas pequenas cóleras, de seus pequenos ciúmes…Descartes via nisso não apenas o princípio de toda virtude, mas o bem soberano, para cada um, o qual consiste apenas, dizia ele, “numa firme vontade de agir bem e no contentamento que ela produz.”‘ (pg. 106)
 
8. A Compaixão
‘Compartilhar o sofrimento do outro não é aprová-lo nem compartilhar suas razões, boas ou más, para sofrer: é recusar-se a considerar um sofrimento, qualquer que seja, como um fato indiferente, e um ser vivo, qualquer que seja, como coisa’ (pg. 118)
‘Cabe acrescentar: mais vale um amor entristecido – o que é, exatamente, a compaixão – do que um ódio alegre’ (pg. 121)
 
9. A Misericórdia
‘É cessar de odiar, e é essa de fato a definição da misericórdia: ela é a virtude que triunfa sobre o ressentimento, sobre o ódio justificado (pelo que ela vai além da justiça), o rancor, o desejo de vingança ou de punição’ (pg. 132)
‘O fato, entretanto, é que perdoaremos mais facilmente quando tivermos consciência das causas que pesam sobre um ato ou, sobretudo, sobre uma personalidade’ (pg. 138)
‘A misericórdia é a a virtude do perdão, e seu segredo, e sua verdade. Ela não abole a falta mas o rancor, não a lembrança mas a cólera, não o combate mas o ódio. Ela ainda não é amor mas o que faz as vezes dele, quando ele é impossível, ou que o prepara, quando ele seria prematuro.’ (pg. 143)
 
10. A Gratidão
‘Agradecer é dar: ser grato é dividir. Esse prazer que devo a você não é apenas para mim. Essa alegria é nossa. Essa felicidade é a nossa. (…) A ingratidão não é incapacidade de receber, mas incapacidade de retribuir – sob forma de alegria, sob a forma de amor – um pouco da alegria recebida ou sentida.’ (pg. 146)
‘”A vida do insensato”, dizia Epicuro, “é ingrata e inquieta: ela se volta toda para o futuro”. Por isso eles vivem em vão, incapazes de se saciarem, de se satisfazerem, de serem felizes: eles não vivem, dispõem-se a viver, como dizia Sêneca, esperam viver, como dizia Pascal, depois lamentam o que viveram ou, mais frequentemente, o que não viveram… O passado como o futuro lhes falta.’ (pg. 150)
 
11. A Humildade
‘Se alguém imagina sua própria impotência, sua alma “se entristece por isso mesmo”.’ (pg. 154)
‘A humildade, como virtude, é essa tristeza verdadeira de sermos apenas nós.’ (pg. 156)
 
12. A Simplicidade
‘Julgar-se é levar-se a sério demais. O simples não se questiona tanto assim sobre si mesmo. (…) Ele não se aceita nem se recusa. Não se interroga, não se contempla, não se considera. Não se louva nem se despreza. Ele é o que é, simplesmente, sem desvios, sem afetação, ou antes – pois ser lhe parece uma palavra grandiosa demais para tão pequena existência -, faz o que faz, como todos nós, mas não vê nisso matéria para discursos, para comentários, nem mesmo para reflexão.’ (pg. 163)
‘Nada tem a provar, pois não quer parecer nada. Nada tem a buscar, pois tudo está ali.’ (pg. 171)
 
13. A Tolerância
‘O direito ao erro só é válido a parte ante; uma vez demonstrado o erro, este deixa de ser um direito e não dá direito algum: perseverar no erro, a parte post, já não é um erro, mas uma falta.’ (pg. 174)
‘Por isso chamamos de tolerância o que, se fôssemos mais lúcidos, mais generosos, mais justos, deveria chamar-se respeito, de fato, ou simpatia, ou amor…’ (pg. 188)
 
14. A Pureza
‘O puro não vê o mal em parte alguma ou, antes, apenas onde ele se encontra, onde o sofre: no egoísmo, na crueza, na maldade… É impuro tudo o que se faz de má vontade, ou com vontade má.’ (pg. 195)
‘A pureza é pobreza, despojamento, abandono. Ela começa onde cessa o eu, onde ele não vai, onde ele se perde.’ (pg. 197)
 
15. A Doçura
‘A doçura é uma força, por isso é uma virtude: é a força em estado de paz, força tranquila e doce, cheia de paciência e de mansuetude.’ (pg. 205)
‘Faz teu bem com o menor mal possível ao outro’ (pg. 208)
 
16. A Boa-fé
‘A boa-fé é uma sinceridade ao mesmo tempo transitiva e reflexiva. Ela rege, ou deveria reger, nossas relações tanto com outrem como conosco mesmos. Ela quer, entre os homens como dentro de cada um deles, o máximo de verdade possível, de autenticidade possível, e o mínimo, em consequência, de artifícios ou dissimulações.’ (pg. 214)
 
17. O Humor
‘Não ter humor é não ter humildade, é não ter lucidez, é não ter leveza, é ser demasiado cheio de si, é estar demasiado enganado acerca de si, é ser demasiado severo ou demasiado agressivo, é quase sempre carecer, com isso, de generosidade, de doçura, de misericórdia…’ (pg. 229)
‘A ironia é isso mesmo: é um riso que se leva a sério, é um riso que zomba, mas não de si, é um riso, e a expressão é bem reveladora, que goza da cara dos outros…’ (pg. 232)
‘”O humor, ao contrário, é uma manifestação da generosidade: sorrir daquilo que amamos é amá-lo duas vezes mais.” Duas vezes mais? Não sei. Digamos que é amar melhor, com mais leveza, com mais espírito, com mais liberdade.’ (pg. 236)
 
18. O Amor
‘Sua ausência, mesmo que seja insolúvel, é o que torna as virtudes necessárias: o amor (mas o amor não egoísta) liberta da lei, quando existe, e a inscreve no fundo dos coraçòes, quando falta. (…) Pelo que o amor nos destina à moral e dela nos liberta. Pelo que a moral nos destina ao amor, ainda que ele esteja ausente, e a ele se submete.’ (pg. 311)
Como não somos virtuosos, fingimos ser, é o que se chama polidez. Como não sabemos amar, fingimos amar, é o que se chama moral. E os filhos imitam os pais, que imitam os seus… O mundo é um teatro, a vida é uma comédia, em que, no entanto, nem todos os papéis se equivalem, e nem todos os atores.‘ (pg. 108)
 
Comte-Sponville, André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes.  São Paulo: Editora WMF Martins Fontes.