Escolas brasileiras de ponta começam a testar o dispositivo, obedecendo a duas pregações de especialistas: preparar professores para o uso da tecnologia e transformar a máquina em ferramenta pedagógica

 
Nathalia Goulart
 

No retorno à escola após as férias de julho, estudantes do nono ano do Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, cercaram a professora de ciências Sandra Gruenwald Peres com única pergunta: quando começariam as aulas sobre tabela periódica. A razão para tamanha ansiedade é o fato de que o conteúdo de química, tradicionalmente abordado a partir de um cartaz afixado na parede, passaria a ser apresentado com ajuda de um novo aliado da educação: o tablet. Com o dispositivo em mãos, alunos de 14 anos interagem com representações gráficas dos elementos químicos, exibidos em movimento e até em terceira dimensão. “Conseguimos despertar o interesse dos alunos por um assunto considerado desinteressante pela maioria. É uma vitória”, diz Sandra. Os resultados da introdução de cem tablets em sala de aula serão avaliados até o fim do ano. Mas o colégio já tem uma certeza: “É um caminho sem volta, pois a nova geração demanda também da escola a adoção de tecnologias de ponta”, diz Renata Guimarães Pastore, diretora de tecnologia da educação, divisão recém-criada pelo Porto Seguro para lidar com o assunto.

“Graças a dispositivos como tablets e smartphones, é possível, pela primeira vez, unir de maneira tão integrada o mundo dentro e fora da escola”, sentencia Christopher Dede, professor da Faculdade de Educação da Universidade Harvard e especialista em tecnologia. Trata-se, portanto, de uma grande oportunidade para a educação – não há por que duvidar. Os tablets são portáteis, permitem consumir, produzir e compartilhar conteúdos como textos, fotos e vídeos, possibilitam interatividade e conexão à internet. Tudo isso pode significar uma transformação para a velha escola, praticamente estacionada no século XIX, com quadros negros e aulas expositivas. A despeito disso, o tablet não deve ser encarado como uma panaceia para a área de educação. Para que a maquininha dê frutos, concordam especialistas, é preciso conferir a ela uso e conteúdo pedagógicos.

“Sou a favor do uso de tablets na escola, mas não sem salientar que eles precisam ser utilizados de maneira inteligente”, pontua Christopher Quintana, professor da Universidade de Michigan e também especialista em tecnologia. “Não se trata apenas de usar uma nova tecnologia. O trabalho da escola deve ser envolvê-la em seu projeto pedagógico e determinar objetivos claros para a ferramenta”, acrescenta o especialista. O desafio de transformar máquinas em ferramentas educacionais não é novo. Ele ocupa a escola há pelo menos uma década, quando os computadores passaram a integrar a realidade acadêmica. É a partir dessa experiência que pesquisadores, no Brasil e no mundo, apontam caminhos para os novos aparatos, como os tablets que, cedo ou tarde, chegarão às mãos dos estudantes.
 

Ainda faltam evidências científicas de que o uso da tecnologia como recurso pedagógico provoque impactos positivos significativos no desempenho acadêmico. Mas já se sabe que, com a ajuda de um computador, estudantes desenvolvem análise crítica, capacidade de pesquisa e conhecimento tecnológico mais apurados. “A tecnologia não garante por si só a transmissão de conhecimento. É a forma como ela é usada pelo professor que determina o valor que de fato ela vai agregar”, diz Simão Pedro Marinho, coordenador do programa de pós-graduação da PUC-Minas e assessor pedagógico do programa Um Computador Por Aluno (UCA), projeto-piloto que pretende levar um notebook para cada estudante da rede pública de ensino básico.

Outro ponto essencial para o sucesso da inserção da tecnologia é o treinamento dos professores. Ou seja: é preciso preparar os mestres para que eles explorem ao máximo os recursos da máquina com seus alunos. Nesse quesito, por exemplo, o sistema público de educação nacional tem mostrado falhas. Pesquisa divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) revelou que 75% dos professores da rede pública dependem principalmente de contatos informais para buscar aprimoramente sobre tecnologia aplicada à educação. Em outras palavras, não há orientação formal. O docente depende principalmente de sua motivação pessoal e da ajuda de colegas para aprender algo sobre o uso do computador e da web. “Se não há orientação institucional, é difícil tirar o professor de sua zona de conforto. Essa acomodação muitas vezes é reflexo de sua posição de funcionário público. A escola particular cobra que seu professor se atualize ou ele é demitido. A escola pública não dispõe desse mecanismo”, diz Marinho.

De olho nas pregações dos pesquisadores, Porto Seguro e Dante Alighieri, também de São Paulo, trataram de cuidar do destino que darão a seus tablets e do treinamento dos professores. O primeiro convidou os professores que se sentiam mais à vontade com o dispositivo eletrônico à mão para discutir os rumos pedagógicos do processo. “Com eles, desenhamos os primeiros passos desse projeto-piloto”, diz Bianca Santana, professora e coordenadora de tecnologia da educação. Até o fim deste ano, os mestres desenvolverão conteúdos de aula com ajuda de aplicativos oferecidos na AppStore, a loja de aplicativos da Apple. Simultaneamente, estão em produção 200 aplicativos feitos sob medida, desenvolvidos a partir da orientação dos professores, em áreas como língua portuguesa, química, física e matemática. No futuro, os programas serão oferecidos gratuitamente a outras instituições que quiserem fazer uso deles.

Outro projeto em curso é capacitação dos alunos, que ajudarão na construção dos aplicativos. Para isso, serão oferecidas oficinas de programação aos interessados. Inicialmente, os tablets serão usados nas classes do fundamental II (sexto a nono ano) e do ensino médio. “Temos que acabar com a ideia de que a escola é sempre a última a incorporar as novas tecnologias. Precisamos dialogar mais com nossos alunos”, resume Bianca.

O Dante Alighieri preferiu focar apenas nos estudantes do ensino médio para inicar o trabalho com tablets. Mas também firmou parcerias com empresas de tecnologia para a criação de aplicativos customizados que atendam às exigências de seus professores e estudantes. “Queremos extrair o melhor desse dispositivo, explorando todo o seu potencial de interatividade e portabilidade”, diz Valdenice Minatel, coordenadora de tecnologia da escola. Nos Estados Unidos, a prática também tem ganhado força. Somente a prefeitura de Nova York comprou 2.000 iPads para as escolas de áreas vulneráveis, como o Bronx. Já a Coreia do Sul, um dos melhores sistemas de educação do mundo segundo avaliações internacionais, anunciou que, em 2015, pretende abandonar os livros escolares impressos e fazer do tablet ferramenta essencial de aprendizagem. Em todos os casos, vale o mesmo alerta: “O tablet ou o computador só servem se forem inseridos em um contexto de reforma educacional”, diz Mark Warschauer, professor da Faculdade de Educação da Universidade da Califórnia. “Se esses aparelhos são jogados na escola sem um projeto pedagógico forte, nenhum resultado positivo será aferido.”

http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/tablets-chegam-as-escolas-de-ponta-do-brasil-%E2%80%93-e-trazem-um-velho-desafio