Santa Teresa  de Ávila – Virgem e Doutora da Igreja. Reformadora do Carmelo

(Carmelo São José)

Entre todas as tentativas de reforma na Ordem do Carmo, a mais definitiva e eficaz foi a empreendida por Santa Teresa de Jesus, na cidade espanhola de Ávila dos Cavaleiros. O que não conseguiram homens santos e sábios, o conseguiu esta mulher, lutando contra marés, graças à ajuda divina mais que humana.

A – Causas que motivaram a Reforma Teresiana

Santa Teresa de Ávila havia tomado o hábito carmelitano no mosteiro da Encarnação no dia 2 de novembro de 1536. Mas não estava contente com o gênero de vida que ali se levava. Havia demasiada relaxação entre as religiosas: muitas visitas, muitas saídas, muita liberdade e pouca observância e vida interior. Isto começou a preocupá-la muito. E “pensava que poderia fazer por Deus, e pensei que o primeiro era seguir o chamamento que sua majestade me havia feito à religião, guardando minha Regra com maior perfeição que pudesse. E embora na casa onde estava havia muitas servas de Deus e era muito servido nela a causa de ter grande necessidade, saíam às monjas muitas vezes a partes onde com toda honestidade podíamos estar, e também não estava fundada em seu primeiro rigor a Regra, senão que se guardava segundo a Bula de relaxação, e também outros inconvenientes, que me parecia a mim ter muito regalo por ser casa tão grande e deleitosa (…) Havendo um dia comungado, mandou-me muito Sua majestade o procurasse com todas as minhas forças, fazendo-me grandes

promessas de que não se deixaria de fazer o mosteiro”.

E assim aconteceu. Ao ver a vontade clara do Senhor, Teresa pôs mãos à obra. Quando as companheiras do convento e quando mais tarde os avileses se inteiraram das intenções de Teresa, valha-me Deus o que se armou: murmurações, insultos, vexames de todas as classes contra a fundadora e reformadora. Até a chamaram de “mulher inquieta e andarilha”, isto o disse o Núncio. Ela aguentou tudo e deixou tudo nas mãos de Deus. E como era da vontade do Senhor que a reforma se fizesse, pois à hora marcada ela aconteceu. E em 24 de agosto de 1562, se erguia o primeiro mosteiro reformado sob o patrocínio de São José na cidade de Ávila berço da reforma. Aquele dia vestiu o hábito de Descalças as quatro “grandes servas de Deus”. A simplicidade do mobiliário, a vida fervorosa e até a reza do Ofício Divino, eram o ambiente apropriado para a oração constante da nascente reforma, que exigia principalmente isso: intimidade com Deus, oração contínua com Ele e vida de família com as irmãs, que haveriam de ser poucas em cada convento, doze ou treze no máximo. Com este novo modo de vida, o Carmelo de São José era insignificante, contrastante, com as formas aparatosas dos antigos mosteiros.

Anos depois chegava à Espanha o Geral da Ordem, João Batista Rúbeo de Rávena, quem trazia autorização do papa Pio V para reformar o Carmelo. Grande foi sua alegria ao conhecer a obra de Teresa. Tanto que a animou a fundar novos Carmelos. Até lhe concedeu autoridade para fundar conventos de homens com o mesmo estilo de vida, homens que como reza a patente de autorização, foram “claros espelhos, lâmpadas ardentes, tochas acesas, estrelas resplandecentes capazes de esclarecer e guiar aos viajantes deste mundo”.

Havia em Salamanca um jovem Freizinho Carmelita que andava dando voltas para entrar na Cartuxa. Chamava-se Frei João de Yepes. A reformadora se entrevista com ele, lhe fala com entusiasmo de seus intentos e o convence. Frei João lhe põe só uma condição: que fosse logo. Que mais queria a Santa? Aos poucos dias, 28 de novembro de 1568, se abria já em Duruelo o primeiro convento de Carmelitas Descalços. Como Prior foi nomeado o Pe. Antonio de Jesus, outra conquista da Madre e a João da Cruz encarregava da direção dos noviços, embora de momento não tivesse nenhum (…) E assim foram colocadas as primeiras pedras da Reforma entre os frades. E que reforma! Uma mulher fazendo “as barbas a homens estudados”, como dizia mais tarde um frade.

A semente lançada pela mão de Teresa foi crescendo segura e firme, de tal maneira que quando morria já se haviam levantado 17 mosteiros de monjas e 15 de frades.

B – Propósito que teve Santa Teresa ao empreender a reforma
A Teresa Reformadora empreende sua obra entre as monjas, graças ao seu zelo eclesial que vibrava em seu peito. Ela mesma nos conta em seu livro “Caminho de Perfeição”:

“Neste tempo recebi notícias dos danos na França e os estragos que haviam feitos estes luteranos e quanto ia aumentando esta desventurada seita. Deu-me grande fadiga, e como se eu pudesse algo ou fosse algo, chorava com o Senhor e lhe suplicava remediasse tanto mal. Parecia-me que mil mortes colocaria eu para remédio de uma alma das muitas que ali se perdiam. E como me vi mulher e ruim e impossibilitada de aproveitar em que eu queria no serviço do Senhor, e toda minha ânsia era, e ainda é, pois que tem tantos inimigos e tão poucos amigos, que eles fossem bons… determinei fazer esse pouquinho que havia em mim, que é seguir os Conselhos Evangélicos com toda perfeição que eu pudesse e procurar que essas pouquinhas que estão aqui fizessem o mesmo, confiante na bondade de Deus, que nunca falta de ajudar a quem por Ele se determina a deixar tudo (…) e que todas ocupadas em oração pelos que são defensores da Igreja e pregadores e letrados que a defendem, ajudássem os no que pudéssemos a este Senhor meu…” (1,2). “Não me deixa de quebrar o coração tantas almas que se perdem (…) Oh, irmãs minhas, em Cristo! Ajudem-me a suplicar a este Senhor, que para isto às juntou aqui, esta é vossa vocação, estes irão ser os vossos negócios, estes hão de ser os vossos desejos, aqui vossas lágrimas, estas vossas preces” (1,5).

O propósito da Santa reformadora está, pois, claro: junta a suas monjas em um pequeno convento para orar por tantas almas que se perdem e pelos defensores da Igreja, pregadores e estudiosos que a defendem. Quer dizer, um motivo de oração completamente eclesial.

O ideal que a Santa buscava na reforma dos Freis é mais ou menos semelhante: ter defensores, pregadores e estudiosos da Igreja para a extensão do reino de Deus e salvação das almas; diretores espirituais de suas irmãs Carmelitas e, como uma arma, a oração e intimidade com Deus.

C – Dificuldades por parte dos calçados
Os primeiros 10 anos foram de tremendas lutas entre Descalços e Calçados ou Padres da Antiga Observância, devida a incompreensões, cuja raiz era a duvidosa legitimidade da nova Reforma. O certo é que no Capítulo Geral da Ordem, em Plasência, Itália 1575, os reformados foram submetidos ao velho tronco da Ordem. Momento terrível para a nascente Reforma. Santa Teresa foi confinada no mosteiro de Toledo, com proibição de sair dali. É São João da Cruz, encarcerado durante nove meses na prisão conventual dos Calçados, também em Toledo, e graças ao Rei Felipe II, a quem depois de Deus se deve a salvação dos Descalços e Descalças, a tempestade diminuiu em 1577 quando o Rei negou seu palacete ao Padre Tostado, encarregado de por em prática os decretos do Capítulo de Plasência.

Em 1578, o Padre Jerônimo Gracian reunia os Descalços em Almodóvar Del Campo, e ali se origina sua província autônoma. Após muitas amarguras, foi aprovada a Reforma Teresiana pela Santa Sé em 1580, fato que causou imensa alegria a Teresa Fundadora, que morria tranqüila, dois anos mais tarde. Em 1587 foi nomeado um Vigário Geral da Ordem e no Capítulo Geral de Cremona, celebrado em 1593, aprovou a separação total da Reforma Teresiana.

D – Contratempos Internos
Lamentavelmente, logo começaram as lutas internas no Carmelo Reformado. Uma dupla corrente, semelhante à surgida na emigração dos Carmelitas à Europa se levantou, capitaneando ambos os lados duas figuras eximias da Descalces Teresiana: os Padres Nicolau Dória e Jerônimo Gracian. O primeiro grande financista que solucionou o caos econômico do império de Felipe II. Era italiano. Liderava o lado dos estritos que gritavam observância e penitência e não admitiam fundações fora da Espanha por temor ao relaxamento. O Padre Gracian, grande amigo e confidente de Santa Teresa e líder da corrente oposta, tinha uma visão mais ampla, conforme o pensamento Teresiano, aberto ao apostolado.

A contenda foi tremenda e o assunto chegou ao Vaticano de tal maneira que para acabar com o assunto, o Papa Clemente VIII erigiu duas Congregações dentro do Carmelo Reformado: a Italiana e a Espanhola. Era no ano de 1600.

– A Congregação de Santo Elias. Tinha tendências apostólicas; além das casas em Gênova e Roma, fundou na Pérsia, Mesopotâmia, Malabar, Mogol, China, Moçambique, Síria e Palestina. Personagens ilustres desta Congregação foram os PP, Pedro de la M. de Dios, primeiro Vigário, Fernando de Santa Maria, João de Jesus Maria, o calagurritano, Tomás de Jesus e Domingo Ruzola de Jesus Maria.

– A Congregação espanhola de São José se limitou ao solo da Espanha; aqui vivia Dória. Distinguiu-se por uma consagração quase exclusiva à vida contemplativa e estabeleceu desertos, que deram muita glória à Ordem. Praticamente o que buscava era voltar à vida eremítica do Monte Conte Carmelo. Apesar da divisão, as relações entre ambas eram boas.

E – Unificação das duas Congregações
As perseguições liberais e revoluções políticas do século XIX extinguiram praticamente a Ordem na Espanha e da Congregação espanhola não ficou oficialmente nada. Perdeu-se o rico arquivo do convento de São Hermenegildo de Madrid, que não mais pertence à Ordem. Ao voltar à restauração, uma vez amainada a tormenta, a Congregação Espanhola extinguida não renasce senão que os conventos que se vão restaurando passam a formar parte da Ordem existente, ano de 1868. Alma desta restauração foi o Padre Manuel de Santa Teresa. Expulsado da Espanha, foi à França e era então Prior do convento francês de Agén.

Graças a esta unificação, a Ordem veio fortalecendo-se e estendendo-se lentamente, porque o golpe da revolução contra o pessoal da Congregação Espanhola foi fatal. Hoje a reforma Teresiana conta com 4.000 religiosos no mundo, com umas 30 províncias vicariatos e delegações e com uma vida missionária rigorosa. Prova de uma fecundidade são também as Irmãs Carmelitas em torno de 15.000, e as numerosas Congregações de Irmãs como as Carmelitas Missionárias, fundadas pelo Padre Palau, OCD, a Companhia de Santa Teresa de Padre Henrique de Ossó, a Instituição Teresiana do Padre Poveda, e muitos outros ramos nascidos das fontes da Espiritualidade e Carisma eliano-teresiano, inclusive há umas cinco congregações brasileiras de inspiração carmelitana.

A Ordem do Carmo não Reformada
Enquanto teve lugar este grande acontecimento da Reforma Teresiana com o processo que vimos, como ficou o velho tronco da Ordem do Carmo, não reformados, chamado de Antiga Observância?

A – A Ordem e a Revolução Francesa
A Revolução Francesa foi um abalo que comoveu toda a Igreja, reduzindo a cinzas obras e instituições particulares. A Ordem do Carmo como as demais Ordens, sentiram a agonia. De 54 províncias que contava no século XVIII, ficaram em fins do mesmo século somente em 08.

Ao longo daquele século fatal se nota, em toda Europa, uma decadência geral do espírito religioso, com a conseqüente deturpação dos costumes. Neste ambiente nasce a Revolução Francesa, que nega os direitos de Deus e amplia os direitos do homem.

A famosa Constituição Civil do Clero aboliu a vida religiosa em nome da liberdade (1789/1790). Pouco depois (1795) aumentou a influência até a vinda do Diretório e de Napoleão.

O resultado final foi à supressão de todas as Ordens Religiosas do território Francês. O Carmelo tinha ali 08 províncias e 130 conventos. Alguns religiosos se submeteram ao juramento civil imposto pela Revolução ao Clero, enquanto que outros preferiram derramar seu sangue em testemunho de sua fé.

A Revolução Francesa se propagou como um regato de pólvora por toda a Europa, chegando inclusive a repercutir na América. Propagou-se por meio do Exército de Napoleão que passeou triunfalmente por toda a Europa, deixando atrás de si seus germes envenenados.

Ao apoderar-se da Itália, Napoleão suprimiu, em 1830, as Ordens Religiosas; contudo a supressão definitiva chega a ter vigência com o novo governo do Piemonte, de 1854 em diante. Por obra sua se extinguiu o Carmelo Italiano com seus 344 conventos (63 de monjas) da antiga observância, e 119 da reforma de Santa Teresa (29 de monjas).

Uma lei de 1796 terminou com a Ordem na Bélgica e Holanda. Só o convento de Boxmeer sobreviveu e logo foi o ponto de partida para a restauração atual do Carmelo Holandês.

Em 1802 desapareceram as duas províncias da Alemanha.

As demais províncias da Europa Central e Oriental foram desaparecendo, ficando somente um ou outro convento em miseráveis condições.

Em fins do século XVIII desapareceram quase totalmente as províncias: Polônia, Rússia, Lituânia e Boêmia.

Em Portugal foi suprimida a Ordem em 1832, com a conseqüente decadência de suas missões no Brasil.

Excetuando Malta, nada ficou intacto. As províncias inglesas não se restauraram mais depois da Reforma Protestante. Somente em 1827 a Irlanda começava sua restauração.

A perseguição contra os religiosos foi maior na Espanha que em qualquer outra parte. A lei iníqua do governo de Mendizábal do ano de 1835 despojou a Igreja de suas propriedades e declarou abolidas as Ordens Monásticas. Os conventos carmelitas desapareceram por completo.

O balanço da Revolução Francesa é pavoroso: de 466 províncias, 782 conventos e 15.000 religiosos com que contava o Carmelo da Antiga Observância quase nada subsistiu.

B – Restauração
Antes de tudo se tratou de dar a Ordem uma nova existência material.Em 1827 se restaura o Carmelo Irlandês.

Em alguma parte, como Itália, se leva a cabo a restauração com relativa facilidade, graças ao Geral da Ordem Luis M. Galli (1899/1900).

Apenas restaurada a monarquia na Espanha com a chegada de Alfonso XII, se iniciou também em 1875 a restauração carmelitana. Fundou-se em Palma de Mallorca um convento que pouco subsistiu; em 1880 se funda em forma definitiva em Jerez de la Frontera, (Andaluzia), de onde se propaga o novo Carmelo pós Espanha e outros países.

Em alguns países a restauração se iniciou com maiores dificuldades, como em França e Bélgica. Em 1876 se fundou em Montpellier, mas fracassou ao vir à lei de exclaustração de 1880. Na Bélgica nem sequer se tentou a restauração.

Holanda começou partindo do convento de Brexmeer, estendendo-se logo para a Alemanha.

Em 1863 entram os Carmelitas em Lewenworth (Kansas) USA.

Em 1881 fundam na Austrália os padres Irlandeses.

Santos carmelitas

C – Atualmente
Atualmente a Ordem da Antiga Observância está florescendo em vários países:

Na Itália conta a Ordem com 4 províncias.

Malta tem 1 província e 1 missão no Peru (1949).

Na Espanha tem 4 províncias, casas em Portugal, Porto Rico (1920) Argentina (1947), Venezuela (1922), Brasil (1933), Colômbia (1957). Na Revolução Espanhola de 1936 sofreram o martírio 54 religiosas.

Brasil conta com duas províncias, Pernambuco, onde estão desde 1580 e Rio de Janeiro. No Paraná, Curitiba, está o Comissariado, com várias casas, que pertencem a uma província alemã.

Holanda é a Província principal da Ordem com cerca de 500 religiosos. Seu êxito se deve ao incremento dos estudos que tem favorecido sempre a vida religiosa. Holanda tem uma missão na Indonésia e casas em diversos países. Entre os holandeses se destaca o Pe. Tito Brandsma, mártir da imprensa católica, morreu vítima do ódio nazista nos campos de Concentração Nazista em Dachau, no ano de 1942. Foi beatificado pelo Papa João Paulo II, no dia 03 de novembro de 1985.

O Carmelo alemão tem casas na Áustria,Tcheco-Eslováquia e Brasil.

Polônia, apesar do regime ateu, todas as ordens estão florescendo.

A Província Irlandesa se estendeu para a Austrália e USA. Austrália é província autônoma e tem casas em Nova Zelândia.

Nos USA há duas províncias: a de Nova York, de origem irlandesa e de Chicago, a mais florescente; em 1949 fundou casas no Peru e Chile.

Com a Reforma Teresiana os Carmelitas e as Carmelitas estão em diversas partes do mundo, nos cinco continentes.

Publicado em Flos Carmeli (Fonte de pesquisa: Carmelo São José, texto publicado em http://www.clerus.org/clerus/)