Introdução aos “verdadeiros filósofos”. Os padres gregos: um continente esquecido do pensamento ocidental
 
Os verdadeiros filósofos são aqueles que se opõe aos sofistas. São os que procedem em conformidade com o que dizem, falam em conformidade com o que pensam e pensam em conformidade com o que são. Os filósofos contemporâneos, em sua maioria, não têm o direito a este título.
 
Os padres gregos por terem sido categorizados como pertencentes à instituição da igreja foram excluídos da categoria de filósofos. Esqueceram-se, porém, que os mesmos trabalharam na transmissão de um pensamento original em relação ao pensamento grego, semita e oriental. Este livro traz a mensagem de alguns dos mais destacados padres gregos e seus pensamentos. Tais filósofos viveram entre o século II e o século XI.
 
Orígenes acreditava que o martírio era a prova da verdade do cristianismo que fazia o homem morrer por sua fé na qual a morte era a vitória por causa da ressurreição. Defendia também a idéia do senso de responsabilidade, tendo sido responsável pelos seus e pela Igreja. Fazia seu trabalho de catequista um ensinamento de vida. Castrou-se e por isto não teve acesso ao sacerdócio. Tal fato lhe ensinou sobre o perigo da interpretação das escrituras em seu sentido literal e da necessidade de compreender seu sentido espiritual.
 
Dionísio Teólogo foi quem melhor conseguiu afirmar a transcendência de Deus. O objetivo da vida humana é a theosis, a assimilação e a união tanto quanto seja possível com Deus. Tornamo-nos aquilo que conhecemos, daí a importância de conhecer e amar a Cristo. Ele tem uma atitude apofática, um sentido de mistério.
 
Clemente de Alexandria era gnóstico, um cristão plenamente realizado, fruto de uma longa meditação das escrituras e também de uma qualidade de escuta, de presença ao que está presente. Ele disse “O Logos de Deus fez-se homem a fim de que aprendas como o homem pode tornar-se Deus”. A apatheia é um estado em que o sábio chegou a tornar-se livre das influências externas sendo capaz de dominá-las. É a vitória em relação a tudo o que em nós se opõe à Ágape (o Amor purificado das paixões e dos desejos).
 
Evágrio Pôntico escreveu o Tratado prático em que ensina como adquirir equanimidade, é uma forma de psicanálise. Tornou-se capaz de contemplação espiritual. Distingue os oito sintomas que deram origem aos sete pecados capitais: a Gastrimargia, ou gula; Philarguria ou avareza; pornéia ou luxúria; Orge ou Ira; Lupe ou depressão; Acedia ou desespero; kenodoxia ou vanglória e a uperephania ou orgulho.
 
João Crisóstomo “boca de ouro” era um orador fabuloso. Ao pregar o evangelho suas palavras não só ensinavam como curavam. Considerava o trabalho mais penoso o de dar conta de si mesmo e suportar a consciência incessante de seus males e suas fraquezas. É o autor com a maior obra literária patrística. Falou sobre a incompreensibilidade de Deus, do numinoso, do estar estupefato.
 
João Cassiano cuja vida é marcada pelo tema amizade, distingue as várias formas de amizade em busca do verdadeiro e indissolúvel amor, o terceiro incluído entre os dois é o Ser, que é amor. Dizia que a pureza do coração é um estado de liberdade e de não-apego. Sua prática era a oração perpétua, importante para chegar à paz. Também considera a discrição e o discernimento. O caminho que prega é o da alegria.
 
Gregório de Nissa vivia a solidão e a vida contemplativa. A essência da alma é uma participação cada vez maior, mas nunca consumada, em Deus. O homem é um vazio na opacidade da matéria. A causa do sofrimento e do mal-estar do homem é sua separação do Real, a saber: a ignorância do Ser de que ele conserva. O homem é um ser de desejo que provoca um caminho em direção à Realidade.
 
Máximo Confessor diz que o repouso em Deus é um desejo natural do homem que é livre, tal desejo nunca lhe é imposto de fora. Tal repouso é a contemplação do Ser-Amor. Acima de tudo está o amor Ágape. Tal amor se mostra no amor aos inimigos. Um amor que nos faz sair de nosso narcisismo. Sintetiza a filosofia dos primeiros séculos num comentário do Pai-Nosso, que descreve as etapas, as mutações do homem em direção a progressiva transformação em direção à divinização.
 
Simeão, o novo teólogo fala das lágrimas interiores. Indica as diferenças entre a via mística e a iniciática: somente a primeira depende das graças imprevistas e imprevisíveis que podem ocorrer no caminho, enquanto a segunda tende a permanecer de forma permanente, através do exercício, na consciência da graça. A graça do Espírito Santo e a visão que ele comunica não são somente para “depois da morte”: a partir deste mundo, podemos saboreá-la. Sabendo que existe através da vivência mística, pode-se busca-la através da ascese, mesmo que esta presença não se mostre. Relativizava a importância da hierarquia: um bispo sem experiência mística é menos do que um leigo que recebeu o dom das lágrimas ou a iluminação do espírito. Convidava a todos a se exercitarem na ascese mais rigorosa para que cada um pudesse “saborear como o Senhor é Bom”.
 
Um epílogo é oferecido com um estudo bastante aprofundado sobre os diversos significados que o termo gnose tem desde tempos remotos até os tempos atuais.
 
Jean-Yves Leloup, 2003, editora Vozes, Petrópolis.