O abstracionismo contemporâneo

Sabe-se muito pouco sobre um dos mais interessantes artistas da atualidade que é Kim En Joong. Mas, muitos já devem, de algum modo, ter visto vestígios de sua arte. Kim En Joong é um Frade Dominicano, artista, nascido em 1940 na Coreia do Sul.  Frei Joong mora em Chartres na França há alguns anos, onde exerce sua pregação pela arte.

Formado na escola de belas artes de Seul, capital do país, se converteu ao catolicismo e foi batizado em 1967. No ano de 1970 tomou uma decisão mais radical e entrou na Ordem dos Pregadores (dominicanos), tendo sido ordenado sacerdote quatro anos mais tarde. 

Como artista, teve sua primeira exposição inaugurada no ano de 1973, em Paris, com obras a preto e branco. Esta primeira exposição abriu portas para dezenas de mostras na França e em diversos países do mundo.

Frei Joong é considerado um dos maiores mestres da abstração contemporânea. Seus trabalhos podem ser vistos em diversas igrejas e capelas espalhadas pelo mundo. Em Chartres, onde vive, seus mais importantes trabalhos estão na famosa catedral medieval.

O Trabalho

Fugindo às representações clássicas da Bíblia e da história do cristianismo, Frei Joong aposta nas cores, cuja vibração, explica, deve fazer transparecer “aquilo que nunca pôde ser representado”. Tais trabalhos esbanjam Luz, abstração e espiritualidade e, consequentemente, transcendência.

São obras simples, mas com uma vitalidade surpreendente de cores e luz as quais dividem o mesmo espaço com vitrais medievais, iluminam e transfiguram os espaços imponentes dos templos. Todos sabem, porém, qua as reações nem sempre são favoráveis.

“Os vitrais foram muito contestados e eu própria fiquei muito chocada”, afirmou uma habitante de Brioude – França, local em que foram inaugurados 36 vitrais de Frei Joong para a basílica de São Julião em 2008.

Aos poucos, a sua opinião transformou-se. “A cada hora que passa, a luz transmite sempre algo de novo – de manhã, tons de azul e de verde, à tarde uma coloração avermelhada. Podemos passar um dia na basílica e a cada hora vê-se sempre algo de diferente”.

E há quem refira que as cambiantes de luz são também uma oportunidade para manifestar a passagem do tempo.

O artista atribuiu a cada vitral a imagem de um profeta ou de um santo: Moisés, Elias, Isaías, Ezequiel, Jeremias, Daniel, os quatro evangelistas e os apóstolos.

As cores

As cores tem uma função inerente de luz, vibração e percepção.

Nos vitrais de Frei Joong o vermelho representa o amor trinitário, a sarça ardente, o carro de fogo de Elias, o sangue de Cristo e dos mártires. O azul é o céu e a pureza, o convite ao infinito e à imaterialidade, além de ser a cor da Virgem Maria.

O amarelo, durante muito tempo considerado uma cor menor na história da pintura, surpreende o visitante, manifestando a alegria do Magnificat e a ascensão, ligada à ressurreição.

O verde é expressão do princípio vital, da Árvore da Vida, da natureza e do apaziguamento. E também o preto e branco, simbolizando “o combate entre as trevas e a luz”. É a pregação pela arte.

“….a primeira função da arte é exatamente aquela que já identifiquei como a primeira função da mitologia: transportar a mente em experiência para além dos guardiães – desejo e medo – do portal paradisíaco, levando-a à árvore interior da vida iluminada. Nas palavras do poeta Blake, em The Marriage of Heaven and Hell, “Se as portas da percepção fossem limpas, tudo apareceria ao homem tal como é, infinito”. Mas a limpeza das portas, o afastamento dos guardiães, esses querubins com espadas flamejantes, é o primeiro efeito da arte, enquanto o segundo, simultaneamente, é o arrebatamento produzido pela identificação de “mil leões dourados” em um único fio de cabelo.” (Joseph Campbell)

A “pregação” de Frei Kim En Joong pode ser vista em vários países, mas a França é o país que melhor acolheu seu vasto acervo. Deve-se lembrar que Joong é um artista sacro contemporâneo. Suas obras são encontradas em igrejas e capelas de casas religiosas. Trata-se de oração expressa em vitrais onde a luz penetra o ambiente religioso e as cores dançam como numa coreografia diante de nossos olhos.

Anúncios