Igreja Católica encaminha beatificação do soldado José Barbosa de Andrade, morto afogado em 1999 ao salvar uma moradora de rua que havia caído no Rio Tamanduateí

Um soldado da Polícia Militar de São Paulo é o mais novo candidato a santo do país. José Barbosa de Andrade tinha 33 anos quando, em 6 de janeiro de 1999, morreu afogado nas águas do Rio Tamanduateí para salvar uma moradora de rua embriagada, que havia caído. Há três meses, a PM começou a reunir documentos e testemunhos sobre a vida e morte de Barbosa, como era conhecido na corporação, para pedir a beatificação ao Vaticano. A postuladora da causa é a irmã Célia Cadorin, da Congregação das Irmãzinhas de Imaculada Conceição, responsável pelos processos de santificação de Madre Paulina e Frei Antonio de Sant?Ana Galvão.

Irmã Célia explica que, no caso de Barbosa, o fato de ele ter sido mártir, ou seja, ter sacrificado a sua vida para salvar a de outra pessoa, dispensa a comprovação de um milagre para o Vaticano decretar a beatificação. Segundo a religiosa, a identificação de um mártir tem como base ensinamento de Santo Agostinho. “O martírio se conhece pelo motivo praticado, como dar a vida pela fé ou por Jesus Cristo”, explica.

O padre e tenente-coronel Osvaldo Palopito, chefe da capelania da Polícia Militar, diz testemunhar casos de abnegação e renúncia envolvendo policiais militares, porém, afirma que o do soldado Barbosa se diferenciava. “Envolve fé e caridade fundamentadas no amor a Deus. A excepcionalidade do sacrifício está no fato de ele ter arriscado a vida consciente do risco que corria”, observa.

MAIS CEDO/ O coronel Luiz Eduardo Pesce de Arruda, da Escola Superior de Soldados da PM, responsável pelo levantamento da história de Barbosa, conta que o policial não sabia nadar. No dia que morreu, ele havia sido dispensado do trabalho mais cedo e estava a caminho da Coopmil (Cooperativa de Crédito da Polícia Militar) para solicitar um empréstimo. Como chovia, ele pegou carona com o colega Luiz Francisco de Macedo e quando passavam pela Avenida do Estado, próximo ao Mercado Municipal, viram uma aglomeração.

“Ao ouvir gritos de socorro, ele foi salvar a mendiga que se debatia na água suja e turbulenta do rio, expondo-se a um risco muito além do que se espera de um PM”, diz. “Um homem não se improvisa. Ele nasce pronto”, orgulha-se o oficial. Barbosa desceu pela borda, com uma corda fina amarrada à cintura. O volume de água estava sete vezes maior em razão das chuvas. Mesmo assim, ele conseguiu puxar a mulher, que foi retirada do rio pelo outro policial. “Durante o salvamento, a corda se rompeu e a correnteza o arrastou. O fiel da farda (cordão que prende a arma ao coldre) se enroscou no lixo e Barbosa afundou”, diz.

A moradora de rua, identificada como Salete Aparecida Rodrigues, que tinha 48 anos à época, entrou em depressão ao saber da morte do soldado. Ela tentou por duas vezes o suicídio, uma delas 11 meses depois, em novembro de 1999, no mesmo local. Até hoje não se tem mais notícias de Salete. Amigos de Barbosa, contudo, acreditam que ela continua vivendo nas ruas.

Entrevista

Antonia B. de Andrade_ Mãe do soldado Barbosa

‘O Zé nasceu para ajudar as pessoas. Minhas filhas pedem graças a ele’

DIÁRIO –  A senhora se sente privilegiada diante da possibilidade de ter sido mãe de um santo?
ANTONIA B. DE ANDRADE – De modo algum. Se fizer isso, estarei me castigando porque a humildade é tudo.

A senhora percebeu alguma coisa diferente em seu filho quando ele era criança?
Ele nunca deu valor a coisas materiais. Nós éramos muito pobres, mas o Zé jamais reclamou e não sentia inveja das outras crianças que tinham mais do que ele. Quando ele estava com 8 anos começou a trabalhar de guardador de carros. Tudo o que ganhava entregava nas minhas mãos. Foi sempre assim até ele se casar.

Ele gostava de ajudar as pessoas?
Parece que ele nasceu para isso. Quando entrou na PM, mesmo cansado, saía à noite para dar sopa aos moradores de rua.

Por que ele quis ser PM?
Por influência do irmão mais velho,  que  é cabo bombeiro.

Ele já  atirou em alguém?
Não. Falava grosso quando precisava, mas nunca desrespeitou nem agrediu ninguém.

A senhora soube de alguma intervenção feita por seu filho após a morte dele?
Minhas filhas Edna e Esita, que eram muito ligadas ao Zé, sempre pedem a ajuda dele em casos de doença ou quando precisam tomar alguma decisão. Uns dois anos após a morte do Zé, minha sobrinha estava em Mongaguá, olhando os três filhos jogarem bola na água. De repente, veio uma onda forte, puxou a bola para o fundo e as crianças foram  pegá-la. Ela tentou segurá-los, mas os perdeu de vista. Desesperada, gritou ?Zé, me ajuda? e, segundo conta, na mesma hora a água baixou e deu para tirar todos do fundo.

A senhora é católica?
A família toda. O Zé ia todos os domingos à missa.

Perfil

José Barbosa de Andrade, soldado da PM
José Barbosa de Andrade nasceu em 14 de fevereiro de 1965, na Ilha do Governador, no Rio. Aos 7 anos, ele veio com a família (mãe, pai e nove irmãos) morar de favor na casa de um parente, no Grajaú, Zona Sul da capital. Barbosa ingressou na PM em  novembro de 1994, após prestar concurso três vezes.  Barbosa passava por dificuldades financeiras porque costumava dar tudo o que tinha aos outros. Na  carreira, só teve uma advertência por ter saído da rota de patrulhamento para ajudar um colega que precisava levar o bolo de aniversário da filha. Ele está sepultado no mausoléu e foi promovido a cabo após a morte.

Caminho para a beatificação

Preparatória:  Um representante do candidato  reúne documentos e testemunhas para a biografia do benfeitor. O caso do soldado Barbosa está neste estágio. Serão analisados os feitos do candidato. A documentação histórica é encaminhada a quatro bispos, que, se convencidos da causa, elaboram uma carta de apresentação à Congregação dos Santos. Simultaneamente, a biografia é enviada à  irmã Célia Cadorin,  postuladora da causa de beatificação e canonização no Brasil. Em seguida, o material parte para uma comissão de padres postuladores de Roma. Antes de iniciar a defesa da causa, a comissão vem ao Brasil analisar a documentação e, se for o caso, abrir o processo de beatificação.

Diocesana:   O processo é encaminhado ao tribunal eclesiástico, em Brasília. Nessa fase, o nome de batismo do candidato passa a ser precedido das palavras servo de Deus. O tribunal é formado por um delegado episcopal, um promotor e dois notários. Todos os documentos e testemunhos são analisados novamente. Se os integrantes do tribunal entenderem que a causa tem fundamento, o processo retorna ao Vaticano. A terceira fase só começa quando o papa publicar no jornal do Vaticano as virtudes heroicas do candidato, que passa a ser chamado de venerável.

Romana:  Todo o material para provar é analisado novamente, no Vaticano. Se o milagre ou o martírio for comprovado, o candidato passa a ser beato. Se houver um segundo milagre, ele se torna santo. No caso do mártir, o processo é mais rápido   porque há uma seção especial de teólogos só para analisar esse tipo de situação.

Fonte: O Diário de São Paulo