Padre Zezinho lança CD e DVD comemorativos aos seus 45 anos de carreira e ganha homenagem discográfica da cantora Joanna

 

Dona de uma das vozes mais marcantes da música brasileira, Joanna acaba de lançar o CD “Em Nome de Jesus”, trabalho no qual interpreta apenas canções de Padre Zezinho. Esse é o segundo projeto musical religioso da artista, que havia gravado em 2002 o aclamado “Em Oração”.

O novo álbum é uma espécie de homenagem ao padre cantor que, em 2011, comemora 45 anos de carreira. O maior desafio da gravação desse disco foi a escolha do repertório, já que Zezinho tem mais de 100 discos lançados e milhares de músicas compostas. “Resolvi optar pelas canções que mais me tocam e que me influenciaram na época em que eu cantava em corais católicos”, comenta a cantora.

Na turnê desse disco, Joanna pretende se apresentar principalmente em grandes espaços ao ar livre. “Todo projeto de cunho religioso deve ser popular. Gostaria de fazer a palavra de Zezinho conhecida entre multidões, objetivo que teatros não permitem”, define.

A seguir, Joanna fala mais sobre essa nova fase religiosa em sua carreira e comenta a importância da religião em sua formação pessoal e profissional.  (Por Helder Maldonado) Revista Sucesso


SUCESSO e-mailing- Joanna, qual a importância que o cancioneiro do Pe. Zezinho tem em sua vida pessoal?
Joanna- Pe. Zezinho teve influência na minha vida, principalmente na minha adolescência, quando ainda participava de grupos de jovens cristãos de minha cidade, (Rio de Janeiro) cantando no coral de minha igreja (Igreja de São João). Lembro-me que suas músicas eram imprescindíveis nos cânticos semanais, pela sua forma de enfocar a evangelização, e o seu modo sempre embasado de sabedoria na doutrina cristã. Muitas das coisas que absorvi, as trago comigo até hoje. Sendo ele o precursor da palavra cantada na canção religiosa popular em língua portuguesa, fez dela uma arma importantíssima no seu legado de Padre para que todos tivessem acesso à palavra de Deus. Foi um prazer poder regravar agora parte de sua obra. Com um olhar maduro, longe da minha adolescência verifico que o tempo não mexeu na sua essência, o que prova que é, na sua área, uma obra clássica.

SUCESSO e-mailing – E quanto à influência musical. Esse religioso teve importância vital em seus trabalhos?
Joanna – Pe. Zezinho em sua obra musical tem características tradicionais mineiras, e essa particularidade de cadência interiorana mostra sua marca de homem que respeita essas raízes, e o alcance de sua obra faz com que aquilo que é um registro regional assuma proporções de universalidade. Outra característica em sua parte musical são os compassos musicais mistos que usa para feitura de cada uma de suas canções, ora dentro da métrica, ora deixando fluir o compasso livremente sem preocupações, e mesmo assim a coerência musical é notável, fazendo, deste modo, uma obra diferenciada de outras que conheço nesse âmbito. Essa liberdade criativa foi uma das razões que me fizeram também interpretar suas canções.

SUCESSO e-mailing – Esse é o segundo projeto católico que você grava na carreira. Quando cria um trabalho desse segmento, há mudanças do seu público e das casas de shows onde você realiza as turnês?
Joanna – No meu caso, há o público distinto que se mistura ao meu público alvo, que é de música popular brasileira e me segue ao longo dos anos. Quando você destaca um trabalho diferenciado, abre portas para um segmento de público que vai em busca daquela mensagem, mas não afasta seu público fiel. Isso é o que percebo nas minhas várias apresentações pelo Brasil a fora. Você agrega ao seu público alvo uma nova mensagem e passa a abrir espaço para outros lhe conhecerem. Todo show de cunho religioso pode ser apreciado em qualquer lugar, principalmente nas esferas de grandes espaços ao ar livre, o que faz com que a participação popular seja mais efetiva fazendo o espetáculo ter uma força imensa.

SUCESSO e-mailing – Nos Estados Unidos é comum que artistas seculares gravem projetos religiosos. Aqui, não. Como o público e a crítica encararam suas incursões pela música católica?
Joanna – Acredito que seja uma questão cultural-histórica. Nos Estados Unidos existe uma forte ligação que aceita com naturalidade a junção do laico e do religioso. No Brasil, como em muitos outros países, a distinção entre a realidade laica e religiosa é muito forte, apesar da profunda religiosidade do povo brasileiro. Essa é a razão que não é tido como natural, habitual esse tipo de projeto. Certos artistas da área da musica popular brasileira tem vindo a engrossar essas tendências de agregarem ao seu longo trabalho na MPB um ou outro projeto religioso. Quanto ao público, parte entende e valoriza, outra parte acha que foge do meu segmento. Digo, todo artista tem a liberdade de expressão a seu favor, liberdade de escolha, que lhe permite a sua incursão em qualquer gênero musical. Por isso faço esses projetos, porque são uma expressão da minha individualidade.

SUCESSO e-mailing – Você sempre se preocupou em lançar discos com arranjos populares e de bom gosto ao mesmo tempo. Há dificuldade de colocar esse padrão em prática na gravação de um disco religioso?
Joanna – A qualidade de expressão musical não depende do gênero musical que se propõe. Por exemplo: quando se ouve uma sanfona de Sivuca nada deve à qualidade musical de um Villa Lobos, que por sua vez nada deve à originalidade de Bach, que é um expoente da musica sacra.

SUCESSO e-mailing – O disco será lançado apenas no Brasil ou também terá versões em outros países?
Joanna – Com os novos sistemas de distribuição via internet, mesmo que não fosse a intenção, o CD já se espalha pelo mundo inteiro. Quanto a versões não pretendo fazer, já que a obra do Pe. Zezinho é muito conhecida em muitos países do mundo.

SUCESSO e-mailing – Existe a possibilidade de você gravar um DVD ou CD em parceria com o Padre Zezinho no futuro?
Joanna – Não faço planos nesse sentido. O mesmo aconteceu com o CD que agora lanço. Simplesmente aconteceu.

SUCESSO e-mailing – Existe outro padre-cantor por quem você nutre admiração?
Joanna – A minha admiração ainda se mantém profundamente ligada ao testemunho da obra coerente, longa, continuada e precursora de Pe. Zezinho.

SUCESSO e-mailing – Mesmo em momentos de crise do mercado, você foi uma artista que manteve uma média satisfatória de venda de discos. Seria você, ao lado de artistas como Roberto Carlos, um dos casos mais emblemáticos de cantora com público fiel?
Joanna – Nas inúmeras idas e vindas profissionais pelo meu país, e fora dele, percebi e percebo a fidelidade do público que me acompanha. As pessoas que acompanharam minha carreira desde o início, habituaram os mais jovens a escutar a minha musica, de forma que nos meus shows não existe um público que se caracterize por uma homogeneidade.

SUCESSO e-mailing – A MPB perdeu espaço para gêneros como a música sertaneja. O que falta para que esse ritmo volte a crescer e a ocupar o espaço que tinha nas décadas de 1970 e 1980?
Joanna – O Brasil de hoje tende a um equilíbrio entre as tendências musicais regionais e nacional. E isso não é negativo, pois a música MPB atual continua a se destacar com muita ênfase no Brasil inteiro. A diferença entre os anos 70 e 80 e a atualidade é que expressões regionais têm hoje um reconhecimento nacional, o que não acontecia anteriormente. Hoje em dia outros fenômenos interessantes acontecem no mundo musical. O eixo Rio/SP continua a ser uma referência mas já não determina em exclusivo o fenômeno do êxito musical em nível nacional .

SUCESSO e-mailing – Você tem uma interessante carreira internacional. Quais projetos tem desenvolvido para esse mercado?
Joanna – Viajo com uma alguma constância a outros países. Tenho trabalho espalhado por boa parte do mundo. Houve uma dedicação da minha parte em países da América latina, países africanos e países europeus (em especial Portugal). Vejo com muito bons olhos a minha primeira parceria com produtores e poetas portugueses e africanos para o próximo verão. É uma espécie de celebração e um retorno às minhas origens, que em sua época propícia de lançamento contarei com detalhes.

SUCESSO e-mailing – A música nacional atual vive um momento interessante ou você nota que a produção está menos ousada?
Joanna – Eu acredito que o espaço se democratizou a ponto de alargar cada vez mais vários tipos de tendências. Por exemplo: a música carioca (que foi berço da bossa nova) hoje abre espaço para o funk, música que não só se destina à periferia, mas também à Zona Sul carioca. Existe um Rio de Janeiro diferente musicalmente, aonde as vozes da periferia são muito mais abrangentes do que antes, e fez com que isso mudasse um pouco o rumo da história da música carioca. No resto do Brasil acontece o mesmo. Não é uma questão de pasteurização, são ciclos em que a música trafega. Amanhã será outra tendência. Por outro lado, também silenciosamente, vê-se uma outra realidade: o revivalismo. A continuada escolha de novos e mais antigos artistas, à procura de renovar o que já foi inscrito na MPB e trazer de volta, de uma forma renovada, algo que ficou no inconsciente coletivo. Meu amigo e poeta Roberto Menescal em um dos nossos encontros me falava: Não faça, refaça! Interessante, isso anda acontecendo no mundo inteiro.

SUCESSO e-mailing – Na sua opinião, quais os motivos dos brasileiros cada vez mais migrarem da igreja católica para a evangélica?
Joanna – O censo atesta que no cenário religioso brasileiro a maioria da população ainda é católica. Mas, vivemos num mundo em que existem infinidades de escolhas, o que permite às pessoas encontrarem caminhos que mais lhes convém. Ao longo dessa entrevista falamos de um mundo em mudanças, e são as mudanças que caracterizam as sociedades vivas.

SUCESSO e-mailing – Ultimamente, tem acontecido vários crimes contra homossexuais, motivados muitas vezes por valores religiosos. Até que ponto a formação judaico-cristã atrapalha o diálogo e o desenvolvimento intelectual de alguns cidadãos brasileiros? Como isso pode ser modificado?
Joanna – As ideais fundamentais do Cristianismo, expressas no Novo Testamento, referem que para Deus todos os homens são iguais e que a lei máxima consiste em amar o outro como a si mesmo. Poderão estas idéias atrapalhar o desenvolvimento intelectual de alguns cidadãos brasileiros? O preconceito se esconde, com muita facilidade, sob a capa de valores religiosos. O preconceito contra a liberdade individual ou de certos grupos da população (mulheres, minorias étnicas e religiosas etc.). Pelo mundo a fora muitos seres humanos matam outros dizendo que o fazem em nome do seu Deus, sejam muçulmanos, hindus ou de tradição judaico-cristã. Creio que os fundamentos de qualquer uma destas tradições religiosas são genuinamente contrários aos atos de violência que uma interpretação deturpada da sua mensagem provoca.

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