Um espiritual

Yves Congar

(Unam Sanctam 38, c. VI. P. 158s)De São Basílio a São Gregório Magno, religioso ou não, o bispo é um espiritual, um homem de Deus.

As partes mais antigas do ritual das ordenações enunciam mais deveres do que poderes. O bispo é votado ao estudo assíduo da Sagrada Escritura, à oração, ao jejum, à hospitalidade, ao dever de receber, de escutar e de ajudar a todos, à esmola, enfim. Ele edifica seu povo pela palavra e pela celebração litúrgica, e nisso ele tem consciência de exercer mais um ministério do que um poder. É Deus que é o agente primeiro e soberano desta edificação da Igreja. “Deus revelou, Deus inspirou”…

Assim, uma autoridade “espiritual” se exercia na autoridade hierárquica, uma autoridade pastoral segundo o ideal do “servir presidindo”de Santo Agostinho. Os homens o sentiam, mesmo que ainda não fossem cristãos. O bispo representava todo um ideal de interesse pelos homens, de justiça, um ideal essencialmente moral de autoridade. Vemo-lo realizado num Ambrósio, num Agostinho, num Gregório Magno. O autor da Regra Pastoral foi um exemplo concreto de exercício da autoridade como homem espiritual. Não somente ele viveu o seu ideal de juntar santificação pessoal e exercício de ministério, mas soube exercer a autoridade suprema “cristãmente”.

 Que é isto? É, primeiro, exercer a autoridade num verdadeiro espírito de serviço e, pois, num sentimento não afetado de humildade.

As fórmulas “Servo dos servos de Deus” ou “Servo dos sacerdotes” não foram para Gregório simples clausuras de chancelaria. Para lá do exercício da autoridade, e nesse serviço mesmo, ele tinha o cuidado efetivo do bem dos homens aos quais comandava. Ele amava, respeitava a sua livre ascensão para o bem; tinha a preocupação de lhes explicar as razões das suas decisões em função dum bem, duma verdade, cujo instinto eles tinham no fundo da alma.

Em suma, ele exercia a autoridade à maneira duma espécie de Abade universal, misturando a ternura de mãe e a autoridade de pai. É que a sua Igreja não era uma grande “organização”, um “sistema”, mas uma comunidade de homens que tendem à perfeição da caridade. Nem todos os papas seguiram este caminho. Mas os grandes bispos dos séculos que chamamos “catolicismo monástico”, guardaram vivamente a referência da autoridade ao seu princípio espiritual.