Acompanhamos a preparação das delícias celestiais feitas no Mosteiro de São Bento e guardadas a sete chaves – que agora são pedidas via site e vendidas pelos Correios

Fábio Mazzitelli – O Estado de São Paulo

O paraibano d. Bernardo Schuler, de 44 anos, cuida de todo o processo de produção da padaria do Mosteiro de São Bento, na região central de São Paulo – da supervisão dos famosos quitutes que saem diariamente da cozinha à decoração da filial, aberta há dois anos nos Jardins, região sul da cidade. Foi dele também a ideia de espalhar as delícias beneditinas para o resto do País, via encomenda em site e entrega pelos Correios. Explica-se, então, o zelo com que d. Bernardo, que não gosta de aparecer em fotos, cuida da padaria. E por que a tão bem guardada cozinha dos monges recebe raríssimos visitantes.

Entrega. Pães agora já chegam a todo o País - André Lessa A/E

Na última quarta-feira, porém, ele abriu uma exceção para a Expedição Metrópole, que acompanhou o processo de feitura e embalagem de pães, bolos, doces, biscoitos e geleias. À exceção do mel vendido na padaria, feito em uma fazenda ligada à ordem beneditina, todos os produtos são fabricados por quatro monges, com o apoio de cinco funcionários.

“Há 10 anos, eu fazia tudo praticamente sozinho. Sempre gostei muito de cozinhar”, conta d. Bernardo, com o hábito marcado pela farinha usada no pão. “Comecei a colocar timidamente os produtos. Com o tempo, cresceram a quantidade e a diversidade. Hoje, supervisiono tudo e ainda faço algum produto. Mas é tanta coisa para cuidar que fico mais na supervisão mesmo”, diz o monge, que adquiriu uma tendinite no ombro esquerdo após anos fazendo à mão a massa do pão artesanal do Mosteiro.

Entre os monges que ajudam d. Bernardo, um dos mais aplicados é Lourenço Palata Viola, de 24 anos, em processo de formação monástica e prestes a renovar os votos – etapa de reafirmação da vida religiosa dos beneditinos. “Também gosto de trabalhar na cozinha”,

Aroma. Aberta em 1999, a padaria dos monges está instalada em um espaço de 500 metros quadrados no andar térreo do prédio secular do Mosteiro de São Bento. São, no total, dez salas, com uma câmara fria, outra refrigerada e oito despensas, que guardam alimentos, garrafas de conhaque e vinho canônico, caixas para embalagens, fornos industriais e muitos utensílios de cozinha.

Para quem entra pela primeira vez, o aroma dos pães e bolos assados aguça o olfato – e estimula o pecado da gula. O pão São Bento (de mandioquinha, por R$ 15) e o bolo dos monges (com damasco e ameixa, com quase 1,5 quilo, por R$ 50) são os produtos mais pedidos na padaria do Mosteiro. “O pão tem de ser fresquinho, do dia. O bolo, como leva bebida alcoólica, quanto mais curtido mais saboroso fica”, ensina d. Bernardo.

E o monge confessa um segredinho: as receitas que fazem tanto sucesso têm inspiração estrangeira, mas são adaptadas para se encaixar à perfeição ao paladar do brasileiro. “O piloto sou eu que faço, com base em uma receita original. Não pode mudar a essência, senão vira outra coisa”, diz. O bolo que leva o nome de d. Bernardo (veja como é feito ao lado) foi uma adaptação de outro inventado na França, onde ele viveu antes de entrar para a vida monástica.

“Coloquei o meu nome no bolo porque é a receita em que mais fiz interferências (a partir da original). Ele leva especiarias, frutas, bebida alcoólica…” entrega d. Bernardo. “Ou você gosta muito, ama mesmo, ou não gosta. Esse bolo não tem meio-termo. Ele exige um paladar mais refinado.”

Novidade. Quem não mora em São Paulo, mas vive sonhando com os pães e as doçuras quase celestiais fabricados pelos religiosos, agora pode se deliciar em casa. Em testes desde o final de fevereiro, o sistema de entregas dos monges já se espalhou pelo País – e só atrai mais gente a cada dia. “Já atendemos cidades do Nordeste, como Salvador e Fortaleza. Quisemos começar o serviço pelo site, sem alarde”, diz o monge.

As encomendas são feitas pela internet, no site da padaria (www.padariadomosteiro.com.br), e os produtos entregues são os mesmos vendidos nas duas lojas físicas – as caprichadas embalagens também são as mesmas. O suporte para a logística é feito pelos quatro funcionários que trabalham na filial da padaria nos Jardins – é de lá que as encomendas são despachadas. Segundo o sindicato das panificadoras, nenhuma outra padaria oferece entregas pelos Correios em São Paulo.

Apesar da expansão, a preservação do processo artesanal é praticamente um dogma para os monges. “É uma coisa monástica elaborar um produto bem feito, apresentável”, diz d. Bernardo. “Mas isso não é o mais importante. Se fosse bonito e não fosse bom, ninguém voltaria. Aqui todos acabam voltando.” E, agora, também pedindo pelos Correios.