Ricardo da Costa – UFES

In: Revista Mediaevalia. Textos e Estudos 21 (2002), p. 115-137 (ISSN 0872-0991).
Publicação do Gabinete de Filosofia Medieval da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.

http://www.ricardocosta.com/pub/cluny.htm

I. O tempo de guerreiros e camponeses

Imagine um mundo com poucos homens. Pouquíssimos. E pobres. Paupérrimos. Vazios imensos entre um povoado e outro. Florestas, pântanos e brejos ainda entre um campo cultivado e outro. Nesse espaço ocidental europeu de cidades esvaziadas e penetradas pelo verde – sinal de abandono e recuo – há mil anos atrás a natureza ainda resistia: os homens mal dominavam a terra. Muitos trabalhavam o solo com suas próprias mãos. As ferramentas eram poucas, a maioria de madeira ainda. As famílias, a maioria de camponeses – mas também de escravos – viviam em choças. Trabalhavam unidas e a duras penas para retirar sua subsistência. De cada grão colhiam dois, no máximo três (DUBY, 1979: 13).

Mesmo assim, parte da colheita ia para seu protetor, seu senhor, seu amo, aquele que os protegia dos ataques, da violência, da guerra. Ele deveria conservar a paz. No entanto, ele mesmo era o senhor da guerra. Paradoxo, não? Pois tinha um cavalo, uma espada, sabia matar. Sua família tinha uma história que remontava a algum rei ancestral e viril. Era uma linhagem. Ele morava em uma fortificação, uma fortaleza de madeira – já existiam alguns castelos de pedra, mas eram raros.

Assim, cada vez mais, a partir do século XI, os camponeses viviam ao redor dessa paliçada, residência simples e sem requinte, prontos para entrar nela caso houvesse alguma agressão. Essa fortificação era um pólo de atração, como as guarnições romanas dos séculos III-IV. Cada vez mais os pobres buscavam essa proteção: o habitat concentrou-se. Esse processo foi denominado de encelulamentopelos historiadores (DUBY, 1992: 60).

O senhor tinha o direito de julgar. Vigiar e punir. Mas não sabia trabalhar os campos: dependia, portanto, daqueles miseráveis sujos que viviam em suas terras. Suas? Sim e não. A terra abundava, os homens não. Havia então uma relação de dependência: buscando uma palavra para definir essa teia social, os historiadores chamaram esse entrelaçamento nas relações entre os homens de reciprocidade. Os rurais estavam ali há muito tempo: foram fixados na terra desde o século IV, quando ainda existia o Império Romano do Ocidente. Assim, não podiam ser expulsos. A terra então era compartilhada.

Mas não pense que o senhor quisesse expulsá-los. Pelo contrário, dependia deles para sobreviver. Afinal, como saber os ciclos da natureza, os momentos de plantio e colheita, as formas de limpeza e preparo da terra? Sem eles, certamente o senhor da guerra morreria de fome. Nesse ambiente hostil, os próprios trabalhadores rurais consideravam os impostos entregues como um presente. Uma oferenda, um reconhecimento quase espontâneo dos protegidos. Compensava a segurança que o senhor oferecia (DUBY, 1999: 116). Dar e receber. Oferecer e retribuir. Em tempos de penúria, o senhor abria seus celeiros, alimentava-os. Sinal de confiança. E necessidade.

II. O tempo dos clérigos

Nessa sociedade analfabeta destacavam-se os religiosos. Especialmente os monges. Como no século VIII, os valores espirituais encontravam-se nos mosteiros, não nas catedrais, não nos bispos (DUBY, 1999: 128). Estes eram mundanos, também eram cavaleiros, participavam das guerras, estavam mesclados no mundo secular, profano. Tinham as mãos sujas. Pois o mundo religioso também enfrentava uma grave decadência, especialmente após a dissolução do Império Carolíngio e os ataques vikings no final do século IX. Abadias foram destruídas, comunidades dispersadas, a Regra de São Bento esquecida. Ermentário, um monge de Saint-Philibert de Noirmoutier, escreveu em meados do século IX:

O número de navios aumenta; a multidão inumerável de normandos não pára de crescer; de todos os lados cristãos são vítimas de massacres, pilhagens, devastações, incêndios (…) tomam todas as cidades que atravessam (…) muitas cinzas de santos são roubadas (…) quase não há localidade, nenhum mosteiro que seja respeitado, e raros são aqueles que ousam dizer: fiquem, fiquem, resistam…
(citado em D’HAENENS, 1997: 89)

Marc Bloch chegou a afirmar que a desordem resultante das tormentas vikings e magiares do século IX deixou o corpo social do ocidente medieval “coberto de feridas”; a vida intelectual sofreu muito com isso, pois o monaquismo decaiu profundamente (BLOCH, 1987: 57). O papado também sofreu: no início do século XI, estava dominado pela nobreza germânica, que elegia e depunha papas a seu bel-prazer. Por sua vez, corruptos e devassos, os papas distinguiram-se por suas orgias e subornos. Simonia e nepotismo, desejo de possuir coisas impuras: cupiditas(DUBY, 1992: 51). Pecado capital. Escândalo. João XII (955-964), por exemplo, foi acusado por seus cardeais de subornar bispos, cometer adultério com a concubina de seu pai e incesto com sua mãe; Benedito IX (1032-1044), igualmente devasso, vendeu o cargo a Gregório VI (1045-1046) por moedas de ouro, sendo deposto por isso (DUFFY, 1998: 87).

Senhores feudais também indicavam abades para os mosteiros, apropriando-se de suas rendas. Parecia que o mundo espiritual estava irrevogavelmente destruído. Fim dos tempos, apocalipse. São Eudes de Cluny (†942) disse

…alguns clérigos desconsideram tanto o Filho da Virgem que praticam a fornicação em suas próprias dependências, até mesmo nas casas construídas pela devoção dos fiéis a fim de que a castidade possa ser conservada dentro de seus recintos cercados; inundam-nas com tanta luxúria que Maria não tem lugar para deixar o Filho Jesus (citado em DURAND, s/d: 475-476)
Obs: Freqüentemente Eudes é mencionado como Odon).

III. Os mosteiros na Idade Média

E foi justamente da abadia de Cluny que um grande movimento de reforma teve início. Muitos religiosos desejavam o retorno à “idade de ouro dos apóstolos”. Os monges foram mais uma vez os responsáveis pelo reerguimento intelectual da Europa medieval. Eles tentavam se aproximar do além, recusando o século, rompendo com o mundo, aquele mundo cheio de vícios (o tema dos sete pecados capitais – e as virtudes – é recorrente na literatura medieval. Verdadeiro sistema regulador da vida moral, o estudo das virtudes e vícios era considerado necessário até para a ciência da memória [mnemotécnica]: LE GOFF, 1994: 453). Ao ser perguntado sobre o porquê de fundar mosteiros, Oto, bispo de Bamberg (1062-1139) disse

…todo este mundo é um local de exílio; e, enquanto vivermos nesta vida, somos peregrinos do Senhor. Assim sendo, necessitamos de estábulos e estalagens espirituais e locais de repouso como os monastérios podem dar-se ao luxo de acolher peregrinos. Além disso, o fim de todas as coisas está próximo e o mundo inteiro assenta-se sobre depravação; por conseguinte, é bom multiplicar os monastérios por amor daqueles que desejam fugir ao mundo e salvar suas almas (citado em JOHNSON, 2001: 212)

Os monges trabalhavam na terra, rezavam e estudavam, ocupavam o tempo em prol de Deus: ora et labora. Opus Dei. Devemos agradecer a eles: graças a esses monges sabemos algo desse tempo. Eles escreveram, escreveram e copiaram. Preservaram. Reinventaram a escrita, a caligrafia minúscula, inventaram a leitura em silêncio, a reflexão (PARKES, 1998: 103-122). Essa foi uma grande revolução silenciosa e duradoura, embora imperceptível para mentes obtusas acostumadas com a excitação da história dos acontecimentos políticos. Um alerta já antigo, historiador: há cinqüenta anos Fernand Braudel nos ensinou que as imensas e lentíssimas vagas das marés profundas dos oceanos, os movimentos quase imóveis dos processos históricos, são mais importantes para a nossa análise do que as enganadoras e apaixonantes espumas das ondas dos fatos, da política, do dia-a-dia (BRAUDEL, 1995: 25).

Por outro lado, tenho que adverti-lo, caro leitor: não se iluda. Boa parte desse quadro geral da sociedade da Europa do ocidente medieval do início do século XI que descrevi nas primeiras linhas desse texto pertence à imaginação dos historiadores, à minha própria imaginação. O maior dos pesquisadores de Cluny, Georges Duby, nos disse que é inútil interrogar os documentos da época, pois seus redatores não estavam nem um pouco preocupados com as condições da vida material (DUBY, 1986: 29). Pelo contrário, os escritores de então olhavam para o além, para o céu e para o inferno. Conversavam com os mortos, tinham sonhos, viam anjos e demônios. Como disse, eram todos religiosos, educados em mosteiros. Muitos sequer saíram deles (DUBY, 1986: 26). Mas não se espante: imaginar é um exercício maravilhoso, a principal tarefa mental do historiador (DUBY, 1988: 01). Pelo menos do que se preza.

Bem, os mosteiros proliferavam desde a época merovíngia (DUBY, 1992: 23). Eram organizados, tinham disciplina; prosperavam. Outro paradoxo: apesar de voltados para o outro mundo, o da eternidade, os monges levavam uma vida bastante prática: cultivavam suas terras com seus camponeses, ajudavam-nos a dominar a natureza, a abrir matagais, a drenar pântanos, a construir moinhos (numa verdadeira política de mecanização do trabalho [GIMPEL, 1977: 15]); produziam vinhos (JOHNSON, 1999: 141) – necessários à liturgia, à prevenção sanitária e à higiene alimentar (MONTANARI, 1998: 287).

As abadias também eram centros de povoamento – vilas foram fundadas (JOHNSON, 2001: 180) -, de produção e comércio – mercados foram desenvolvidos para o excedente de sua produção. No entanto, esse comércio monástico não estava voltado para ganhar, mas para o consumo próprio (DUBY, 1990: 87). Mais: para dar (FOURQUIN, 1986: 21). Hospitalitas. Receber, alojar e alimentar o viajante, o peregrino, o que batia à porta solicitando pernoite, mas também os doentes, os errantes, as crianças, os pobres (DUBY, 1990: 87). Função do bom cristão, do civilizado.

Por fim, os monges foram desbravadores das florestas. Civilizaram. Outra revolução silenciosa, pertinaz, agrícola, levada a cabo por esses homens de negro (os historiadores, mais uma vez eles, deram a esse lento movimento de conquista da natureza realizado principalmente pelos mosteiros o nome de arroteamento) (BONNASSIE, 1985: 33-36, que, no entanto, não diz uma palavra sobre a participação dos mosteiros no processo de arroteamento! Por que? Ver, para confronto, FOURQUIN, 1986: 34).

Assim, embora também tocados pela degradação espiritual dos séculos IX-X, os mosteiros, devido à sua organização, foram os primeiros a se recuperar. Esse movimento regular de ressurgimento e retorno às origens mostra a força histórica das grandes religiões chamadas “do Livro”. Explica sua permanência na História.

IV. Cluny e a doação de Guilherme, duque da Aquitânia

O mais importante centro dessa reforma monástica foi Cluny. Raul Glaber (†1044), o melhor historiador do ano mil, também ele cluniacense, nos conta que a abadia de Cluny era um asilo de sabedoria, pois fez renascer a Regra de São Bento – embora com uma ênfase diferente, como veremos mais adiante. A raça cluniacensetornou-se, segundo suas palavras, “um exército do Senhor que se espalhou rapidamente numa grande parte da terra” (citado em DUBY, 1986: 188).

Um modelo de perfeição, um modo de vida totalmente harmonizado com os desígnios do Criador, Cluny foi um dos maiores projetos monásticos de todos os tempos. Desde sua fundação em 932, a abadia não parou de crescer. Doado em 910 (ou 909) por Guilherme, mais tarde chamado de o Piedoso, duque da Aquitânia e conde de Mâcon, o domínio (villa) encontrava-se ao sul da Borgonha, no Saône e Loire, próximo do Ródano (MARTÍNEZ, 1997: 192). Havia uma capela no local (chamada de Cluny A) – as escavações arqueológicas dataram-na entre os séculos VI e VIII (IOGNA-PRAT, 1998: 107). Chegaram seis monges, liderados por Bernon (910-924), abade de Baume e Gigny, que se propôs construir um pequeno santuário (chamado pelos especialistas de Cluny I), com 35 metros de comprimento (HEITZ, s/d: 132).

Em seu testamento, o duque Guilherme diz:

Para aqueles que consideram as coisas com bom senso é evidente que a Divina Providência aconselha os ricos a utilizar devidamente os bens que possuem de maneira transitória, se desejam recompensa eterna (…) Por esta razão , eu, Guilherme, pela Graça de Deus conde e duque, tendo ponderado estas coisas e desejando, enquanto é tempo, tomar medidas para a minha salvação, achei justo e mesmo necessário dispor, para proveito da minha alma, de algumas das possessões temporais que me foram concedidas (…)

Portanto, a todos aqueles que vivem na unidade da fé e que imploram a misericórdia de Cristo, a todos os que lhes sucederem e viverem até à consumação dos séculos, faço saber que por amor de Deus e do nosso Salvador Jesus Cristo, dou e entrego aos santos apóstolos Pedro e Paulo a vila de Cluny, que fica sobre o rio chamado Grosne, com as suas terras e reserva senhorial, a capela dedicada em honra de Santa Maria Mãe de Deus e de São Pedro Príncipe dos Apóstolos, com todas as coisas que pertencem a essa vila: capelas, servos dos dois sexos, vinhas, campos, prados, florestas, águas e cursos de água, moinhos, colheitas e rendas, terras lavradas e por lavrar, sem restrições (…)

Dou com a condição de que seja construído em Cluny um mosteiro regular, em honra dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo; que aí formem uma congregação de monges vivendo sob a regra de São Bento; que a possuam para sempre, detenham e governem, de tal maneira que este venerável domicílio esteja incessantemente cheio de votos e preces; que todos procurem nela, com o vivo desejo e um fervor íntimo, a doçura da comunicação com o Céu e que as preces e súplicas sejam sem cessar daí dirigidas para Deus, tanto por mim como por aquelas pessoas acima lembradas (…)

Foi de nosso agrado registar neste testamento que de este dia em diante os monges unidos na congregação de Cluny fiquem por completo libertos do nosso poder, do dos nossos parentes e da jurisdição da real grandeza, e nunca se submetam ao jugo de qualquer poder terreno, nem ao de nenhum príncipe secular, conde ou bispo, nem ao do pontífice da sé Romana, mas apenas a Deus… (citado em ESPINOSA, 1981: 284-285)

Sem rodeios ou interpretações dúbias, aqui estão as palavras de um medieval. Um testamento, por natureza, expressa o desejo mais íntimo de alguém, sua vontade mais recôndita, ainda mais se for redigido em vida do doador, como foi o caso. Temente a Deus e preocupado com a salvação de sua alma, pois acredita que recebeu dos céus como graça a nobreza de sua posição social, Guilherme dá um pouco do que tem. Reparte. Deve ser generoso: não reter nada nas mãos é o ideal cavaleiresco que aos poucos se difunde por entre a nobreza: larguezaé o termo que define esse gesto. Os cavaleiros deveriam ser largos, generosos.

Mas o que quero ressaltar aqui são duas de suas condições – sua dádiva tem preço, pois ele parece conhecer a degradação humana: os monges que ali vivessem deveriam se comprometer a cumprir estritamente as normas beneditinas e eleger livremente seu abade. Assim, ninguém poderia interferir na vida da comunidade e, o que acho mais importante, neste testamento, Guilherme dá o tom da crença da época: Cluny, ou melhor, o mosteiro que eles deveriam construir em Cluny, seria um portal de comunicação com o céu! Um elo de ligação cheio de doçura. Cluny seria a Jerusalém celeste encarnada, o paraíso novamente concretizado. Como um ponto de luz na escuridão, um foco de bondade em meio à turbulência do século, as preces e súplicas dos monges seriam a causa de sua reunião. É por esse motivo que o duque os liberta das indesejáveis intromissões de nobres e bispos: os monges deveriam ser livres para melhor obrar junto a Deus! Eram intermediários, intercessores entre “a ordem imutável do universo celeste e a perturbação, a miséria e o medo deste mundo” (DUBY, 1988: 03).

Guilherme confiou essa missão a Bernon por sua fama: o abade era conhecido por ter restaurado a disciplina monástica em vários mosteiros (PACAUT, 1996: 393-394). Essa iniciativa estava bem de acordo com a época. Relação dialética: os seculares, os mais corrompidos, se interessavam pela renovação; os clérigos, igualmente corrompidos, aceitaram renovar. Um movimento social que partiu das consciências, uma mutação das consciências baseada na crença em um além, em uma salvação. De todas as partes do corpo social brotou um desejo de mudança. Próximo da morte, o homem medieval tentava se redimir de sua vida pecaminosa.

V. A expansão cluniacense

Até 926 Bernon aclimatou os irmãos no espaço, na pequena capela existente. Preparou-os para sua missão. Edificou a primeira igreja (Cluny I). Não se sabe nada nem da capela (Cluny A) nem da igreja (IOGNA-PRAT, 1998: 107).

Nesse mesmo ano de 926 Bernon legou Cluny a seu discípulo Eudes (927-942), já citado. Durante seu abaciado, Cluny recebeu um importante privilégio: o papa João XI (931-936) outorgou-lhe em 931 um direito de reforma: a partir de então, qualquer mosteiro que solicitasse ao abade cluniacense uma reforma monástica seria incorporado à casa mãe. O mesmo se daria com qualquer monge que desejasse ser acolhido (IOGNA-PRAT, 1998: 101). Este fato possibilitou a Cluny criar uma rede de mosteiros, um corpo monástico, um exército, como disse Raul Glaber, a ecclesia cluniacensis.

Eudes anda contribuiu de forma decisiva para a formação da espiritualidade cluniacense. Seguindo o modelo apostólico, Eudes traçou um paralelo da vida monástica com o mundo angélico: os monges deveriam ascender sete etapas sucessivas em busca da felicidade angélica para alcançar o Cristo. Em sua obra Occupatio, ele afirma que a Páscoa era celebrada todos os dias pelos cluniacenses em uma igreja que era a “Jerusalém descida dos Céus” (HEITZ, s/d: 132).

Aymard (942-954), Mayeul (954-994) e Odilon (994-1049) prosseguiram o trabalho dos dois primeiros abades com tal afinco que, já no final do século X, Cluny agrupava uma vasta congregação de abadias pelo território francês (PACAUT, 1996: 394). Um ponto importante: com essa expansão, os cluniacenses tornam-se senhores, como castelões e eclesiásticos, pois se apropriaram das antigas prerrogativas do poder real ausente, especialmente a justiça (IOGNA-PRAT, 1998: 102). Naturalmente isso aconteceu por outras vias, pois a defesa de sua liberdade, isto é, de sua emancipação frente aos poderes instituídos, deu-se através de armas espirituais, especialmente sua participação nos movimentos da Paz de Deus e Trégua de Deus (COSTA, 2001) e, um pouco depois, na divulgação da Primeira Cruzada para reconquistar Jerusalém.

Os monges vinham de todas as partes. Em pouco tempo o número se multiplicou: dos seis do tempo de Bernon (910) para 132 no tempo de Mayeul (948). Era necessário ampliar a igreja. Cluny II foi construída nos anos 955-991, seguindo os moldes da planta do convento de Saint-Gall. Tinha 63 metros de comprimento. Consagrada em 981, a partir de 986 temos notícia do primeiro tribunal provado, um claro indício da feudalização dos poderes (DUBY, 1990: 143-179). Os monges tornavam-se senhores.

VI. A alimentação em Cluny e o enriquecimento da região. Cluny III

E senhores com fausto. A batina dos monges, tecida de boa lã, era renovada todos os anos; os tecidos eram comprados de fora, pois a criação de carneiro era pouco desenvolvida na senhoria cluniacense (DUBY, 1990: 110). Um luxo para a época. Graças ao monge Ulrico de Zell, secretário de São Hugo (1049-1109), abade, sabemos um pouco mais da vida no mosteiro. Ele redigiu por volta de 1080 as Très Anciennes Coutumes, descrevendo sua vida cotidiana, sua vida material. Dados preciosos.

Nesse tempo já viviam cerca de 300 monges em Cluny – chegariam a 450 no tempo de Pedro, o Venerável(1122-1155). Uma grande expansão. Proibida a carne de quadrúpedes – exceto para os fracos e doentes – a dieta dos monges era rica e variada. Os cluniacenses foram favorecidos pela multiplicação de trabalhadores nas zonas rurais e a abundância de matérias orgânicas nos séculos XII-XIII: os rendimentos da terra melhoravam, passando de dois para um do período carolíngio a quatro para um em Cluny (RIERA-MELIS, 1998: 390).

Segundo Ulrico, de primeiro de outubro até a Quaresma – dias curtos e frios, a comunidade se reunia no refeitório apenas uma vez por dia nas jornadas de trabalho e duas nos dias de festa. A dieta era a seguinte:

1) Almoço (na sexta hora, por volta do meio-dia): dois pratos quentes (sopa de legumes e guisado de legumes). Como sobremesa, frutas e legumes;

2) Às terças, quintas, sábados e domingos: o “geral” (quatro ovos, uma ração de queijo cru ou cozido) e

3) Aos domingos e quintas: peixe (quando obtido a preço razoável nas feiras locais)

Todos esses pratos eram acompanhados de pão branco e uma taça grande de vinho. Isso no inverno. No verão (da Páscoa a setembro) eles tinham duas refeições diárias, uma ao meio-dia outra nas vésperas – as horas eram divididas de acordo com as horas das orações: matinas (meia-noite), laudes (três da manhã), primas (primeiras horas do dia, ao nascer do Sol, cerca de seis da manhã), vésperas (seis da tarde) e completas(na hora de dormir) (TUCHMANN, 1990: 56)

O jantar das vésperas era frugal: restos de pão, de vinho e frutas da refeição. No fim do dia os monges poderiam ainda tomar um cálice de vinho antes de se recolherem (RIERA-MELIS, 1998: 398-399).

Além disso, a abadia sustentava uma considerável multidão. Os novos recursos que entravam na economia cluniacense – oriundos dos dízimos das abadias satélites, doações inglesas (especialmente Henrique I [1100-1135], que ajuda a construir Cluny III [IOGNA-PRAT, 1998: 103]) e das mil peças de ouro anuais doadas pelos castelhanos (DUBY, 1990: 113) – enriqueceram-na. A abadia virou um imenso canteiro de obras. Cluny III foi construída para tornar-se uma “pequena Roma” (IOGNA-PRAT, 1998: 114).

A igreja tinha mais de 187 metros de comprimento. Naturalmente, esta grandiosa obra arquitetônica pareceu aos contemporâneos a “Jerusalém celeste” (HEITZ, s/d: 134). Tudo em Cluny sugeria o além, as sagradas coisas divinas, os anjos. Os próprios monges eram considerados anjos. Como intermediários perfeitos entre o mundo terrestre e o celeste, a origem da concepção da nova igreja não poderia deixar de ser um milagre. Hildebert de Lavardin, bispo de Mans e de Tours (1055-1133) descreveu em sua obra La Vîe de l’Abbé Hugues a maravilha: São Pedro apareceu ao monge Gauzon em sonho e ordenou-lhe que procurasse seu abade Hugo e o convencesse a construir Cluny III. Semi-paralítico, Gauzon ouviu do santo que, tomando essa iniciativa junto ao abade, ele seria curado e ganharia ainda mais sete anos de vida. No sonho, o monge chegou a ver São Pedro medir o comprimento e a largura da nova igreja abacial, determinando, calculando, precisando o espaço (HEITZ, s/d: 134).

Presentes na tradição bíblica, pelo menos desde Agostinho os sonhos fazem parte do imaginário medieval (LE GOFF, 1994: 283-333). Como o século XII é considerada pelos especialistas do mundo onírico a época de reconquista do sonho pela cultura medieval (LE GOFF, 2002: 511-529), o sonho de Gauzon com São Pedro ordenando e medindo a abadia monumental legitimou Cluny como centro de peregrinação, de devoção, de luz. Espiritualizou o surto agrícola e comercial da região cujo principal responsável foi o mosteiro. Mostra-nos também que o mundo clerical recebeu, a princípio, a reforma cluniacense de braços abertos. Daí sua rápida expansão.

VII. Dos sonhos aos mortos

Eles conquistaram as graças do povo. Um fato crucial para essa devoção popular foi a criação da liturgia dos mortos. Dia dos finados. Assumiam assim as funções eucarísticas. Um “mistério magnífico” que trouxe grandes benefícios às almas dos fiéis defuntos. Os monges de Cluny eram guerreiros de luz que combatiam as trevas. Ao cantarem ininterruptamente, resgatavam as almas penadas, os perdidos, os errantes que estavam condenados ao abismo infernal.

Por volta de 1030 Cluny organizou a liturgia da comemoração dos defuntos – a data foi fixada em 02 de novembro. Era sua vocação. Pierre, o Venerável, oitavo abade de Cluny (1122-1156) escreveu uma coletânea de relatos de milagres (De miraculis): visões – celestiais e diabólicas (sim, o diabo tentava a abadia, daí sua santidade) -, sonhos e aparições de mortos. A obra possui dez relatos de aparições de mortos. Especialmente através de sonhos: os monges cluniacenses recebiam regularmente a visita de mortos em seus sonhos. Anunciações, avisos, premonições. A tradição de Cluny obrigava que o visitado avisasse à comunidade para que fossem celebradas missas salutares em honra ao morto onírico visitante (SCHMITT, 1999: 90-97). Assim, além do contato e do auxílio aos mortos, o mosteiro, com seu canto e suas missas ininterruptas, libertavam almas perdidas para o demônio. Mais uma vez Raul Glaber nos conta:

Sabe que esse mosteiro não tem outro que se lhe iguale no mundo romano, sobretudo para libertar as almas que caíram no poder do demônio. Imola-se nesse lugar tão freqüentemente o sacrifício vivificante, que quase não passa um dia sem que, por tal mediação, não sejam arrancadas almas ao poder dos malignos demônios. Com efeito, neste mosteiro, nós próprios fomos testemunhas disso, um uso tornado possível pelo grande número dos seus monges, determinava que se celebrasse sem interrupção missas desde a primeira hora do dia até a hora do repouso; e punha-se nisso tanta dignidade, tanta piedade, tanta veneração, que se acreditava ver mais anjos do que homens (citado em DUBY, 1986: 217).

Anjos, eles eram anjos de verdade que desceram dos céus para cantarem próximo de nós. Esses monges de negro, com suas vozes, entoadas em uníssono perfeito, salvariam o mundo da perdição e os homens estariam livres dos horrores do fim dos tempos. Cluny veio para preparar o mundo para o Apocalipse, amenizar o sofrimento dos espíritos inquietos.

VIII. Comida e arte

Quero retornar à questão alimentar e destacar dois pontos, dois temas que se entrecruzam no homem medieval: música e comida, ou seja, dom, riqueza e caridade. O monetário oriundo das doações que afluiu para Cluny foi também direcionado pelo abade para os mais pobres. Como afirmei no início desse texto e volto a insistir, a economia monástica não visava o lucro, estava voltada para a comunidade – num sentido mais amplo, para o corpo cristão.

Reitero: nem o abade, nem os monges, nem seu tempo tinham a mentalidade capitalista. É inútil vê-los com esse olhar moderno. Não era esse o foco. Há de se fazer um esforço de compreensão, é necessário. Historiador, liberte-se de suas amarras materiais, sinta o ambiente e as prioridades de então. Coloque-se no lugar, pense na Idade Média, não aIdade Média (LIBERA, 1999: 68). Perde-se perspectiva, claro, mas ganha-se compreensão, amplia-se o horizonte do entendimento histórico.

Assim, pelo contrário, cada vez mais ricos, os monges deveriam ter mais tempo para os mortos, para a liturgia, para seu objetivo primeiro: salvar as almas do povo, protegê-las contra os perigos invisíveis – lembre que, para os homens da Idade Média, o mundo invisível era mais importante que o visível. Claro, este perecerá, aquele permanecerá, permanece, é eterno.

Mais ricos, eles deveriam se libertar ainda mais das tarefas domésticas para se dedicar ao Opus Dei, ao canto. E eles cantavam. Cantavam e cantavam, cantavam cada vez mais, “a plenos pulmões”, todos juntos, em uníssono, seis, oito horas, sete vezes por dia (DUBY, 1979: 80). Seu coro era másculo e violento, um verdadeiro canto de guerra – uma guerra espirituale ininterrupta contra as forças do mal. Esse canto buscava o sagrado, deveria harmonizar-se com os hinos dos serafins que rodeavam Deus (DUBY, 1988: 26).

Por esse motivo, o trabalho físico dos monges em Cluny passou cada vez mais a ser simbólico (DUBY e ARIÈS, 1990: 58). Além de embelezar o santuário – a casa de Deus deveria ser semelhante à luz transbordante e gloriosa do céu do Senhor – mais livres, os monges poderiam também realizar melhor outro ideal cluniacense: o da caridade, a caridade beneditina (DUBY, 1990: 113). Ao analisar o orçamento de Cluny no final do século XI, Georges Duby descobriu uma quantidade surpreendente de pessoas que estavam ligadas à riqueza alimentícia cluniacense: serviçais (que, além de usufruírem da caridade, também trabalhavam no mosteiro para sustentar a família), pensionistas pobres, visitantes de passagem, dignatários ricos e peregrinos nobres (e seus cavalos), crianças entregues por sua linhagem (DUBY e ARIÈS, 1990: 63), todos fielmente alimentados como os monges!

Cluny realizava verdadeiras epopéias distributivas: as esmolas. Na Quaresma, por exemplo, pasme, leitor, 16 mil indigentes repartiam 250 porcos salgados preparados pelas duas cozinhas do mosteiro. O consumo de pão era igualmente desmedido: 2 mil cargas de asnos, muitas vezes oriundos de longe (DUBY, 1990: 109). Por esse motivo, a economia cluniacense rapidamente entrou em crise – some-se a isso o fato de as cobranças das famílias camponeses instaladas nas terras do mosteiro serem muito suaves (as corvéias eram insignificantes, lembrem-se do ideal de caridade), existiam muitos alódios nos arredores (terras camponesas livres de cobranças), e um terço do excedente ainda era destinado aos hóspedes e às esmolas para os pobres (DUBY, 1990: 110).

Por fim, as necessidades de consumo da abadia (grãos e vinho) estimularam a produção agrícola local. Os camponeses prosperaram, não só vendendo sua produção para os monges mas também trabalhando no canteiro de obras que se tornou a construção daquela imensa igreja abacial (DUBY, 1990: 115).

IX. Críticas de São Bernardo: comida e arte (II)

De qualquer modo, a independência, todo esse luxo e opulência e especialmente a velocidade com que Cluny passou de uma economia baseada na exploração direta de um vasto domínio (910-1080) para uma economia monetária (1080-1125) (DUBY, 1990: 123) despertou a ira de muitos setores eclesiásticos. Invejas. Com a morte do abade Hugo de Sémur (1109), a eleição de Pons (que se demitiu) e Hugo II (que governou apenas alguns meses), a ordem entrou em crise. Crise de valores: foi acusada de corrompimento. Luxo, opulência, fausto. Degeneração. Sua expansão e enriquecimento provocara ciúmes. Mas também decadência moral.

As críticas não eram novas. O bispo Adalberon de Laon (†1031) – um dos criadores do ideal das três ordens – já havia escrito um poema satírico, um panfleto, Graça para o rei Roberto (Carmen ad Robertum regem) denunciando Cluny e seu abade, Eudes. O desejo de Adalberon era restabelecer os bispos como conselheiros dos reis, função então usurpada pelos monges, segundo ele, “laicos que recusam o matrimônio”, responsáveis pela perturbação social.

Eudes era o culpado: esse “mestre da ordem belicosa dos monges”, que domina um suntuoso palácio, vive como um nopbre quando deveria viver como um pobre. É um usurpador. Além disso, os cluniacenses militarizaram a oração, como vimos. Adalberon teria mandado um monge a Cluny para obter informações. Ele regressou maravilhado e convertido à mentalidade cluniacense: “Sou cavaleiro, permanecendo monge!” Adalberon ficou perplexo: monges guerreiros? Orações militarizadas? Guerra espiritual? Tolice. Trata-se de uma transgressão social (DUBY, 1982: 67-71).

Chegamos então a São Bernardo (1090-1153), o homem do século XII (SANTOS, 2001). Um dos maiores pregadores de seu tempo, cisterciense, austero, devotado à união mística com Deus, ao papel ascético do trabalho manual, Bernardo redigiu, por volta de 1124, uma apologia (DIAS, 1997: 7-76). Um grande amigo seu, monge cluniacense, Guilherme de Saint Thierry (próximo de Reims), escreveu-lhe uma carta com uma ordem: pôr fim a um escândalo. Os cistercienses estavam caluniando os cluniacenses (BAC, MCMXCIII: 248). Guilherme então se queixou a Bernardo, que decidiu ceder à sua dor e responder. Logo no início da carta ele faz duas perguntas diretas e incisivas, características de seu estilo impetuoso:

Como é que eu poderia ouvir em silêncio a tua queixa acerca de mim, pela qual se diz que nós, os mais miseráveis dos homens, andrajosos e mal vestidos, das cavernas, como diz ele, julgamos o mundo e, o que é mais intolerável ainda, criticamos também a tua gloriosíssima Ordem e, sem vergonha, atacamos os santos que nela vivem tão louvavelmente e, da sombra da nossa ignobilidade, insultamos esses luminares do mundo?

Por acaso é possível que nós, não lobos vorazes sob pele de ovelhas, mas pulgas mordazes e mesmo traças destruidoras, uma vez que não o ousamos fazer às claras, destruamos, às ocultas, a vida dos bons e nem sequer lancemos o clamor da invectiva mas o sussurro da detração? (I.1. In: DIAS, 1997: 23)

Como se vê e pode-se imaginar, esse texto fez muito sucesso. Bernardo possui um estilo vigoroso. Logo se faz ouvido. Particularmente esse texto deu-lhe prestígio, tornou-o famoso nos círculos eclesiásticos (SANTOS, 2001: 53).

Bem, após aceitar falar sobre o assunto, Bernardo afirma que jamais discutiu em público contra Cluny. Pelo contrário, sempre foi muito bem recebido como hóspede em mosteiros cluniacenses – chegou mesmo a ser hospitalizado – e pôde perceber que seu modo de vida é santo, honesto, discreto e casto (II.4) (DIAS, 1997: 27-29). Afirma que sempre falou bem dos monges de negro: “Sou Cisterciense, condeno por isso os Cluniacenses? De modo nenhum. Amo-os até, falo deles com elogio, louvo-os.” (IV.7) (DIAS, 1997: 33). Apenas preferiu entrar para a Ordem de Cister por necessitar de um remédio mais forte tanto para sua alma pecadora quanto para seu corpo, antes vendido ao pecado.

Assim, antes de iniciar suas críticas aos costumes corrompidos de Cluny, Bernardo ressalva:

Na realidade, nenhuma ordem aceita algo de desordenado; o que é desordenado não é ordem. Por consequência, não me devem considerar como disputando contra a Ordem mas pela Ordem, se acaso, repreendo não a Ordem nos homens mas os vícios dos homens (…)

Se, de fato, a alguns desagradar, eles mesmos mostram que não amam a Ordem, já que não querem condenar a corrupção, isto é, os vícios. A esses respondo com aquele dito de Gregório: “É melhor que apareça o escândalo que se deixe a verdade” (VII.15) (DIAS, 1997: 47)

Suas críticas dirigem-se não só a cluniacenses, mas a todos os monges: “Quem é que no princípio, quando começou a Ordem monástica, teria pensado que os monges pudessem chegar a tal relaxamento? Oh! Como estamos longe dos tempos de Antão!” (IX.29) (DIAS, 1997: 51). Seus olhos vêem vaidade e superficialidade disseminadas em todos os mosteiros. Falta de moderação. Riqueza. Luxo. O mundo monástico foi tomado pelo excesso: “…intemperança nas comidas e bebidas, nas vestes e nas roupas de dormir, nos apetrechos de cavalgar e na construção de edifícios.” (VIII.16) (DIAS, 1997: 47). Ao referir-se à alimentação, Bernardo é tão incisivo que seu tom beira a denúncia. Ele quer trazer os monges de volta à razão, aos valores espirituais, à busca da elevação da alma:

O Reino de Deus está dentro de vós, isto é, não na exterioridade do vestir ou dos alimentos do corpo mas nas virtudes do homem interior (VI.12)

(…) De fato, o exercício espiritual é tanto mais frutuoso que o corporal, quanto o espírito é superior ao corpo. (VII.13) (DIAS, 1997: 43)

Sobre as refeições e a bebida nos mosteiros cluniacenses, ele aponta:

Trazem-se pratos de comida uns após outros e, em vez dum simples prato de carnes, de que se faz abstinência, servem-se dois grandes peixes (…) Com tanta arte e cuidado as coisas são preparadas pelos cozinheiros que, depois de se ter devorado quatro ou cinco pratos, os primeiros não impedem os últimos nem a saciedade diminui o apetite (…)

Se fazem misturas dumas coisas com outras, e, desprezando os sabores naturais que Deus lhes incutiu, provoca-se a gula com sabores adulterados… (IX.20) (DIAS, 1997: 51-53)

Um escândalo! Os cluniacenses adulteram os sabores das coisas. Reviram, transformam a natureza! Repare na escolha minuciosamente proposital das palavras: adultério (sabores adulterados). Pecado mortal. Culinária? Perda de tempo, causa para a gula, outro pecado mortal. Peixes à macheia – sinal de grande riqueza, compras regulares nos mercados locais. E os ovos? Quantos ovos! – vimos atrás que terças, quintas, sábados e domingos os cluniacenses comiam quatro ovos. O frigir dos ovos propicia a Bernardo um ritmo, uma cadência pulsante no texto:

Quem seria capaz de dizer de quantos modos (…)

Só os ovos se deitam e batem, com que cuidado se viram, se reviram, mal passados, bem passados, se reduzem e se servem ora cozidos, ora estrelados, ora recheados, ora mexidos, ora sós? Para quê tudo isso senão para prevenir o fastio? (IX.20) (DIAS, 1997: 53)

Quem sofre é o pobre estômago do monge, cheio, com grandes arrotos. Mas nem assim o cluniacense pecador e guloso satisfaz sua curiosidade. Repare que um vício leva a outro: movimento circular. A curiosidade é, para Bernardo, o primeiro grau da soberba, porque “lança os olhos e demais sentidos em direção a coisas que não lhe interessam” (BAC, MCMXCIII: 169). Os olhos deveriam estar voltados para a terra, para que o néscio se conhecesse. “A terra te dará tua própria imagem, pois eras terra e à terra há de retornar” (BAC, MCMXCIII: 213). Os olhos dos monges são os culpados: o estômago não tem olhos. Mais um motivo para o texto ser lido como um banquete imaginário, em um andamento rítmico e melódico de grande impacto discursivo:

Enquanto os olhos são seduzidos pelas cores, o paladar pelos sabores, o pobre estômago, que nem conhece as cores nem aprecia os sabores, é obrigado a receber tudo e violentado, fica ainda mais sobrecarregado do que refeito.” (IX.20) (DIAS, 1997: 53)

Apesar de todo esse fastio, Bernardo ainda sabe de terceiros que muitos jovens sãos mentem que estão doentes para poderem comer carne! Ridículo se for verdadeiro (Ridiculum vero est) Qual o objetivo desses jovens monges? Imagine: aperfeiçoar a boa aparência do corpo. Então ele pergunta: “Que frouxidão é essa, ó bons soldados?” (IX.22) (DIAS, 1997: 55).

Ele debocha desses soldados de Cristo. São beberrões, inclusive, esses cluniacenses. Três, quatro cálices cheios de vinho em cada refeição. Vinhos aromatizados com mel e misturados com pós de corantes. Suas veias ficam saturadas de álcool, a cabeça palpita. Ao invés de rezarem à noite, muitos deles dormem. Claro. Bernardo faz um trocadilho: canto/pranto: “Ora, se és obrigado a levantar-te para as vigílias com a digestão por fazer, não executarás o canto mas antes o pranto” (IX.21) (DIAS, 1997: 55).

Como não associar a denúncia de Bernardo das orgias alimentares cluniacenses ao enriquecimento material que tomou conta do ocidente medieval na virada do século XII? Crescimento populacional, desenvolvimento de novas técnicas agrícolas, arroteamentos, conquista do solo (LE GOFF, 1983: 87-92). Expansão. Fim das migrações perturbadoras. A cristandade alargava-se, as cidades eram novamente palco de transformações sociais. Nascimento da burguesia, novo impulso comercial.

Esse arranque teve início por volta do ano mil. Para as mentes de então, estava associado à busca religiosa. O próprio Raul Glaber, cluniacense, é sempre bom recordar, fala de uma paz divina após o flagelo da fome, como se Deus renovasse seu pacto com a humanidade. Sinta a fluência literária de um historiador cluniacense:

No ano milésimo depois da Paixão do Senhor, após a dita fome desastrosa, as chuvas das nuvens acalmaram-se obedecendo à bondade e à misericórdia divina. O céu começou a rir, a clarear e animou-se de ventos favoráveis. Pela sua serenidade e paz, mostrava a magnanimidade do Criador. Toda a superfície da terra cobriu-se de uma amável verdura e de uma abundância de frutos que expulsou completamente a privação (…)

Inúmeros doentes reencontraram a saúde (…)

O entusiasmo era tão ardente que os assistentes elevaram as mãos a Deus exclamando em uníssono: “Paz! Paz!” Viam o sinal do pacto definitivo, da promessa estabelecida entre eles e Deus. (citado em DUBY, 1986: 179-180)

O ocidente medieval cobriu-se de branco, o branco das igrejas. Construções por toda a parte:

…viu-se em quase toda a terra, mas sobretudo na Itália e na Gália, renovar as basílicas das igrejas (…) Era como se o próprio mundo tivesse sido sacudido e, despojando-se da sua vetustez, se tivesse coberto por toda a parte de um manto branco de igrejas. (citado em DUBY, 1986: 192)

Cluny foi reflexo e imagem disso. A arte das catedrais foi também a arte das cidades (DUBY, 1988: 59), o que mostra a pujança dessa arrancada civilizacional.

Mas Bernardo acusa a opulência do mosteiro de Cluny. Os fiéis deveriam retornar a seu momento primeiro, à vida pobre, como Cristo, como os Apóstolos. Especialmente os monges, que estavam na dianteira do mundo, próximos do além. A vida apostólica era novamente o modelo a ser seguido. O século XII enriquece materialmente mas entra em crise, crise espiritual, crise religiosa (BOLTON, 1986: 19-62).

Por fim, a arte, a rica arte cluniacense que Bernardo aponta e que faz lembrar-lhe do “antigo rito dos judeus” (XII.28) (DIAS, 1997: 63). Ela é resultado imediato dessa riqueza que o mundo conhece. Qual a causa desse pecado? Para ele, a avareza. Ele critica:

Com os bens dos pobres serve-se aos olhares dos ricos. Os curiosos encontram com que deleitar-se e os miseráveis não encontram com que sustentar-se (…) Muitas vezes cospe-se na figura dum anjo, muitas vezes ferem a face dos santos os calcanhares dos transeuntes (…)

Porque decoras o que logo sujas? Porque pintas o que se deve calcar? Que valem aí essas bonitas imagens, onde tão freqüentemente se enchem de pó? Por último, que vale isso para os pobres, para os monges, para a gente espiritual? (XII.28) (DIAS, 1997: 63)

Então chego à passagem mais famosa dessa apologia. Ao acusar a monstruosidade artística cluniacense, Bernardo nos mostra o quanto o mosteiro era suntuosamente decorado:

De resto, nos claustros, diante dos irmãos a fazer leituras, que faz aquela ridícula monstruosidade, aquela disforme beleza e bela disformidade? Para quê estão lá aqueles imundos macacos? Para quê os leões ferozes? Para quê os centauros monstruosos? Para quê os semi-homens? Para quê os tigres às manchas? Para quê os soldados a combater? Para quê os caçadores a tocar trombetas?

Vês uma cabeça com muitos corpos e um corpo com muitas cabeças. Daqui vê-se um quadrúpede com cauda de serpente, dali um peixe com cabeça de quadrúpede. Ali uma besta tem frente de cavalo e de cabra a parte de trás; acolá um animal cornudo tem traseiro de cavalo. Tão grande e tão admirável aparece por toda a parte a variedade das formas que mais apetece ler nos mármores que nos códices, gastar todo o dia a admirar estas coisas que a meditar na lei de Deus.

Meu Deus! Se a gente não se envergonha destas frivolidades, porque não tem pejo das despesas? (XII.29) (DIAS, 1997: 67)

Banalidade da arte, do mal. Os olhos se perdem nas imagens, que passam para o primeiro plano. O tempo está perdido. O mundo cluniacense é um carnaval animalesco, um bestiário que passa em cada parede, em cada escultura, em cada pintura. Os artistas de Cluny deram asas à imaginação e representaram o mundo visível e o invisível para o deleite dos monges: monstros, centauros, sátiros, faunos, dragões, sagitários, macacos (simiae). Até macacos! Na Idade Média, o macaco, o símio, simbolizava os vícios do condenado, a caricatura do homem (CURTIUS, 1996: 655). Como poderia estar presente na arte de um claustro? Por isso Bernardo os chama de imundos. Essa arte é sensual, um prazer perverso, e por isso não deveria ser chamada de estética (DUBY, 1990: 109). Como ver beleza e sublimação nisso? Onde estão as virtudes morais que deveriam estar associadas às percepções estéticas?

A mística bernardina não negava a beleza desses ornamentos. Umberto Eco nos mostrou que justamente por reconhecer seu atrativo irresistível é que os místicos a combateram. A descrição de Bernardo da arte cluniacense é tão real que mostra seu paradoxo: ele via tanta sutileza em coisas que não queria ver (ECO, 1989: 17).

Talvez eu deva moderar um pouco o julgamento de Umberto Eco. Bernardo apenas aparenta ser contraditório, pois quando conclui sua apologia lamentando não ter conseguido escrever sobre esse tema de outra forma que não fosse o escândalo, diz que, ao repreender os irmãos para que se corrijam, não está fazendo detração, mas atração (XII.31) (DIAS, 1997: 71). Mais um jogo de palavras típico de sua bela e rica retórica, cheia de hábeis contraposições, bem ao melhor estilo da época (ECO, 1989: 20). Bernardo sabe que ao lamentar os vícios ofende os viciosos. Paciência – virtude máxima medieval.

Conclusão

A crítica de São Bernardo à vida cluniacense foi apenas a primeira de uma torrente que se avolumou com o passar do tempo. À medida que se aproximou de seu fim, a Idade Média tornou-se mais rígida, o crescimento e a riqueza, distanciaram os extremos sociais. De sua parte, os religiosos buscaram alternativas mais austeras de redenção. A proposta de reforma cluniacense, a transformação da oração em combate religioso, dos monges em guerreiros de luz foi, como já se disse, mais uma etapa de sublimação das pulsões agressivas dos cavaleiros medievais, da violência das camadas superiores daquela população (VAUCHEZ, 1995: 51). Em suma, mais um momento do processo de civilizaçãorealizado durante aqueles séculos pelo cristianismo triunfante.

Por outro lado, a Igreja, ou melhor, os bispos, já não precisavam dos monges. Vimos que desde Adalberon os bispos denunciavam a apropriações que os cluniacenses vinha realizando, especialmente no campo da liturgia. Eram independentes demais, tornaram-se ricos demais. Os monges deviam ser controlados. A crítica de Bernardo é apenas uma – decerto bastante forte e sintomática – mas apenas mais uma de uma avalanche sistemática e regular.

De um lado, essas críticas foram mais um movimento de retorno às origens (à chamada Igreja primitiva) típico dos segmentos mais radicais presentes em todas as religiões e sempre dispostos a um eterno retorno; por outro, o mundo havia mudado e o centro da mudança estava nas cidades. A virada deu-se entre 1120 e 1125: Calisto II (1119-1124), o primeiro papa em cinqüenta anos que não provinha de um mosteiro, abandonou Cluny aos ataques, às críticas do episcopado (DUBY, 1982: 232). A partir daí, a vida cultural, especialmente a intelectual, passou então, e cada vez mais, do mosteiro para a catedral, do campo para a cidade. Mas isso é outra história.

Enfim, Cluny representa o que de mais opulento a Idade Média central, a dos feudais, criou. Foi uma espiritualidade triunfalista, a idéia de cruzada na oração, onde a contemplação da glória e da majestade divinas eram mais destacadas que as noções de pecado e de resgate (VAUCHEZ, 1995: 40). Exprimindo o desejo espiritual de conquistar o mundo, de representar cada vez mais e melhor o esplendor celeste em sua igreja monumental mas sem abandonar a caridade beneditina e o auxílio aos desamparados, os monges-cavaleiros cluniacenses criaram e materializaram a Jerusalém celesteem terras borgonhesas, seguindo à risca e no limite das possibilidades humanas o pedido sincero e despojado do duque Guilherme: a doçura da comunicação com o céu. Pecaram por serem humanos, talvez demasiadamente humanos.

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