Profª Drª Elisa Lessa – Universidade do Moinho – Congresso Internacional Brasil-Europa 500 anos – Colônia 03 a 07 de Setembro de 1999

Foto Andrea Costakazawa

Contexto Histórico Monástico

Não sendo possível fixar com exactidão a data da introdução da Regra Beneditina em Portugal, sabe-se que os beneditinos se estabeleceram no país nos finais do século XI. A situação dos mosteiros até o século XV, foi no entanto, precária quer do ponto de vista cultural quer económico. Os mosteiros, primeiro dependentes dos seus padroeiros e depois governados por abades comendatários, não ofereciam aos monges condições de observância monástica de acordo com os ideais estabelecidos por S. Bento na sua Regra.

Com a Reforma da Igreja, levada a cabo após o Concílio de Trento (iniciado em 1545) pôs-se fim a esta situação, procedendo-se a uma transformação profunda da vida monástica. Instituída a Congregação dos Monges Negros de S. Bento dos Reinos de Portugal, em 1566, seguiu-se um período de grandes reformas na vida monacal e grandes empreendimentos.

Os Beneditinos, foram ao longo dos tempos, monges simples, dedicados à agricultura, desenvolvendo um trabalho incansável no campo da produção agrícola. Porém, a congregação contou também com monges de grande craveira intelectual, quer no ramo das Ciências Exactas quer no ramo Humanístico, onde se destacaram monges escultores, arquitectos, pintores, escritores e músicos. Numa sintonia perfeita com os habitantes à volta dos mosteiros, o papel e acção dos centros beneditinos, do ponto de vista cultural, social e económico foi de primodial importância para o desenvolvimento das populações. No exercício das Artes, das Ciências e no magistério, o apostolado dos monges beneditinos viria a reflectir-se ao longo dos tempos. O seu princípio era o da ocupação constante. As suas obrigações consistiam na celebração do Ofício Divino e sua preparação para que fosse celebrado com dignidade e esplendor, no estudo, no ensino, na pregação. A importância que os beneditinos atribuíam à música, e o desenvolvimento que alcançaram neste domínio, permite afirmar que a congregação beneditina portuguesa teve um papel de relevo na história da música sacra em Portugal. Sobrea importância da realização do Ofício Divino nas casas conventuais beneditinas, Geraldo Coelho Dias afirmou:
“Na realidade, por causa da solenização do Ofício Divino, enquanto louvor de Deus, os Beneditinos deram sempre particular importância à música nas suas igrejas e, por isso mesmo, também aos órgãos. De facto, S. Bento gastara 12 capítulos da sua Regra, do VIII ao XX, a regular o Ofício Divino, o “Opus Dei”, e a propor a maneira de salmodiar. Por isso, a recitação solene das Horas Canónicas e a celebração da Liturgia, sobretudo da Missa Maior ou Conventual, tornaram-se apanágio e quase senha de identificação do modo de ser monástico-beneditino, sobretudo depois de Cluny. Por isso se diz que os Beneditinos são os homens da Liturgia.”

O período dos Descobrimentos portugueses coincide com a reformação monástica dos monges beneditinos. O fervor missionário para o Além-mar, reforçado pelo movimento expansionista que moldava os portugueses de então, criou nos monges o desejo de fundarem mosteiros no Novo Mundo. Em 1581, o Capítulo Geral da Congregação Beneditina Portuguesa, realizado no Mosteiro de Tibães, decidiu enviar para o Brasil um grupo de 8 monges chefiado por Fr. António do Latrão Ventura, para neste país instalarem uma comunidade beneditina. A proposta saíu de Fr. Plácido Vilalobos, Abade Geral da Congregação. Na acta do Capítulo Geral ficou anotado o seguinte:
“[…] Propôs-se em capítulo pelo nosso mui Reverendo padre Geral como de muitas pessoas das partes do Brasil era importonado por suas cartas lhes mandasse da nossa Congregação alguns religiosos que pudessem lá entender na conversão da gentilidade e ordenar mosteiros por serem mui devotos do nosso glorioso padre S. Bento e aceitarem quase todos a irmandade da dita Ordem, o que pareceu muito bem à dita Congregação. E definiram e ordenaram que achando-se uma pessoa de qualidade, vida, costumes e letras mandasse (querendo ir) com alguns religiosos de bom exemplo. E não se achando logo desta maneira o remetiam ao nosso Reverendo Padre Geral para que ele achando pessoas que tivessem as partes sobreditas as mandasse querendo elas ir […]”

Esta decisão era a consequência natural da determinação da Ordem de fundar mosteiros beneditinos no Brasil, já manifestada no Capítulo Geral de 1575, realizado no Mosteiro de Tibães. Nessa ocasião foi escolhido Fr. Pedro de S. Bento Ferraz para se deslocar ao Brasil e aí estudar as possibilidades de concretização deste ideal missionário. A sua missão tornou-se tarefa fácil a ideia de se fundar um mosteiro na cidade do Salvador foi muito bem acolhida. Em 1581, estabeleciam-se definitivamente nesta cidade os primeiros monges beneditinos, confirmando também eles os versos de Camões:

“Por mares nunca dantes navegados…
e em perigos e eguerras esforçados…
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram
…dilatando a Fé, o Império…”

O primeiro mosteiro beneditino do Brasil, S. Sebastião da Baía, viria ser fundado no ano seguinte. O seu primeiro Abade foi precisamente Fr. António Ventura, que contando já com avançada idade, foi nomeado no Capítulo Geral da Congregação, realizado em 1587. A 12 de Janeiro de 1600, a Congregação Geral reunida no Mosteiro do Pombeiro, contando com a presença dos Padres Definidores e Visitadores, nomeou vários monges para o Brasil e escolheu os Abades de Pernambuco e Rio de Janeiro:
Na mesma sessão se determinou visto como os Padres Dom Abbades ellectos nomeados pera Pernambuco e Rio de janeiro estão faltos de livros que nosso Reverendíssimo Padre geral da congregação lhes de aj

“Religiosos nomeados para o Brasil

E por todos nemine discrepantes forão nomeados os padres seguintes: o padre frei Cypriano de Sam Bento. O padre frei Ruberto de Santo Andre, o padre frei jorge, o padre frei Paulo Peixoto, o padre frei Francisco de Zegno

Abade Pernambuco eleito e sayo por Abbde delle eleito nemine discrepante o padre frey Cypriano de Sam Bento

Abbade do Rio de Janeiro,eleito na mesma sessão procedendo na eleição de Abbade pera o nosso Mosteiro de Sam Bento do Rio de janeiro foi elleito pior Abbade da dita casa Nomine discrepante o padre frei Ruberto de Santo André

Livros aos padres que vão para o Brasil

Na mesma sessão se determinou visto como os Padres Dom Abbades ellectos nomeados pera Pernambuco e Rio de janeiro estão faltos de livros que nosso Reverendíssimo Padre geral da congregação lhes de ajuda para os comprarem”

Entre os anos de 1581/2 a 1670 foram fundados doze novos mosteiros. A sua implantação realizou-se a Norte e a Sul da capital de S. Salvador da Baía, constituindo uma Província Beneditina da Congregação Portuguesa regidos por um Provincial, conventual no Mosteiro da Baía. A decisão de congregar os mosteiros do Brasil numa província dependente da Congregação, foi tomada na Junta Geral que se realizou no Mosteiro do Pombeiro no ano de 1596. O Mosteiro de S. Sebastião da Baía foi designado cabeça de todos os mosteiros da Província do Brasil. Para Abade Provincial foi escolhido Fr. Clemente das Chagas. Os Mosteiros de Olinda e do Rio de Janeiro foram nessa altura elevados a abadias, tendo sido eleitos respectivamente os Abades Fr. Mâncio da Cruz e Fr. Remígio dos Mártires.

O voto de “Passar o Mar”

A expansão da Ordem em terras de além-mar, parece ter prosseguido com naturalidade, graças ao empenhamento de alguns monges e bom acolhimento das populações. Todavia, não era fácil encontrar monges voluntários para o Brasil. Na já citada Junta do Pombeiro, realizada em 1596, a hierarquia da congregação havia constatado “o pouco numero dos religiosos que ha e vão para o Brasil”. O mesmo consta da acta do Capítulo Geral de 1600. Talvez por essa razão, as Constituições da Congregação Beneditina, publicadas em Coimbra em 1629, surgem com uma Carta de Profissão Monástica, onde estão consagrados além dos votos de estabilidade, conversão, obediência, o voto de passar o mar – transeundi mare.

O voto de passar o mar não existia na primeira edição portuguesa das Constituições publicada em 1590, e surge, na opinião de Geraldo Coelho Dias, na sequência de não haver voluntários para o Brasil. Este facto devia-se certamente à longa e perigosa viagem que os monges tinham de fazer, atravessando o Oceano, bem como a adaptação ao clima e isolamento dos mosteiros, situados, em alguns casos, em zonas quase despovoadas. Acrescentem-se a estas razões a presença dos holandeses seguidores de Lutero e Calvino. O voto de “Passar o Mar” terá sido uma decisão que a hierarquia da congregação tomou de forma a conseguir expandir a sua Ordem na Província do Brasil. A expansão teve o seu maior desenvolvimento entre os finais do século XVII e princípios do século XVIII. Os mosteiros fundados a partir de S. Salvador da Baía, no sentido Norte-Sul, quase sempre junto ao mar, foram marcando cada vez mais a sua presença. Em 1762, os beneditinos recebiam o aviso régio que proibía a entrada de novos noviços para os mosteiros da congregação. Em 1827, viria a formar-se a Congregação Beneditina Brasileira, dando continuidade à Congregação dos Monges Negros de S. Bento dos Reinos de Portugal.

A Música e os Músicos dos Mosteiros do Brasil

Os monges beneditinos no Brasil desenvolveram a sua acção seguindo o modelo de vida dos mosteiros da metrópole. Desde logo a liturgia assumiu um papel fundamental na vida das comunidades, dedicando-se igualmente os monges à cultura de campos e fazendas, contribuindo para o desenvolvimento económico e social das populações e ao ensino e educação dos jovens. A importância que os beneditinos atribuían à música ultrapassava porém, o serviço religioso. A música era também um meio de desenvolvimento cultural, de educação, de formação estética e humanística do monge e até de recriação nos poucos tempos livres da vida “entre muros”.

Naturalmente, a prática musical litúrgica adoptada pelos monges beneditinos enviados para o Brasil, obedecia aos príncípios emanados nos regulamentos da Congregação Beneditina Portuguesa, constituídos fundamentalmente pela Regra de S. Bento (Lisboa, 1586), Constituições da Ordem de S. Bento (Lisboa, 1590; Coimbra, 1629), Cerimonial da Congregação (Coimbra em 1647) e às determinações dos Capítulos Gerais da congregação. A prática musical estava organizada de acordo com o quotidiano monástico, presente ao longo do dia na celebração das Horas Canónicas do Ofício Divino.

Em 1623, são publicadas As Constituições e diffiniçoens, da Ordem de S. Bento pera a Provinçia do Brazil, confirmando o Mosteiro da Baía como casa-mãe da congregação na província.

Estas Constituições contêm um capítulo dedicado ao Oficio Divino. Das orientações dadas salienta-se o facto dos monges não poderem ir cantar a outras igrejas e as Matinas se celebrarem à meia noite. O capítulo onze apresenta também algumas considerações sobre a prática do canto polifónico nos mosteiros. O Abade Provincial, juntamente com os outros Abades, Definidores e Visitadores entenderam que a prática de música polifónica “trazia inquietações” aos mosteiros pelo que deixaram expresso o seguinte:
“[…] 3 Porquanto ordinariamente ha inquietaçõesem sustentar Cappellas de cantto dorgão, mandamos aos Prelados que quando senão puder cantar sem estas inquietações, o não cantem, e se uze de canto chão pauzado, e com devoção para o que mandarão aprender todos os irmãos de toda a curiosidade, e diligencia; o Padre Provinçial o fará assy organizar […]”

O capítulo dedicado às obrigações dos Abades e Prelados contém também algumas recomendações relativas ao Ofício Divino e prática musical litúrgica: O texto diz o seguinte:
“[…] fação fazer o Ofício Divino com perfeição […] Ponhão os religiosos nos ofícios para que tiverem habilidade […] Não deixem usar Ordens ate saberem as Cerimónias […] Não façam outras cerimónias […] Não abrão Choro aos Donados […]”

Sobre o ofício de Cantor as Constituições dizem o seguinte:
“[…] 1. Nas festas communique ao Padre D. Abbade os que ha de por por Monistros […] 2. Faça taboa para as festas do Natal, e somana sancta communicando com o Abbade que não tenha Rospeito, senão aquem o fará milhor. […]”

As Constituições têm ainda um capítulo dedicado aos órgãos apenas com um parágrafo sobre a intervenção deste instrumento no Ofício Divino. O texto refere que “[…] O Primeiro verso dos Psalmos e gloria patri não se tanja.[…]”

Sobre o espólio musical beneditino que há notícia, conservam-se apenas alguns Livros Corais e Litúrgicos, formado, no caso do Mosteiro do Rio de Janeiro, por um conjunto significativo de livros, que constitui uma fonte importante para o estudo da liturgia nos mosteiros beneditinos portugueses. Permanece, no entanto, por localizar o repertório musical que então se realizava, incluindo as obras dos próprios monges compositores, nomeadamente de Fr. José de Jesus Maria Sampaio (1721-1810) que compôs várias Missas para o Mosteiro da Baía, onde era monge conventual. A biografia deste compositor consta do Dietário da Bahia que nos informa que:
“Viveo este Religioso empregando o seo tempo em servir a Religião com as prendas de que era datado, consumindo mais de quarenta anonos no continuo exercicio do orgão, compondo varias Missas para o uso do chôro e instruindo os Monges moços no canto-chão. para melhor cumprir com estas obrigações a que voluntariamente se tinha sujeitado na sua entrada (na Ordem) renunciou o Collegio, por elle ser quasi incompativel cumprir exatamente com as de collegial e com as de um chôro diario e nocturno que estava então na maior observancia. Applicado ja a uma só cousa e conhecendo que o homem Religioso não está separado do homem util e social, determinou utilizar ao publico tambem com a sua arte, abrindo para isso huma escola publica de muzica e orgão, donde sahirão muitos discipulos perfeitos em uma e outra cousa, vindo por seu conhecimento a ser o oraculo dos muzicos da Bahia que sendo então pouco peritos nesta arte o vinhão consultar como a mestre, pagando lhe este ensino em virem gratuitamente cantar e tocar nas festividades do Mosteiro quando elle convidava; mas si elle os instruia com suas liçoens, não menos os edificava com suas virtudes sendo este o motivo, por que todos os Prelados de quasi todos os conventos de Freiras o rogararão para ir dar liçoens de muzica, e orgão ás suas Religiosas, o que elle fez com muito credito da Religião, abono de sua pessoa e aproveitamento de suas discipulas. Faleceu Frei José de Jesus Maria Sampaio no Mosteiro da Bahia, aos 23 de Agosto de 1810, tendo de idade 89 annos e seis mezes”.

Com base nos relatórios dos Estados, relatórios enviados para a casa-mãe da congregação, que hoje se conservam no Arquivo Distrital de Braga é possível traçar um quadro da actividade musical nos mosteiros beneditinos do Brasil, bem como conhecer alguns dos monges músicos que nestes mosteiros exerceram funções de cantores e instrumentistas.

No relatório dos Estados do triénio de 1657-1660 ficou assim anotada a compra dos Livros do Coro para o Mosteiro da Baía:
“[…] Primeiramente comprousse hum Breviario grande para o choro e hum livro de muzica de Duarte Lobo, chançonetas, e outra musica; consertousse o choro com algumas vigas novas; consertousse o orgam de folles. Encadernaramsse alguns Liuvros de muzica, e Breviarios. […]”

À semelhança do Mosteiro de S. Bento da Vitória, no Porto e do Mosteiro de S. Bento em Lisboa, cantavam-se neste mosteiro os Responsórios de Natal, as Missas e Magnificats do compositor Duarte Lobo (156?-1646), Mestre Capela da Catedral de Lisboa. Para a existência de um Livro de Duarte Lobo no Mosteiro da Baía, (entre os anos de 1657/1660, de acordo com o relatório do livro dos Estados) deve ter certamente contribuído o facto da obra polifónica deste compositor ter sido impressa na editora Plantin, de Antuérpia, casa de grande prestígio naquele tempo na Europa. A par da existência de obras deste compositor, de grande rigor e austeridade, de estilo próximo de Palestrina, havia no mosteiro livros de Chançonetas, isto é, de melodias populares ou popularizantes cantadas nos ofícios litúrgicos entre os textos latinos, sobretudo nas Festas de Natal e Ano Novo.

Nos mosteiros beneditinos à semelhança das outras instituições religiosas, as celebrações das Festas da Natividade e do início do Ano Novo com seus Autos e Vilancicos, tinham um significado diferente de qualquer outra celebração. Sem dúvida que estas manifestações religiosas-musicais foram palco das maiores ligações entre o religioso e o profano. Em 1770, porém D. António do Desterro, Bispo do Rio de Janeiro e monge beneditino, proibiu os músicos do seu bispado de cantarem ou tocarem vilancicos que não fossem previamente aprovados pelo Mestre Capela da Catedral do Rio de Janeiro, João Lopes Ferreira, capelão cantor, de origem espanhola Em Portugal, a proibição de se cantarem vilancicos no culto, havia sido decretada em 1723.

Nos finais do século XVII, o monge Fr. Félix, natural do Rio de Janeiro, esteve em Portugal, levando para o Mosteiro da Baía vários livros de música. No Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia, lê-se o seguinte:
“[…] trouxe muita solfa para o Mosteiro da Baía, toda em letra redonda como então se usava em Lisboa, porque ainda que parecesse bem a música, que nesse tempo se usava nestas partes do Brasil, era obra de uma mera curiosidade, mas não composta conforme as regras da arte. […]”

No Mosteiro de Olinda havia também, nesta época, um conjunto significativo de livros de música polifónica, testemunhos da actividade musical que então se realizava no mosteiro. No relatório do Estado do Mosteiro enviado para a Tibães, casa -mãe da congregação, relativo ao triénio de 1660/63, o estadista anotou o seguinte:
“[…] Fica no choro hum orgão, duas estantes, vinte livros de canto de orgão: hu pslterio, hum antiphonario, hum gradual, e 11 processionarios: huma taboa dos officios comuns, e outra para se saber onde he o choro: dous breviarios, e hum missal velho […]”

Foram muitos os monges músicos que ao longo dos séculos XVII e XVIII exerceram funções nos Mosteiros do Brasil. Os quadros seguintes apresentam alguns dos monges músicos conventuais do Mosteiro da Baía nomeadamente Mestres Capelas, Cantores, Organistas, harpistas e outros instrumentistas.

Quadro nº 1
Monges Músicos
Nome Função Data Fonte
Fr. José de Santa Ana Coimbra Cantor Mor 1764-1766 Estados nº137, f.16
Fr. Luís da Assunção Cantor Mor 1765-1768 Estados nº137, f.57v
Fr. Henrique da Encarnação Cantor Mor 1780-1783 Estados nº137, f.137
Fr. João de J.M.J. Mendonça Cantor Mor, Sacristão Mor 1786-1789 Estados nº137, f.247
Fr. Manuel dos Prazeres Cantor 1789-1793 Estados nº137, f.286
ADB, FMC, CSB, Estados nº 137

Quadro nº 2
Monges Músicos
Nome Função Fonte Observações
Fr. João do Deserto Cantor Mor AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1624)
Fr. António da Encarnação Baixão AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1638)
Fr. Manuel de Mesquita Cantor Mor AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1639)
Fr. Plácido da Cruz Organista AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1642)
Fr. Estevão Jesus Baixão (Prior) Informção recolhida, por gentileza, dos apontamentos de J.A. Geraldo Coelho Dias, OSB/FLUP (? – 1644)
Fr. António de S. Paulo Harpista AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1652)
Fr. Manuel da Cruz Baixão AMSB/ RJ, Dietário, códice 1161, f. 282 (1656 – 1743)
Fr. Bento da Cruz Cantor Mor AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1663)
Fr. Manuel do Desterro Cantor AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1668)
Fr. Manuel da Encarnação Harpista AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (1669 – 1753)
Fr. Dionísio de S. José
Foi Abade do mosteiro Cantor AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (1674 – 1731)
Fr. Martinho de Jesus Cantor AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1683)
Fr. Marcos do Desterro Organista AMSB/ RJ, Dietário, códice 1161, ff. 235 – 236 (? – 1686)
Fr. Romualdo de Santa Catarina Cantor Maria Luiza de Queiroz Amancio dos Santos, Origem e Evolução da Música em Portugal e sua influência no Brasil, Imprensa Nacional, 1942, p. 275 (? – 1693)
Fr. Matias de S. Bento Cantor Mor, Mestre de Capela AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1695)
Fr. Rodrigo do Espírito Santo Cantor Maria Luiza de Queiroz Amancio dos Santos, Origem e Evolução da Música em Portugal e sua influência no Brasil, Imprensa Nacional, 1942, p. 275 (? – 1698)
Fr. João de Santa Maria Cantor, organista AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1699)
Fr. Pedro de S. José Cantor, Organista AMSB/ RJ, Dietário, códice 1161, ff. 370 – 371 (1707 – 1795)
Fr. Faustino da Vitória Cantor Mor AMSB/ RJ, Dietário, códice 1161, f. 267 (? – 1713)
Fr. Félix Instrumentista AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – c. 1700/1715)
Fr. Francisco da Gama Organista, Cantor, Mestre Capela AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahi (? – c. 1700/1715)
Fr. Agostinho de Santa Mónica Cantor, Instrumentista AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahi (? – 1715)
Fr. Pantaleão de S. Bento Instrumentista AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – c.1719/1720)
Fr. João do Sacramento Organista AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1720)
Fr. Boaventura de Santa Quitéria Organista AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1721)
Fr. José de Jesus Maria Sampaio Compositor, organista AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (1721 – 1810)
Fr. Emiliano da Madre de Deus
Definidor e Provincial da Congregação Cantor AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1730)
Fr. Joaquim de Jesus Maria Cantor Mor AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1732)
Fr. António Serafins Músico AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1749)
Fr. Miguel de Jesus Maria Cantor, Mestre de Coristas AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1777)
Fr. Francisco Santa Luzia Cantor, Mestre Capela AMSB/ Baía, Dietário das Vidas e Mortes dos Monges da Bahia (? – 1758)

A existência de um número tão significativo de monges músicos conventuais comprova ter havido neste mosteiro uma actividade intensa no domínio da música.

O Mosteiro do Rio de Janeiro foi também, desde a sua fundação em 1598, um importante centro de ensino e actividade musical.

Foram muitos os artistas beneditinos que com a sua arte tornaram o mosteiro e respectiva igreja um dos monumentos mais significativos do arte barroca do Rio de Janeiro. Fr. Domingos da Conceição da Silva, escultor e imaginário, natural de Matosinhos tomou o hábito no Mosteiro de S. Bento em 1647, na qualidade de Irmão leigo. A obra de talha seiscentista do mosteiro foi executada sobre o plano deste monge, que para o efeito fez uma maquette em madeira.

Sobre a Livraria do mosteiro, o autor do Estado de 1783-1787 afirmou: “A caza da Livraria he a mais completa do que ha noticia nesta America”. No Mapa dos Mosteiros do Brasil elaborado na segunda metade do século XVIII, o mosteiro surge assim descrito:
“Está situado este Mosteiro na Cidade do Rio de Janeiro em hum sítio agradavel segundo dizem. O seu edíficio he grande e está completo; tem huma boa Igreja e todos os mais officiais.
Número de monges:
Costumava ter 70, actualmente terá pouco mais de 40”

Ao longo da sua história, o mosteiro teve monges abades que de uma maneira particular se interessaram pela qualidade musical dos Ofícios Divinos ali realizados, e pela preparação musical dos seus noviços. Entre estes Abades contam-se Fr. Francisco do Rosário e Fr. Vicente José de Santa Catarina, que nasceu no Arcebispado de Braga, tendo governado o mosteiro entre 1772 e 1775. De acordo com o Dietário, este Abade preocupou-se de uma forma especial pela realização do Culto Divino, apesar da falta de Cantores de Cantochão que então se faziam sentir:
” […] O Culto Divino occupou muita parte de seo cuidado e dilligencia. As funções Sagradas forão no tempo do seu governo as mais solennes.[…] Estas piedozas disposições, que todas se dirigão ao culto do Senhor, elle não vio completamente satisfeitas pela falta de Monges que ja sentia esta Provincia principalmente este Mosteiro de cantoxonistas. Com tudo, as solemnidades se celebraão do modo possível, mas sempre modestas serias e graves.

No seu tempo foram também adquiridos vários livros para o Coro:
” […] Para o choro que elle frequentava de dia e de noite comprou Salterio, Gradual, e Antifonario novos, que contem as quatro festividades mais solemnes do anno, e as de Nosso Santissimo Patriarcha e outro mais de hymnos, e canticos. […]”

O Mosteiro teve pelo menos três monges músicos que estiveram à frente desta casa monástica: Fr. Pedro dos Santos, apontado na sua biografia como “excelente contrapontista”, Presidente do mosteiro em 1633 e Fr. Plácido Baptista, músico falecido em 1720 e Fr. Miguel da Conceição, Cantor, falecido em 1768, ambos Abades.

Como já se afirmou, no arquivo do Mosteiro de S. Bento conserva-se um conjunto significativo de Livros Corais. Em 1984, o monge arquivista D. Mateus Ramalho Rocha fez oInventário Cronológico Descritivo dos Livros Corais e Litúrgicos. Os exemplares mais antigos conservados no mosteiro, de acordo D. Mateus Ramalho Rocha, são dois Breviários Monásticos, datados de 1576. O Antifonário mais antigo data de 1705.

Um dos Hinários Monásticos que contém as Festas de S. Bento e as quatro Festas mais importantes do ano. (Natal, Ressurreição, Pentecostes e Assunção) foi copiado por Fr. Boaventura de S. José, monge Cantor e Organista dos Mosteiros de Rendufe e Lisboa.

No Arquivo do Mosteiro conserva-se uma cópia manuscrita da obra Dominica in Palmis do compositor Padre Manuel da Silva Rosa (?-1793). A Paixão segundo S. Mateus Dominica in Palmis, para 4 vozes intercaladas com partes em gregoriano encontra-se no Arquivo da Cúria Arquidiocesana de São Salvador, na Baía e foi trancrita e analisada por Adeilton Bairral. Esta obra foi também muito cantada na Capela Imperial e no Convento de S. Francisco do Rio de Janeiro.

Os monges beneditinos possuíam os seus escravos negros. A sua compra era registada nos Estados. Designados por escravos da religião, os escravos estavam cativos nos mosteiros e fazendas, desempenhando os mais variados ofícios. Aos escravos dotados musicalmente era-lhes dada a possibilidade de aprenderem a tocar órgão. Na época em que o mosteiro adquiriu o chamado órgão da coroa, em 1773, havia dois oficiais escravos organistas. Em 1777, eram organistas do mosteiro os escravos Matias e Inácio e em 1785, o mosteiro contava com os seguintes escravos organistas: Matias, Jerónimo, Bonifácio de Narcisa, José Campista e Custódio.

O quadro seguinte apresenta alguns dos monges músicos que foram monges conventuais no Mosteiro do Rio de Janeiro

Quadro nº3
Monges Músicos
Nome Função Fonte Observações
Fr. Bento da Cruz
Foi Abade do Mosteiro. Cantor AMSB/Baía, Dietário das Vidas e mortes dos Monges da Bahia (? – 1633)
Fr. Pedro dos Santos Contrapontista MSB/RJ, Dietário, códice 1161, f.2o Presidente do Mosteiro em 1633
Fr. Francisco da Cruz Organista AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f.221 (? – 1636)
Fr. Plácido Barbosa Cantor, Organista AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f.221 (? – 1638?)
Fr. Plácido da Cruz Baixão AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f.227. (? – 1661)
Fr. Domingos do Rosário Cantor AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f. 229 (? – 1666)
Fr. Plácido Chagas Cantor, organista AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f.229 Morreu em 1666, sendo colegial de Filosofia.
Fr. Marçal de S. João Organista, (Copista de Livros Corais) AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f.61 (1667 – 1729)
Fr. Leandro de S. Bento Organista AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f. 231 (? -1673)
Fr. António Santa Maria Organista, Harpista.(Colegial de Filosofia) AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f.236 (?- 1686)
Fr. Agostinho de Santa Maria Cantor, Baixão, Fagote AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f.245 (? – 1709)
Fr. Plácido Baptista
Foi Abade do Mosteiro. Músico AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f.257 (? – 1720)
Fr. Gonçalo Conceição Organista AMSB/Baía, Dietário da Vida e Moste dos Monges da Bhaia (? – 1721)
Fr. José do Nascimento (Fr. José Baixão) Cantor, Baixão AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, ff. 268 – 269. (? – 1733)
Fr. Martinho Conceição Cantor AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f. 278 (? – 1739)
Fr. Sebastião da Encarnação Cantor Mor Mestre Capela, Harpista AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f. 281 (? – 1741)
Fr. José de Santa Ana Cantor AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f.289 (? – 1750)
Fr. Miguel dos Anjos Cantor AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f.291 (? – 1752)
Fr. Alberto da Conceição Cantor, Organista AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f.318 (? – 1767)
Fr. Miguel da Conceição
Foi Abade do Mosteiro Cantor AMSB/RJ, Dietário da Vida e Morte dos Monges da Bahia (? – 1768)
Fr. Francisco do Nascimento Cantor e Organista em substituição dos monges faltosos AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f. 320 (? – 1768)
Fr. Manuel do Desterro Cantor AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f.346 (? – 1774)
Fr. Lourenço de Santa Gertrudes Corista
(Copista de Livros Corais) AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f.357 (? – 1780)
Fr. António de Santa Catarina Cantor, organista, Rebeca AMSB/RJ, Dietário, códice 1161, f. 368 (? – 1793)

Ao longo dos tempos o mosteiro foi adquirindo vários órgãos. De acordo com uma prática corrente, os órgãos grandes íam sendo reconstruídos e aumentados, aproveitando-se sempre o órgão já existente. A referência mais antiga sobre o órgão do mosteiro encontra-se no relatório dos Estados relativos aos anos de 1652-1657 e refere-se à compra de peles. As informações contidas quer nos Estados quer no Dietário permitem afirmar que o mosteiro teve pelo menos cinco órgãos de maiores dimensões. Os mesmos documentos fazem também referências a vários órgãos pequenos.

A primeira parte do Dietário do Mosteiro, descrevendo as obras realizadas no tempo do Abade Fr. Tomás da Assunção, que tomou posse em 1688, indica que este Prelado adquiriu um grande órgão. O texto diz o seguinte:
“[…] Todas as obras que fez forão grandes, e muito necessárias, e he justo fazer delas memoria para que não fiquem sepultadas no esquecimento […] Para a imagem do coro mandou fazer hum resplandor de prata, e cortinas roxas: e nele pôz hum Psalterio benedictino, e hum Orgão grande.”

O Abade Fr. Matias da Assunção eleito em 1697 e 1700, adquiriu um pequeno órgão para o mosteiro. Alguns anos mais tarde, Fr. José de Jesus comprou também dois órgãos para o mosteiro, um de pequenas dimensões e outro um grande órgão. O famoso órgão da Coroa, como é designado, foi trazido de Pernambuco pelo seu não menos famoso organeiro, em 1773. O recibo passado por Agostinho Rodrigues Leite, no valor de 180 mil reis, contém a sua assinatura e conserva-se no Arquivo do mosteiro.

Este órgão, cuja caixa ainda hoje existe no coro da Igreja, tinha as trombetas em posição horizontal, tal como os órgãos ibéricos. Os tubos do órgão, colocados, juntamente com os someiros num invólucro de talha, eram em madeira, estanho e chumbo. O instrumento possuía um teclado manual e uma pequena pedaleira original. Ao longo do século XIX foi restaurado por diversas vezes.

Nota Final

Muitos foram os monges, alguns obedecendo ao voto de “Passar o Mar,” outros mesmo sem o terem feito que no Brasil se empenharam em transmitir a sua religião e cultura. De Portugal, partiram vários monges beneditinos, preparados musicalmente para exercerem os ofícios ligados ao serviço musical litúrgico e formarem seus discípulos na Província do Brasil. Da parte da hierarquia da congregação houve sempre a preocupação em enviar para o Brasil monges com preparação musical capazes de assegurar nos mosteiros transatlânticos uma prática musical semelhante à praticada nos restantes mosteiros da Ordem.

Com excepção de Minas Gerais, onde a criação de mosteiros fora proibida, cabendo portanto às Irmandades e Coorporações de Músicos o papel principal no campo da actividade musical religiosa, podemos afirmar que a Ordem beneditina Portugesa deu um contributo significativo para o desenvolvimento da música sacra no Brasil. Como afirmou José Augusto Alegriaos músicos que partiram de Portugal ” viriam a garantir neste país as relações artísticas com o mundo ocidental ao mais alto nível”.

Desde o início da chegada dos missionários ao Brasil que a cultura musical portuguesa penetrou com relativa facilidade nos grupos culturais constituídos por índios e africanos. O elemento europeu foi dominante, mas suficientemente aberto às características étnicas dos povos nativos, situação que levou a uma “mestiçagem cultural-musical”. Para este fenómeno contribuiu o facto das diferentes culturas indígenas estarem impregnadas de música ritual, facilitando a adopção dos cânticos da igreja católica.

Entre estes monges portadores de religião, cultura e arte, está Fr.. Baltasar Pinto, que nasceu em Castro d’Aire, em 1621 e faleceu no Mosteiro de Tibães em 1696, depois de ter estado no Brasil desde 1669. Era Doutorado pela Ordem e tinha conhecimentos em áreas como a Filosofia, Matamática, Náutica e a Música. O relato que escreveu da sua viagem para o Brasil é, segundo Geraldo Coelho Dias, “uma curiosa e científica descrição do que era navegar para o Brasil no século XVII.”

No campo da escultura e da arquitectura monges ilustres deixaram trabalhos admiráveis do barroco, que se podem apreciar nos mosteiros do Rio de Janeiro, Baía e Olinda. Entre estes salientam-se o pintor Fr. Ricardo do Pilar, o arquitecto Fr. Bernardo de S. Bento e Fr. Domingos da Conceição, escultor seiscentista do Rio de Janeiro.

D. Fr. João de Seixas, foi outro dos monges ilustres que honraram a congregação da Província do Brasil. Nasceu no Rio de Janeiro em 1691, e tomou o hábito da congregação no Mosteiro da Baía, em 1713. A sua formação incluiu a gramática, a poesia latina e a música, tendo aprendido a tocar alguns instrumentos.

É sabido que coube aos missionários Jesuítas um papel preponderante na propagação da cultura musical religiosa portuguesa em terras do Brasil. Como afirma Gerard Béhague, “foram os jesuítas, artistas e intelectuais de primeira ordem, os portadores dos valores artísticos mais fundamentais da cultura européia do século XVI.” No entanto, este papel não coube sómente aos missionários da Companhia de Jesus, mas também às Ordens Religiosas de Beneditinos, Dominicanos, Carmelitas e Franciscanos. Na opinião de vários autores brasileiros, apesar do mérito dos jesuítas no campo da música, não houve no Brasil missionários jesuítas com sólida formação musical, tal como aconteceu com a colonização espanholaem Santa Fé, Buenos Aires e outros lugares. No caso da Congregação Beneditina houve, no entanto, essa preocupação, sendo enviados para o Brasil diversos monges que, com formação musical apropriada e adquirida em Portugal, exerceram funções de Cantores e Instrumentistas nos mosteiros de além mar.

Salienta-se ainda o facto de vários monges-músicos terem desempenhado as funções de Abade, Provincial e outras funções da hierarquia, o que permitiu um maior zelo no domínio da prática musical litúrgica. Facto também evidente é o contributo dos beneditinos para a criação e desenvolvimento da arte organística no Brasil e a arte de construção deste instrumento.

Não sendo possível hoje conhecermos todos os monges que para exercerem a sua prenda de canto ou órgão ou outro instrumento, foram enviados para o Brasil, fiquemos na nossa memória com um certo Fr. Bento, que em meados do século XVII tocava charamelinha quando se cantava o Te Deum nas Matinas no Mosteiro da Baía. Fazia-o de tal forma que até os monges de S. Francisco, assim que acabavam de rezar as suas Matinas, vinham para as janelas do seu convento ouvir a charamelinha de Fr. Bento.

http://www.revista.akademie-brasil-europa.org/CM65-03.htm