Primeiro Mosteiro beneditino das Américas tem muito a ensinar

A instituição religiosa baiana enfrentou mudanças radicais entre 1994 e 2004, aproximando-se do mundo exterior. Foi permeável e, ao mesmo tempo, manteve sua orientação espiritual. Tamanha resiliência organizacional, definida como a capacidade de adaptar-se sem perder a essência, ou de combinar tradição e renovação, tem muito que ensinar às empresas.

Por Mércya Rose de Oliveira Carvalho e Tânia Maria D. Fischer

Você já ouviu falar de “instituições totais”? Segundo Erving Goffman, “toda instituição conquista parte do tempo e do interesse de seus participantes e lhes dá algo de um mundo; assim, toda instituição tende ao fechamento”. De modo simplista, um grau de fechamento, ou isolamento, elevado é o que a transforma em uma instituição total. O ingresso em uma instituição total implica a não participação plena no mundo; refere-se ao afastamento de algumas oportunidades de comportamento e ao fracasso para acompanhar mudanças sociais recentes no mundo exterior.

Assim, as instituições totais estariam na contramão da organização básica da sociedade moderna, na qual o indivíduo tende a dormir, brincar e trabalhar em diferentes lugares sem um plano racional único. As instituições totais típicas são os presídios, asilos de idosos, orfanatos, sanatórios, quartéis militares, conventos e mosteiros, onde as pessoas vivem em clausura, entre outras. Mas, segundo Goffman, há uma função presente em todas as instituições totais: são locais onde os indivíduos trabalham, compartilhando a rotina cotidiana, e onde a quase totalidade da experiência é submetida a controle. Por essa descrição, até a organização de negócios moderna pode ser vista como uma instituição total.

O que acontece quando uma instituição total é confrontada com a necessidade de adaptar-se a mudanças externas? Ela muda radicalmente e perde a essência?

Um pouco de história da Ordem Beneditina

A Regra de São Bento, que fundamentou a Ordem Beneditina no século 6º, nasceu com um desejo de, ao mesmo tempo, ter estabilidade secularizadora e ser instituição. Teólogos e historiadores laicos vêem a influência beneditina como decisiva para a história do cristianismo e como marco civilizatório da Europa ocidental. A regra surgiu em uma Roma sem vigor e incapaz de oferecer aos bárbaros que a invadiam a resistência militar de um povo disciplinado ou a resistência civilizadora de um povo culto estruturado. Assim, atuou na construção da Europa atraindo o nômade para a condição monástica. O mosteiro constituiu o centro e a estabilidade representou um voto essencial dos monges. Em torno dos mosteiros europeus, floresceram os centros produtivos. Ao longo dos séculos medievais, a obra civilizatória beneditina sofreu diversos recuos e vicissitudes.

No século 10º, a Reforma de Cluny buscou se impor à ausência de disciplina e de autoridade superior nos mosteiros europeus. Acúmulo de bens temporais, aridez espiritual e circunstâncias diversas levaram ao surgimento da figura do abade laico. Em 910, a ordem monástica renovou-se com a criação da Abadia de Cluny, na França, sob proteção direta do papa e distante de qualquer poder temporal. Cluny proporcionou o resgate da Regra do século 6º e do que ficou conhecido como “uma nova cultura da alma sob um ascetismo austero que suspendia a prática de um métier e os estudos eruditos. Como movimento secular, chegou a manter 1,8 mil mosteiros religiosos e laicos sob sua jurisdição e obediência legal em um processo de concentração inédito na Europa.

Então, apareceu o movimento cisterciense, como reação à centralização e à riqueza de Cluny. No século 12, formaram-se as primeiras corporações de Arts et Métiers, contando com a habilidade manual e artística dos beneditinos e com o domínio destes de princípios de aproveitamento do conhecimento, tais como manuais de métodos e programas. Por essa razão, a Ordem Beneditina é reconhecida por alguns como uma das precursoras da organização moderna. O século 13, no entanto, foi marcado por novo recuo: o radical movimento reformador trapista, que pregava a estrita observância da regra o isolamento e o silêncio quase absoluto foi definido em 1664 e durou até o século seguinte, quando a Revolução Francesa suprimiu as ordens religiosas.

Pode-se dizer que o mosteiro, a Regra de São Bento e o monge praticamente explicam a Idade Média para o Ocidente.

O mosteiro como arquitetura medieval é o monumento da ordem legitimada pelos poderes político, religioso e econômico dominantes.

A regra do século 6º é rica em símbolos e práticas que expressam os valores de uma ordem monástica sólida e integrada. Se o “Opus Dei” é a prioridade espiritual do mosteiro cuja liturgia se inicia com o amanhecer do dia, a “Lectio Divina” dá origem à tradição de erudição da ordem e o sentido de pesquisa. O preceito de hospitalidade também é importante: é preciso receber os que batem à porta. A regra possui a rigidez necessária para fundar uma instituição e é detalhista em restrições e punições. Entretanto, guarda a plasticidade de ser norma e não regulamento, o que explica o fato de cada abadia imprimir maior ou menor severidade a seu conteúdo a vida beneditina se estrutura sobre três pilares: a oração (ora), o estudo (legere) e o trabalho (labora).

O monge é o centro da estabilidade do mosteiro, o solitário (o não casado) que forma um com Deus. Como estruturador de uma ordem econômica e social, pode ser considerado um mito medieval sempre a confirmar a organização pré-moderna com seu ethos teológico, assim como o manager confirma a organização moderna com seu ethos econômico.

Em termos seculares, pode-se dizer que acima da ordem de produção que floresceu no interior dos domínios das abadias tem-se somente o desenvolvimento da cultura que vai imprimir o impulso civilizatório do Ocidente. A erudição se inicia com os estudos eclesiásticos, mas avança com os laicos. Em contraposição à idéia do claustro, o mosteiro é freqüentemente visto pelos monges como local de acesso ao lúdico e ao conhecimento privilegiado. Os estudos teológicos e filosóficos, as artes ilustradas, a música e as letras clássicas, entre outras erudições, fazem parte da rotina dos mosteiros. Em sua grande maioria, os beneditinos são oriundos de famílias abastadas, pertencentes a uma elite econômica ou intelectual, ou a ambas.

Um pouco de história do Mosteiro de São Bento

Fundado por monges portugueses na Páscoa de 1582, o Mosteiro de São Bento da cidade de Salvador, Bahia, é a primeira construção dos beneditinos fora da Europa. A Ordem Beneditina, que veio para a colônia a pedido da população local, alternou momentos de maior ou menor abertura com a cidade, o que decorreu, quase sempre, das particularidades de gestão de cada abadia e de contingências históricas.

Para a maioria da população de Salvador, o mosteiro é um belo monumento do passado ou uma forma espacial segregadora em detrimento do espaço público. Contrariando essa primeira impressão, contudo, é possível identificar na memória afetiva da cidade histórias relacionadas a ele que são, no mínimo, contraditórias para  uma organização que teria como condição de estabilidade ser uma instituição total, conceito abordado no início deste artigo.

Por exemplo, para alguns monges beneditinos da Bahia, foi possível estudar conteúdos tão diversos quanto a Teologia da Libertação, São Tomás de Aquino, Platão, Aristóteles ou o Talmude, tudo isso com desenvoltura e erudição raras. Sabe-se que ali se esconderam perseguidos de várias épocas, como abolicionistas ilustres, maçons históricos etc. Pode-se dizer, então, que, entre a tradição e a renovação, o mosteiro da Bahia tem uma história secular de atuação além do espaço intramuros.

Na década de 1990, a instituição viveu uma situação-limite: teve de repensar a gestão de seus recursos, quando a economia interna da ordem estava prioritariamente baseada nos ganhos com a inflação pelo investimento do aluguel dos imóveis no mercado financeiro. Com o Plano Real e fim da inflação, o mosteiro passou por dificuldades concretas para sustentar seus projetos sociais e seu patrimônio cultural. Nessa época, o empresário baiano Norberto Odebrecht foi convidado pelo abade, Dom Timóteo Amoroso, a consertar o teto da Basílica de São Bento. Odebrecht era amigo pessoal de Dom Timóteo e tinha relação antiga com o mosteiro, desde os tempos da Segunda Guerra.

Dom Gregório Paixão, que hoje é o condutor da ação cultural do Mosteiro de São Bento, relembra um pouco da história: “Dom Timóteo era um mineiro, magrinho, piadista e antenado. Foi meu mestre noviço, […] falava de Platão e Aristóteles como de velhos amigos. Acho que um dos homens mais inteligentes que conheci. Conhecia oito idiomas. Lia fluentemente o grego, o latim, o hebraico e o aramaico. Nos anos 70, foi um pregador constante contra o regime de 64 […], um pregador da Teologia da Libertação. Escondeu muita gente aqui no mosteiro. Nos anos 80, promoveu o ecumenismo religioso. Seu carisma atraiu muita gente, inclusive eu. Em 94, chamou o Norberto Odebrecht para consertar o teto da basílica e lhe foi proposto o projeto. Ele aceitou naturalmente a interlocução com todos os setores da sociedade. Achou o projeto meio grandioso, mas me indicou para acompanhar tudo. Eu era meio agitado, eu sou agitado… Ele faleceu logo depois”.

A mudança do mosteiro

Em 1994, o mosteiro lançou o Projeto São Bento de Cultura, o que marcou uma interação inédita da Ordem Beneditina com o ambiente externo a cidade de Salvador e sua população. Idealizado por Norberto Odebrecht, o projeto previu 11 unidades culturais ligadas e/ou gerenciadas pelo mosteiro, entre faculdades, bibliotecas, museus e espaços para concertos. Em 2004, já funcionavam, por exemplo, o Museu do Livro Raro e a Faculdade São Bento, com os cursos de filosofia e teologia. Os responsáveis pela continuidade do projeto são Dom Emanuel d’Able do Amaral atual abade e investido no cargo em 2004, Dom Gregório Paixão antecessor de Dom Emanuel como abade e diretor da Faculdade São Bento e Odebrecht.

O Projeto São Bento de Cultura foi resultado de imposições tanto do ambiente institucional como do plano interno. O relato de Dom Gregório explica muito sobre as mudanças vivenciadas pelo mosteiro da Bahia. Nos anos 70, Dom Timóteo protegeu os perseguidos pela ditadura militar, o que representava, ao mesmo tempo,cumprir o preceito de hospitalidade da Regra de São Bento, definir uma posição política clara contra o regime de força e reafirmar o papel histórico do mosteiro como espaço de resistência na cidade. Isso o conduziu ao estudo da Teologia da Libertação. Para ele, era Deus que obrigava o homem a lutar pela igualdade social não somente a tirar o homem da favela, mas a tirar a favela de dentro do homem; a miséria era pecado o homem escravizando o próprio homem era pecado, o homem se deixando escravizar era pecado. Ou seja, centrado na plasticidade da regra, Dom Timóteo enxergava a contradição entre ação e contemplação e promovia uma renovação.

Com a morte de Dom Timóteo, Dom Gregório Paixão assumiu a administração da ordem, aos 27 anos de idade. Era bastante jovem para o cargo, mas foi um dos poucos a permanecer, em um momento em que muitos deixaram o mosteiro demonstrando pouca vocação para a vida monástica. Com o Projeto São Bento, novos monges ingressaram na ordem e seu perfil mudou, convergindo com a nova dinâmica: hoje são mais jovens, mais cultos, gostam do contato com os artistas. O novo abade, Dom Emanuel d’Able Amaral, psicólogo de formação, também é reflexo disso. “Passei quase toda minha infância entre artistas. Meu pai e meu tio eram os proprietários do Hotel Santa Tereza, no bairro boêmio de Santa Teresa do Rio. Ali se hospedava uma infinidade de artistas. Estava sempre cercado de artistas. Estou acostumado e me sinto muito à vontade com toda essa movimentação”, declara Dom Emanuel.

O advento da gestão

Os principais vetores da Ordem Beneditina pré-moderna para compreender e agir no mundo foram a tradição e o divino. A Regra de São Bento, além de orientar a conduta espiritual, era uma espécie de carta de management. Em 73 regras, ela regulamentava as atividades dos mosteiros, as relações com o exterior, linhas de hierarquia no interior de cada mosteiro.

Sem perder o sentido da regra, o mosteiro da Bahia vem se adaptando ao longo dos séculos para garantir sustentação. Uma das adaptações foi a incorporação da gestão, entendida como uma invenção social da modernidade para organizar qualquer instituição com base em critérios de eficiência e racionalização, o que aconteceu com o Projeto São Bento de Cultura.

A primeira grande mudança se verificou na jornada e natureza das atividades. O projeto reorganizou as atividades dos monges ao acomodar atividades de gestão ao preceito fundamental do labora. As novas atividades dos monges não os distanciam completamente do labora manual, que tem um significado simbólico e recorrente da humildade beneditina, mas transforma efetivamente sua jornada cotidiana. No passado, os monges que não ocupavam espaço na hierarquia se concentravam nos trabalhos manuais. Com o Projeto São Bento, os jovens monges estão alocados nas unidades, conduzindo sozinhos ou com trabalhadores “leigos” as diversas atividades de gestão o termo “leigo” é como são designados na “gíria monástica” aqueles que não pertencem à ordem.

O abade atual assume a necessidade de descentralização procurando designar sempre um monge para acompanhar os projetos. Observa que, embora procure acompanhar os monges na condução dos projetos culturais e sociais, é fundamental deixar que eles administrem e lhe comuniquem o resultado.

Em seu arranjo físico, o Mosteiro de São Bento convive também com tecnologias modernas que fornecem aos beneditinos novas mídias e espaços de comunicação. O acesso à informação é contínuo. Ao final de cada jornada, assistem a telejornais e/ou lêem revistas e jornais. A internet garante a comunicação on-line entre as diversas unidades do projeto. Se, na década de 1990, a ordem tinha um único computador, hoje, todas suas unidades estão interligadas.

O projeto gerou uma segunda mudança, simbólica e, portanto, mais profunda: o claustro foi fisicamente reduzido. De muitas maneiras, os beneditinos da Bahia se encontram em contato ainda mais direto com seu espaço social. A imagem de uma instituição fechada projetada sobre a cidade se transformou de forma significativa.

Por fim, o novo “organizar” já está presente tanto na narrativa de Dom Emanuel como na de Dom Gregório. Afirmações que denotam mais da organização moderna que da pré-moderna já aparecem naturalmente, como, por exemplo, a necessidade de a ordem ganhar eficiência operacional a necessidade de confiar no modelo descentralizado de gestão para o bom andamento das diversas unidades.

A fórmula da resiliência

Como essa nova imagem retorna aos monges, mantendo ou transformando o sentido da Regra de São Bento, é uma dimensão que possivelmente exigirá mais tempo para ser sentida pela comunidade do mosteiro. Uma população muito jovem facilita a mudança. A racionalização e a busca da eficiência chega à ordem da Bahia como uma modernidade perfeitamente aceitável e que pode conviver com o espiritual. O sujeito, outro vetor da modernidade, é filtrado pelo divino e por referência constante a uma tradição da ordem a obediência ao voto.

Será que o Projeto São Bento de Cultura representou uma ruptura definitiva com a tradição? Desde seus primórdios, ficava claro que a Ordem Beneditina era contemplativa, mas não só. A erudição refletia o desejo de intervir no mundo, o que a fazia completamente diferente das ordens do período helênico. Ela sempre sofreu forte influência do pensamento de Santo Agostinho, que transfere as questões do espaço de fora (contemplação) para o espaço de dentro (do sujeito) e, dessa maneira, muda o espaço de solução.

Será que o Mosteiro de São Bento, menos enclausurador e mais próximo do mundo exterior, perdeu sua essência? Conforme o relato de Dom Gregório, a idéia do claustro tem uma conotação diversa do sentido comum apreendido. “Claustro é se colocar em situação de estar só com Deus, não há falta de liberdade. A idéia central do monge não é do homem em claustro, mas do homem centrado para construir a comunidade.” Pode-se entender centro como estabilidade, segundo ele. Em outras palavras, a feição atual do Mosteiro de São Bento e sua dinâmica interna, na leitura de Dom Gregório, são parte de sua tradição; espiritualidade e gestão não entram em contradição.

Se, a princípio, a modernidade ideal afastaria o homem moderno de qualquer subordinação ao divino, na Ordem Beneditina da Bahia, o discurso e as práticas do divino pretendem ser fundadores e renovadores da ação e reflexão do sujeito. Ou seja, o Mosteiro de São Bento está dando uma grande lição às organizações sobre como adaptar-se sem perder a estabilidade.  

Saiba mais sobre o estudo

O delineamento do estudo é de caráter qualitativo e se valeu do método de relato oral, de história de vida e de análise documental. A pesquisa resgatou algumas das ações da atual abadia a fim de articular instâncias institucionais, explicitar laços sociais que compõem suas afiliações de elite e imprimir novos modelos de gestão interna e atuação na cidade. Teve como ponto de partida a seguinte questão: “Quanto da tradição beneditina instituição total do século 6º define o mosteiro contemporâneo?”.

Para este artigo, os dados transcritos foram recortados para análise, destacando-se, sobretudo, os conteúdos transversais ao processo de transição e mudanças ocorridas na abadia de Salvador, tais como: a ordem e relações com escalas de poder; a percepção da hierarquia atual sobre líderes que a antecederam; a influência subjetiva da espiritualidade e contrastes com a ordem no plano material; história pessoal e opção pela vida monástica; a condição beneditina, o claustro e a feição atual do Mosteiro de São Bento da Bahia; e a dinâmica de gestão interna dos dias de hoje. Esses conteúdos contribuem para a categorização do mosteiro como instituição e compõem com outros dados (recortes de jornais, documentos históricos) um retrato da trajetória da ordem.

Este trabalho revisita o mosteiro muito menos em sua condição de ordem religiosa e muita mais em sua condição de organização secular. Sobressai, portanto, sua capacidade de interagir com seu ambiente institucional, de assimilar novos formatos organizacionais e de conduzir ações convergentes com a sobrevivência da ordem religiosa através dos tempos. De alguma forma, esse movimento secular em direção ao mundo exterior definiu a condição da ordem monástica como “instituição total” singular.

Doutora em administração, Tânia Maria Diederichs Fischer é professora do núcleo de pós-graduação da escola de administração da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisadora de seu Núcleo de Estudos sobre Poder e Organizações Locais (Nepol). Mércya Rose de Oliveira Carvalho fez mestrado na UFBA sob orientação de Tânia Fischer.