A Administracão nos Mosteiros Beneditinos

Por Dom Abade Matthias Tolentino Braga, OSB

Dom Matthias Tolentino Braga - Abade do Mosteiro de São Bento de São Paulo

Dom Abade Mathias Tolentino Braga, OSB é Engenheiro formado pelo ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), em São José dos Campos, município paulista. Faz parte da comunidade monástica do Mosteiro de São Bento de São Paulo há 17 anos, sendo que há cinco anos é abade do Mosteiro. Lidera 42 monges em uma das igrejas de maior importância na capital paulista: a Basílica de Nossa Senhora da Assunção do Mosteiro de São Bento. Além disso, administra o Colégio e a Faculdade de São Bento (dois dos mais tradicionais estabelecimentos de ensino de São Paulo), a famosa padaria do Mosteiro, e mais dois mosteiros, os de Sorocaba e Jundiaí, ambas cidades do interior de São Paulo. Assim, Dom Mathias partilha sua experiência de vida, trabalho e espiritualidade.

Embora saibamos que São Bento, o Patrono dos Monges do Ocidente e da Europa, jamais tenha dito que a vida do monge seja dividida pelo Ora et Labora, como isso foi entrando na vida dos mosteiros?

“Ora et Labora!” Muitos conhecem o lema dos monges beneditinos: “Oração e Trabalho”. São Bento ao escrever a Santa Regra entende que a vida do monge seja a oração e o trabalho, uma vez que, a ociosidade é inimiga da alma. Assim, no mosteiro são divididas diversas funções para atender as necessidades da comunidade e os monges possam viver em harmonia. Desse modo, em certas horas do dia, devem ocupar-se os monges com o trabalho manual, e em outras horas com a leitura espiritual.

O Mosteiro de São Bento de São Paulo tem a preocupação de seguir com afinco e fidelidade a regra.

 A administração de um Mosteiro é exemplo para as dioceses e para as paróquias?

O Mosteiro tem sua administração própria e ela é fundamental para que todas as ações possam acontecer de forma satisfatória para a comunidade, para nossos mantenedores, colaboradores e patrocinadores.

Quando nos referimos ao Mosteiro de São Bento, estamos falando de um complexo de atividades que envolvem desde as celebrações de missas, ofícios: casamentos e batismos, consagrações, além do funcionamento da Faculdade de Filosofia, Teologia e do Colégio de São Bento, curso regular e integral.

Em termos práticos, toda essa administração é feita por uma equipe capacitada pelos monges e também por funcionários que são contratados para nos auxiliar nessa tarefa.

São inúmeras as atividades e recursos que exigem ferramentas para o bom funcionamento, pois envolvem processos e muitas pessoas. Só o Mosteiro possui um portfolio de aproximadamente 100 mil livros em sua biblioteca estando incluídas raridades e exclusividades e muitos deles são consultados e lidos, além das doações que recebemos que passam por um processo de cadastramento e classificação nos padrões bibliotecários seculares.

Temos também a conservação do Mosteiro que é um patrimônio histórico tombado. Ele exige manutenções cuja mão de obra é especializada. Recentemente nossa Capela foi restaurada. É uma magnífica obra de arte no estilo da Escola de Beuron.

Todo esse conjunto de instalações exige uma administração criteriosa, cuidadosa e eficiente. Elas têm a finalidade de ensinar outras gerações futuras, assim como nos foi legado.

 Muitas instituições religiosas ainda procuram adequar instrumentos científicos para dinamizar e atualizar a administração interna e externa. Como o Mosteiro identifica os procedimentos estratégicos para uma gestão eficaz?   

Além dos eventos religiosos, o Mosteiro administra a Faculdade de Filosofia com os cursos de Licenciatura e Mestrado, Cursos Livres, Seminários de Filosofia, Cafés Filosóficos, Curso de Teologia, Línguas, Teatro, Recitais, Canto Gregoriano, Padaria e Loja.

Desde a sua fundação, o Mosteiro sempre esteve à frente de seu tempo trazendo inovações, educando com alta performance o que envolve não somente professores, mas alunos. Há uma equipe de apoio possibilitando todos esses acontecimentos. Muito antes do próprio termo técnico tão utilizado hoje por todos nós: a excelência em qualidade, o Mosteiro já o perseguia acirradamente. 

No início de sua fundação, o objetivo era o de ensinar utilizando os melhores recursos da época, tanto nas áreas do conhecimento quanto na aquisição de recursos do material científico, como por exemplo, a montagem do laboratório, os equipamentos e acessórios de manipulação, a piscina, as atividades esportivas, a música, o teatro, a arte. Tudo era parte de um objetivo maior, o de humanizar ainda mais oferecendo aos que aqui chegavam para estudar o melhor da educação brasileira. O Colégio foi fundado em 1903 e a Faculdade, a primeira de Filosofia do Brasil, em 1908.

Para que todo o mecanismo permaneça adequadamente, contamos com a ajuda de profissionais de diversos segmentos de conhecimento, tecnologia da informação, recursos técnicos e de estratégia para a boa gestão. Todos estão envolvidos em fazer da melhor maneira possível visando o bem comum. 

O marketing é empregado para compreender, criar, comunicar e prover valor. Nesse sentido, como o Mosteiro vem aplicando técnicas em marketing para divulgar e inovar seu trabalho?

Por ser o marketing um dos instrumentos da administração voltado para produto e serviço nos utilizamos dele, em nosso dia a dia. Da mesma forma, a estratégia integra os vários sentidos e forças das ações em seus determinados fins. Em nosso caso, por sermos uma entidade religiosa, cristã, zelamos, sobretudo pelos valores cristãos. Daí o nosso cuidado ser redobrado, pois o que queremos transmitir por meio dessas ações, o valor da fé cristã desdobrado em seus diversos sentidos e áreas de abrangência.

Nossas habilidades, conhecimento e talento aplicam-se à estratégia que foi desde o início, nos primeiros anos do século XIX, o de gerar humanidade, amor, fé e cidadania com base nos valores éticos e na fé cristã. Com essa visão estratégica, foram fundados o Hospital Santa Catarina e a PUC/SP.

É dessa forma que as ações estratégias vão se desdobrando em ações menores proporcionalmente aos grupos que as recebem até chegarem às ações onde a comunidade é atingida para que ela também usufrua.

Nosso curso de Teologia tem atraído não somente os monges e religiosos do Brasil, mas executivos de diferentes áreas de atuação, que querem adquirir maior conhecimento de Deus e de como vivenciar esses conhecimentos. São essas novas possibilidades que estamos viabilizando estrategicamente para muitos. Em nosso curso de Filosofia, nossos advogados, artistas, professores, juristas, executivos têm a oportunidade de, pelo fato de estudarem Platão, Kant, Santo Tomás de Aquino, Santo Agostinho, entre outros, apropriarem-se dos ensinamentos clássicos da humanidade. Temas especiais como Lógica Jurídica, Latim, são cursos ministrados por professores vocacionados e de excelente formação intelectual com valores cristãos.

No ano de 1999, o Mosteiro passou a oferecer ao público bolos, pães, geleias, biscoitos, cujas receitas são seculares, e estavam guardadas no arquivo da abadia. Tais iguarias já alimentaram até o Papa Bento XVI, quando de sua visita ao Mosteiro em Maio de 2007.

As receitas resgatadas do arquivo do Mosteiro têm origem europeia e pouca adição de açúcar. São bolos macios como o dos Monges, que combina ameixa, damasco, vinho canônico (utilizado nas missas) e açúcar mascavo, ou pães como o São Bento, com base de mandioquinha. Vem do Século XVIII a receita do Santa Escolástica, um bolo suíço com nozes, maçã e canela.

Merece atenção especial Benedictus, o pão de mel, com toque de geleia de damasco, o Bolo Dom Bernardo, receita francesa preparada nas festas litúrgicas à base de café, chocolate, conhaque, nozes, pêssego e gengibre, entre outras.

Nossa loja vem para trazer um deleite gourmet ao sabor das receitas beneditinas e se expande para que seja facilitado a outras pessoas o acesso aos mesmos produtos.

É assim, entre outras ações, que administramos produzindo valor à comunidade, valor humano e valor cristão de maneira a acrescentar vida à existência e atingir o semelhante.

Deixe uma mensagem para nossos leitores.

Em tempos não tão fáceis como os atuais, quando assistimos guerras, corrupções das mais diversas, dentre tantos outros males, confio piamente na misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nesse sentido, ponho em relevo a esperança do retorno salvífico de Cristo. É esta esperança que devemos ter. Cristo é a luz que ilumina este mundo de trevas. É este Cristo Jesus que apresento a todos que estão em volta do Mosteiro. Administramos os bens para Deus. O próprio mosteiro fala por si. Ele é mensagem do próprio Deus.

Deixo, portanto, minha Benção abacial a todos! + Dom Mathias Tolentino Braga, OSB.

Entrevista concedida a Revista Paróquias e Casas Religiosas