Biblioteca do Mosteiro de São Bento guarda no acervo livros raros, como incunábulo de 1496

Diário do Comércio –  14 Junho 2011 – Ivan Ventura

Um tesouro do conhecimento humano é guardado com extremo cuidado no interior da clausura (confinamento) dos monges beneditinos da Capital. Trata-se da biblioteca do Mosteiro de São Bento, no Centro histórico paulistano, considerada pelos especialistas a mais antiga de São Paulo, com mais de quatro séculos de existência, e que reúne um acervo acima de 100 mil livros – a maioria relacionados à sociologia e à filosofia, além de farta documentação sobre a cidade de São Paulo. Do acervo, um total de 532 livros foram produzidos entre os séculos 15 e 17.

Fundada com o mosteiro no ano de 1598, a biblioteca é privada, usada pelos monges, além de professores e alunos da faculdade e do colégio São Bento. No entanto, frequentemente a administração do mosteiro abre as portas do local para estudantes e pesquisadores de outras instituições.

A biblioteca é dividida em duas salas. A primeira delas apresenta uma aparência

Antifonal do século XVIII: outra raridade da biblioteca / Leandro Moraes/LUZ

simples, bem comum para os padrões atuais. A surpresa está em uma sala toda em madeira, ao lado, construída no início do século passado e bem aos moldes de um mosteiro retratado no filme “O Nome da Rosa”, baseado em romance escrito pelo italiano Humberto Eco.

Incunábulo – A comparação com essa obra literária não se resume à imponência da sala toda amadeirada. Os livros com formatos incomuns, pesados, cheios de ornamentos na capa ajudam a compor o cenário do local,  em especial seis deles conhecidos como incunábulos (livros impressos nos primórdios da impressa, entre 1455, ano provável da impressão da Bíblia de Gutemberg, até 1500).

Entre os livros incunábulos, a maioria foi escrita em latim e tem como temática central a religião católica apostólica romana. Na impressão arcaica, há em comum a utilização da fonte gótica nas letras, algo muito comum naquele tempo.

Entre os livros incunábulos,a maioria foi escrita em latim. / Leandro Moraes/LUZ

Dentre as obras, a mais antiga é o Novo Testamento da Bíblia em latim, datada de 1496. Na década de 70 passada, ela foi restaurada e suas páginas são pouco visíveis a olho nu. A capa se perdeu com o tempo. Outra obra rara, religiosa e importante para o mosteiro é a reunião de sermões de um padre húngaro chamado Peibart de Temesluan, datada do ano de 1500.

“O livro já esteve no Index Librorum Prohibitorum (índice de obras não aconselhadas pela Igreja Católica). Naquele tempo, a Igreja não autorizava obras católicas que não fossem em latim”, explicou João Baptista Barbosa, monge e um dos responsáveis pela manutenção da biblioteca.

O acervo ainda guarda uma “Bíblia pagã” escrita em alemão, inspirada na tradução de Martinho Lutero e que também esteve na famosa lista negra da Igreja Católica por quase quatro séculos. Ela é datada de 1556 e revela uma importante característica do Livro Sagrado Católico daquele tempo.

“Naquele tempo, os livros possuíam figuras com passagens bíblicas. Na época, havia muitos analfabetos. A figura ajudava no processo de catequização”, disse Barbosa.

Medicina – Dentre as obras raras do acervo, o destaque é o primeiro livro médico sobre o Brasil, o chamado Historia Naturalis Brasiliae (História Natural do Brasil), escrito em latim pelo holandês Guilielmi Pisonis, em 1648. A obra é dedicada ao famoso Conde Maurício de Nassau, governador da colônia holandesa no Nordeste, entre 1637 a 1644, e um dos financiadores da obra de Pisonis.

Uma das curiosidades retratadas no livro é a descrição de algumas doenças e sintomas transmitidas por animais e plantas da costa do Nordeste brasileiro. Ocorre que parte da flora e da fauna retratada no livro já não existe e, na obra, podem ser observadas em figuras em preto e branco.

Do rol de livros raros não religiosos, o mosteiro ainda guarda o livro denominado “Gramática Egípcia”, de 1836, e que foi escrito pelo famoso linguista francês Champollion e que levou à decifração dos hieróglifos egípcios. “É a primeira edição da famosa obra e uma das mais raras do mosteiro”, disse o monge Barbosa.

Documentos – Nas prateleiras, bem guardados, há também importantes

Escadaria em direção ao mezanino: local de obras antigas e raras / Fotos de Leandro Moraes/LUZ

documentos e papiros que ajudam a contar a história de São Paulo. Um deles é o documento de doação do terreno onde atualmente está localizado o mosteiro. A área chegava à Ladeira Porto Geral, mas hoje não pertence mais ao mosteiro.

Atualmente, o acervo cresce na ordem de quatro a dez livros por dia. “Aceitamos doações e compramos os nossos livros. Claro, não aceitamos todos os livros, pois eles precisam se encaixar no perfil do nosso acervo. Por séculos, guardamos e protegemos o conhecimento adquirido pelo homem ao longo dos séculos”, disse o monge Barbosa.