Desde 2007, interesse de orientais pela tradicional escola paulistana tem crescido; quase 50% dos 220 alunos tem ascendência chinesa

Alexandre Gonçalves – O Estado de S.Paulo

D. Camilo Dantas explica para um grupo de crianças o significado das pinturas da Igreja de São Bento. Alguns dos ouvintes estão descobrindo o Ocidente agora. Seus pais vieram da China e escolheram uma das escolas paulistanas mais tradicionais – o Colégio de São Bento – para integrar os filhos à realidade brasileira.

Em 2007, d. Matthias Tolentino Braga, abade do mosteiro, recebeu 17 crianças chinesas que ainda não sabiam português. Montou uma estrutura para vencer a barreira do idioma e acolher as famílias e seus filhos. A experiência deu certo e a procura aumentou. Hoje, quase metade dos 220 alunos tem ascendência chinesa.

Cultura: Crianças fazem visita monitorada à biblioteca central do Mosteiro de São Bento - by Clayton de Souza/AE

Padre Lucas Xiao, um chinês que vive no Brasil há 14 anos, deixou claro desde o início que a comunidade de imigrantes não deveria formar um grupo à parte no colégio. Sabia bem que o principal interesse dos pais é promover a integração dos filhos. D. Matthias pediu sua ajuda para atender os recém-chegados.

No início, o abade cogitou, por exemplo, uma adaptação do cardápio do colégio à culinária chinesa. Padre Lucas aconselhou: as crianças deveriam se acostumar ao brasileiríssimo arroz com feijão. Também sugeriu uma regra para os alunos não falarem mandarim durante as aulas – com exceção dos cursos extracurriculares para ensino do idioma chinês.

No próximo dia 18, haverá uma festa junina. Alguém propôs que as garotas chinesas utilizassem roupas típicas do Oriente. Mas Juliana Wu, coordenadora do departamento chinês do colégio, discordou. Seria melhor que vestissem a indumentária caipira para se familiarizar com os costumes do País. A ideia vingou e afixaram cartazes nos corredores com desenhos das combinações mais comuns para a ocasião: camisa xadrez, vestido, chapéu de palha…

Identidade. Tanto cuidado para evitar “panelinhas” não significa desprezo pela identidade chinesa. “Nossa cultura tem 5 mil anos”, recorda Juliana, não sem uma ponta de orgulho. Na mesma festa junina, haverá espaço para estandes de dobradura, pintura típica chinesa e jian zhi – recorte artístico de papel. “Fez muito sucesso com os alunos no ano passado”, afirma a coordenadora do departamento chinês.

O colégio funciona em tempo integral. No período da manhã, são oferecidos cursos regulares. À tarde, as crianças podem frequentar disciplinas optativas como balé, piano, jazz, línguas… Mandarim faz sucesso, não só entre os orientais.

Angel Plaza, por exemplo, está no 5.º ano e gosta muito das aulas. “Quero conversar com meus amigos”, justifica. Filho de espanhol e portuguesa, fala com gosto das suas raízes judaicas. Reginaldo Miranda, do 8.º ano, pensa no futuro. “Um sexto das pessoas no mundo fala mandarim: é mais de 1 bilhão de pessoas”, pondera.

A professora de música Simone Strublic Kimizuka apresentava o universo de Dorival Caymmi – povoado de pescadores e brisas – às crianças, quando a classe perguntou se poderia aprender uma música tradicional chinesa. A professora concordou, “desde que os próprios alunos arrumassem a partitura”. Na aula seguinte, uma garota “loirinha, sem nenhum traço oriental” trouxe a música. As crianças chinesas traduziram a letra e todos cantaram juntos.

“Naturalmente, as diferenças culturais trazem desafios imensos”, aponta Felipe Nery, um dos dois diretores do colégio e responsável por dirimir conflitos cotidianos. “E não só linguísticos. Mas o encanto também está aí.” D. Matthias concorda e afirma que as diversas culturas não podem ficar “dentro de redomas”. Ele acredita que filhos de imigrantes costumam testemunhar um grande desejo de crescer e se desenvolver. “E isso pode contagiar outros alunos, o que é ótimo.”

De fato, Juliana costuma conversar com pais chineses para aplacar suas exigências relacionadas ao estudo dos filhos, normalmente muito altas. “Costumo dizer: “Você não vê como ele está melhorando? Você tem motivos para ficar contente””, argumenta.

Governo. Visitas de autoridades diplomáticas chinesas são frequentes e elas não costumam economizar manifestações de gratidão. “Parte do material que usamos para ensinar mandarim é doado pelo governo da China”, afirma d. Matthias. “Recebemos o título oficial de escola-modelo para ensino do idioma.”

O colégio oferece cursos de português para estrangeiros não só aos alunos, mas também para adultos interessados. O brasileiro Luiz Henrique Barretto viveu um ano e meio em Xangai e hoje ensina português para os estudantes chineses no São Bento. “Falo em mandarim até que tenham confiança para utilizar só o português”, afirma.

O abade do mosteiro vê com clareza a importância do trabalho que realiza para a Igreja Católica. “Nos últimos anos, a Santa Sé tem tentado reatar relações diplomáticas com a China”, recorda d. Matthias. “Sinto-me privilegiado: aqui, é a China que vem ao nosso encontro.”

PARA LEMBRAR

Hospitalidade é virtude antiga

Não é a primeira vez que a hospitalidade beneditina acolhe comunidades recém-chegadas à capital paulista. No início do século 20, d. Miguel Kruse abriu as portas do mosteiro aos imigrantes alemães, italianos, ingleses e japoneses. Foi também ele quem criou o Colégio de São Bento em 1903.

A instituição chegou a anunciar seu fechamento em 2003, quando contava com 180 alunos. A reitoria atribui a decisão a um litígio jurídico: uma faculdade ocupava o prédio nos períodos da tarde e da noite, prejudicando a rotina do colégio. Depois de quatro tentativas frustradas de despejo, o mosteiro havia decidido jogar a toalha. Mas a situação se resolveu repentinamente e puderam dispor do edifício. Conta agora com 220 alunos e o número deve crescer.

O colégio sofreu também transformações pedagógicas. Todos os alunos recebem um acompanhamento periódico e personalizado: a tutoria. Também há uma grande ênfase na participação dos pais. “Um colégio é feito de pais, professores e alunos. Nesta ordem”, afirma Evandro Faustino, um dos dois diretores que administram o colégio.