Por Nathalia Ziemkiewicz – Época SP

Fiquei surpresa ao descobrir que, só neste ano, o Centro recebeu três lançamentos imobiliários residenciais. Juntos, eles devem levar mais de dois mil moradores ao Bom Retiro e entorno do Parque Dom Pedro II. Me perguntei se aquilo significava uma tendência. Ou seja, a cara da região, tradicionalmente comercial, está começando a mudar? As construtoras Gafisa, Queiroz Galvão e Engelux apostaram em empreendimentos com jeitão de condomínio-clube (os itens de lazer incluem espaço para massagem, salão gourmet, orquidário, piscinas etc.).

Perspectiva de novo empreendimento no Bom Retiro. Centro na mira de um boom imobiliário?

Se você achou ousada a iniciativa das construtoras, que ignoraram o fato de o comércio popular e os viciados em crack ainda serem vizinhos desses novos moradores, aqui vai uma boa notícia: o Central Life, da Gafisa, já tem 95% das unidades vendidas. Não tenho as mesmas informações do Aquarela Paulistana e do Smart Downtown Living, mas posso adiantar que o público alvo dos três é o mesmo: a classe média. Os apartamentos, com área útil inferior a 100m2, têm de 1 a três dormitórios. Para entender melhor esse curioso processo que deve reverter parte da degradação em que o Centro esteve imerso nas últimas décadas, conversei com Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp).

Por que a região deixou de receber empreendimentos residenciais por tanto tempo?
No início do desenvolvimento urbano do centro de São Paulo, o entorno da ferrovia Santos Jundiaí (Bom Retiro e Parque Dom Pedro) era constituído por armazéns de grãos e, mais tarde, por indústrias. Esse é o tecido predominante da região até hoje, o que não torna convidativo para moradia. Desde a década de 1960, os empreendimentos partiam de São Paulo rumo à periferia e interior próximo. Desde 2007, a indústria imobiliária percebeu a oportunidade que alguns grandes terrenos por ali ofereciam – inclusive em bairros como Mooca, Tatuapé e Barra Funda. No Centro, esse conceito de condomínios-clube é novo e acho que vai dar certo. O morador sequer precisa de automóvel ou garagem estando tão bem localizado e com boa oferta de transporte.

O que está motivando as construtoras a olhar com mais atenção para o Centro?
O empreendedor realmente está perdendo o medo de investir ali. O fato de o Henrique Meirelles ter voltado para presidência da organização Viva o Centro! é mais um índice de que “agora vai”, de que dá para confiar na melhoria da região. Daqui a uns cinco anos, vamos olhar para trás e ver que esses locais desacreditados deram certo – e por conta de iniciativas privadas. Esses empreendimentos pioneiros, que estão apostando suas fichas lá, estão dando um grande empurrão para uma mudança a longo prazo e muito importante para São Paulo.

O que falta para o paulistano perder o receio de se instalar no coração da cidade?
Falta a prefeitura criar regras ousadas para a re-ocupação do Centro, uma tomada de decisão para mudar de verdade. Sou a favor de aproveitar a revisão do Plano Diretor e permitir que, no perímetro do Centro, possa construir tudo, sem regras. Hoje existe uma série de impeditivos (leis quanto ao uso e ocupação do solo) que inibem o crescimento da incorporação. Deveria haver apenas uma comissão de arquitetos que avaliasse o projeto e considerasse se vale a pena autorizar a construção, priorizando o benefício que ela trará à região e à população.

Como assim?
Temos que aproveitar o fato de termos tudo à disposição no Centro da cidade. Por que não incentivar uma forte verticalização ali? Se você permite a incorporação mais longe, nas áreas periféricas, você é obrigado a levar uma infra-estrutura de serviços, como transporte. E aí as pessoas passam horas e horas do dia realizando enormes deslocamentos entre casa e trabalho. Não tem sentido.

O interesse pelos terrenos do Centro também estão ligados à escassez de terrenos em regiões da cidade?
Sim, também. Além disso, o Centro é hoje uma das regiões menos valorizadas, então o empreendedor pode construir unidades mais baratas. Mas o enfoque só no popular não vai resolver. Tem que haver uma pluralidade no perfil dessa ocupação: do baixo ao alto padrão. Aos poucos, você vai requalificando o espaço. Apoio uma campanha de volta ao Centro, inclusive no mundo corporativo, como acontece no Rio de Janeiro. Lá, os preços mais altos para instalar um escritório estão no entorno da avenida Rio Branco. Quando uma grande construtora investir num empreendimento de alto padrão no nosso Centro, com certeza outras irão acompanhar o processo. Não é um movimento pontual, mas algo irreversível.