Os religiosos, a vocação e a internet

 

Por Tanzina Vega – Folha de São Paulo (The New York Times), 16 de maio de 2011

Os monges beneditinos da Abadia de Portsmouth, em Rhode Island (nordeste dos EUA), estão envelhecendo -cinco deles são octogenários e o mais jovem se aproxima dos 50 anos- e seu número diminuiu para 12, contra um apogeu de 24 em 1969.

Por isso, os monges, que, por séculos, evitaram as distrações mundanas, apelaram para a internet com campanha que inclui vídeos, um blog e até um toque para telefone de canto gregoriano.
“Se é assim que a geração mais jovem procura as coisas e se comunica, é onde devemos estar”, disse o abade Caedmon Holmes, que dirige o mosteiro desde 2007.

Os monges adotaram o Facebook, um novo site (portsmouthabbeymonastery.org) que responde a perguntas sobre como se tornar monge (“Eu tenho de abandonar meu carro?” -Sim) e traz anúncios que declaram “Deus está chamando”.

“Se 500 anos atrás existissem os blogs, os monges teriam encontrado um modo de utilizá-los”, disse o abade Holmes. Para alguns, a tecnologia pode parecer o oposto da imagem da vida monástica. Nem tanto, dizem os monges: até o Vaticano tem seu canal no YouTube e uma página no Facebook.

A campanha apresenta os frades como “abertos e amistosos, totalmente acessíveis”, disse Tom Simons, o executivo-chefe e diretor de criação da Partners and Simons, agência de publicidade de Boston contratada pela abadia. A página no Facebook permitirá que os monges “formem sua base de fãs”, ele disse.

Simons lembrou sua primeira visão do irmão Gregory Havill entrando na agência com seu hábito de monge, enquanto ao fundo tocava música eletrônica. “Acho que o irmão Gregory sentiu que tinha entrado em um parque temático publicitário e ficou atraído e encantado”, disse Simons.

Sua empresa e a BPI, uma produtora de filmes, criaram vídeos on-line, enfocando como os monges ouviram a vocação e como é a vida monástica, e convidaram visitantes. O objeto foi capturar “sua amabilidade, sua sinceridade, sua delicadeza”, ele disse.

A história do irmão Havill tem um papel importante na campanha. Um dia, dez anos atrás, enquanto esperava um sanduíche esquentar no micro-ondas, Havill diz que ouviu um chamado para “ir para Portsmouth”.
No princípio, ele pensou que se tratasse da cidade portuária da Inglaterra pela qual muitos de seus ancestrais passaram a caminho dos Estados Unidos.

“Eu não tinha qualquer plano de me tornar um monge”, ele disse, que, na época, era um professor de arte e escultor que vivia só em Cromwell, Connecticut.

A abadia é ligada a uma escola, onde monges trabalham, incluindo Havill, que usa iPad nas aulas de arte. Eles podem usar a tecnologia para ensinar ou trabalhar, disse o frade, mas “você não vê os monges jogando com iPads”.

Alunos de internatos católicos como o de Portsmouth costumavam entrar para o mosteiro, mas “o número caiu vertiginosamente”, disse Francis Russell Hittinger, professor de estudos católicos na Universidade de Tulsa, em Oklahoma. David Moran, diretor de renovação monástica da abadia, disse que aprender a blogar vai ajudar os monges, que o farão entre os cinco serviços religiosos que praticam diariamente. Mas nada de Twitter.

“Ainda não”, ele disse. A ferramenta de relacionamento social “exige uma regularidade de publicação que eles achariam muito difícil manter”.

No Brasil religiosos já seguiam a tendência

 

 Trabalho de acompanhamento vocacional pode ser feito com fiéis de todo o Brasil

Geanderson Reis

Para muitos, Igreja Católica é sinônimo de algo ultrapassado ou fora de moda, uma instituição que não consegue acompanhar as tendências do “mercado religioso”. Embora essa afirmação possa parecer verdadeira, sacerdotes e religiosos católicos do mundo inteiro unem esforços para mudar esse cenário.  Franciscanos, jesuítas e beneditinos, por exemplo, já apostam até em fazer acompanhamento vocacional – etapa realizada, antes do seminário, com candidatos à vida religiosa – via internet.
 
O mosteiro de São Bento de Vinhedo (SP), situado na zona rural da cidade, é bastante receptivo aos candidatos virtuais. De acordo com o prior do mosteiro, Dom Paulo Sérgio Panza, o acesso de vocacionados à vida na clausura, normalmente se dá por meio de um contato inicial pela internet.

“A internet é o meio de comunicação mais utilizado nos dias de hoje, especialmente pelos mais jovens, daí a necessidade de abrirmos esse espaço para àqueles que almejam a vida religiosa”, diz.

Hoje, dos três postulantes que desejam ser beneditinos em Vinhedo, um veio por meio da internet. Na Abadia da Ressurreição, em Ponta Grossa, no Paraná, dos oito irmãos que ingressaram na comunidade monástica recentemente, todos fizeram contato pela internet.

Entre as vantagens apontadas por Dom Paulo para esta modalidade de acompanhamento, está a facilidade de contato constante, o baixo custo, a possibilidade de se fazer uma seleção prévia dos candidatos, além da comodidade no envio de materiais de formação, antes enviados por cartas.

Para o vocacionado franciscano Gabriel dos Santos, a Igreja está cada vez mais aberta aos novos conceitos propostos pela modernidade. “Não dava mais para manter aquela estrutura rígida, sem conversar com as novas mídias e as diversas possibilidades advindas de tais, ou ela [a Igreja] deixaria de conseguir excelentes pessoas que sonham em um dia ser padre, como é o meu caso”, brinca.

Conhecida como a congregação religiosa mais disciplinada da Igreja, a Companhia de Jesus, dos jesuítas, entrou definitivamente na era digital. As cartas, cada vez menos usadas, estão dando lugar para os e-mails. MSN, Orkut e afins também são canais utilizados pela Companhia para acompanhar candidatos.

Segundo Pe. Elcio José de Toledo, responsável pela formação de novos jesuítas em Campinas (SP), hoje se vive a cultura do Google. “Sempre que temos uma pergunta na mente, a primeira idéia é procurar na internet o que existe.

Nas vocações já percebemos isso também, passa a idéia vocacional pela cabeça do jovem e ele digita “vocação” ou “jesuítas” em um buscador e o contato se dá a partir daí”, afirma.

Um ponto negativo para esse contato virtual é apontado por Dom Mateus de Salles Penteado, monge responsável pelas vocações da Abadia da Ressurreição. “Muitos candidatos escrevem para diversas congregações ao mesmo tempo, sem um verdadeiro compromisso com um determinado estilo de vida na Igreja.

A internet facilita esse tipo de distorção, pois seminários e congregações religiosas podem ser vistos como produtos na prateleira de um supermercado”.

Mas o que leva os jovens a buscarem cada vez mais as ordens religiosas através da internet, ao invés do contato pessoal, pode ser a vida apressada do cotidiano, onde as pessoas não têm mais tempo para nada, aponta o frei da Ordem dos Frades Menores de Anápolis (GO), – aquela fundada por São Francisco de Assis – Fábio Inácio.

Também para ele, nem tudo são flores nesse tipo de contato. “A vocação é tão bela e fascinante que a internet é muito pouco para abranger toda a ternura de Deus na vida de um jovem que descobriu sua vocação”, encerra.