A imagem do papa polonês invadiu a cidade, que deve receber um milhão de devotos do mundo todo no fim de semana da beatificação

 

Revista Istoé -Rodrigo Cardoso

FRENESI
Fiéis poloneses e brasileiros na Praça de São Pedro.
Acima, suvenires com a imagem do beato

“Roma, Cidade Aberta”, filme de 1945 assinado pelo italiano Roberto Rossellini (1906-1977), tem o nome cravado na história por inaugurar o estilo neorrealista de fazer cinema. Heróis dessa obra prima – que tem como pano de fundo a Itália após a Segunda Guerra Mundial –, o sofrimento, a coragem e, principalmente, a resistência humana foram premiados com a Palma de Ouro em Cannes, em 1946. Sessenta e cinco anos depois de Rossellini patrocinar uma revolução, Roma está novamente envolvida com a coroação de um ato de resistência. Quando João Paulo II tiver essa e outras de suas virtudes heroicas reconhecidas pela Igreja Católica e se tornar beato, em 1º de maio, a capital italiana estará tomada por cerca de um milhão de fiéis. E a maioria deles foi espectador da trajetória do pontífice polonês Karol Wojtyla, que provou ser possível viver a fé cristã no século XXI – mesmo quando a sua saúde pedia o contrário – sem se preocupar com a exposição pública de sua dor nos derradeiros anos de seu pontificado, encerrado em 2005 com sua morte.

A dez dias dos três que compõem a beatificação do homem que revolucionou a relação de um santo padre com os fiéis e a mídia, o Vaticano voltou a ter dois papas. Fotos de João Paulo II, antecessor de Bento XVI, estão espalhadas em outdoors, ônibus e estações de metrô. Supermercados oferecem lembranças e livros especiais que contam, por meio de fotos, a história do pontificado do polonês. Bancas de jornal exibem calendários e pôsteres em locais estratégicos.

Roma está aberta aos devotos do religioso polonês e já há filas para atravessar as ruas da cidade, que, de ponto turístico, passou a viver dias de Nações Unidas, tamanha a facilidade de encontrar gente dos cinco cantos do planeta em uma mesma esquina. A horda de estrangeiros está além do normal para esta época do ano – primavera na Itália. No domingo 17, autoridades locais se posicionaram nas proximidades do Vaticano para medir a influência do turismo religioso. Nesse dia, no intervalo de uma hora, entre 10h e 11h, 68 ônibus de excursão trafegaram pela Via da Conciliação (a ampla rua que liga Roma à Santa Sé) rumo à Basílica de São Pedro – uma impressionante média de um ônibus a cada 55 segundos. “O número de peregrinos aumentou muito, o que é comum acontecer apenas em julho, agosto e setembro, no verão. A beatificação está mexendo bastante com a população europeia e das Américas”, diz o padre jesuíta César Augusto dos Santos, responsável pelo programa brasileiro da Rádio Vaticano.

IMAGEM
João Paulo II está presente em outdoors, ônibus,
estações de metrô, supermercados e bancas de jornal

Algo em torno de 95% da rede hoteleira de Roma, composta por 250 mil leitos (300 hotéis), já se encontra ocupada. Estruturas móveis estão sendo montadas na cidade para que jovens romeiros tenham onde dormir gratuitamente no fim de semana da beatificação. Todas as casas religiosas que acolhem turistas estão lotadas. Na maioria das cerca de 300 paróquias romanas, telões serão instalados para que os fiéis assistam ali à cerimônia, numa tentativa, também, de diminuir o fluxo de pessoas no Vaticano.

Em Roma pela terceira vez, a dona de casa paranaense Marisa de Fátima Torres, 55 anos, assistiu à missa do Domingo de Ramos, celebrada por Bento XVI, no domingo 17 na Praça de São Pedro. Apesar de não ficar na cidade para a beatificação de João Paulo II, ela irá levar para casa terços e chaveiros que, como outros suvenires dedicados ao religioso polonês, tiveram acrescidas frases como “João Paulo II – beatificado em 1º de maio de 2011” ou “Bem-aventurado João Paulo II”. “Eu vi o João Paulo aqui no Vaticano andando de papamóvel”, conta ela, em Roma com um grupo de 35 pessoas. “Ele foi uma pessoa de muita compaixão e dedicação, como Jesus Cristo. Por isso, será beatificado no dia da festa da divina misericórdia.”

TESTEMUNHOS
Silvonei Protz, da Rádio Vaticano, acompanhou João Paulo II por 16 anos. Marisa Torres, do Paraná, não ficará para a beatificação, mas levará para casa terços e chaveiros da data festiva

O Vaticano está revivendo uma movimentação semelhante à presenciada durante a morte de João Paulo II, há seis anos. O espírito que envolve os peregrinos, porém, é outro. Aquela tristeza que invadiu Roma, a amargura estampada no rosto das pessoas pelo fato de não ver mais aquela janela do Vaticano que se abria e por meio da qual um polonês fatigado e doente se esforçava para dizer que ainda estava perto de seus fiéis, deu lugar ao conforto. Quem faz um santo é o povo e esse, desde a morte de João Paulo II, já dizia em coro “Santo súbito”, pedindo o reconhecimento oficial da Igreja. Tem sido uma alegria para os fiéis que visitam Roma ter novamente João Paulo II entre eles – dessa vez sendo motivo apenas de veneração. “Dez anos atrás, ali embaixo da segunda janela, recebi a benção de João Paulo. Chorei de emoção”, conta a professora paulista Solange Bosselli Folchine, 60 anos, acompanhada de outras 27 pessoas vindas de São José dos Campos. “Eu já imaginava que as virtudes dele fossem reconhecidas em pouco tempo.”

Para o locutor da Rádio Vaticano Silvonei Protz, João Paulo II passou a conquistar admiradores também por sua porção espirituosa ao deixar o palácio apostólico e viajar pelo mundo, tocando as pessoas e olhando nos olhos delas. Protz, que acompanhou o pontífice em suas viagens por 16 anos, afirma: “Ele se tornou um comum entre os comuns e nós percebemos que o papa era um dos nossos.” Aos 46 anos, o locutor tem guardados 16 terços e dezenas de medalhas que recebeu de presente do ex-chefe da Santa Sé e não se esquece de uma passagem. “Certo dia, depois de sofrer uma queda, ele apareceu na sala das bençãos, no Vaticano, e começou a girar a bengala enquanto dizia: ‘Eu também sei fazer Charles Chaplin’.”

Mais do que uma demonstração do lado pop do papa, imitar um ícone do cinema diante de seus colegas de Vaticano foi mais um ato de confirmação da fé de João Paulo II. De demonstração de resistência diante dos tombos que a vida dá, até mesmo em quem é extremamente espiritualizado. E é principalmente por essa virtude que Roma se prepara para aplaudir de pé o papa polonês que virou beato.

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