Fringe coloca em destaque obra de autor amazonense

Após escrever 40 peças e apresentar mostra no Festival de Curitiba, Francisco Carlos começa a ser reconhecido

Dramaturgo e diretor apresenta o inédito “Jaguar Cibernético”, espetáculo dividido em quatro obras autônomas

"Jaguar Cibernético" de Francisco Carlos

O autor e diretor amazonense Francisco Carlos é um devorador de mitologias. Ao degluti-las, elas se misturam ao seu olhar crítico de mundo e às suas raízes.

O resultado da arte deste artista de 51 anos formado em filosofia é um teatro original, que após uma vida de batalhas e cerca de 40 peças escritas finalmente começa a sair da obscuridade.

Destaque absoluto do Fringe, na 20ª edição do Festival de Curitiba, Francisco Carlos foi o único artista do festival convidado a exibir uma mostra de seu trabalho.

Além de “Banana Mecânica”, “Namorados da Catedral Bêbada” e “Românticos da Idade Mídia”, apresentou pela primeira vez “Jaguar Cibernético”, espetáculo dividido em quatro obras autônomas, cuja estreia paulista está prevista para o mês que vem. “No fundo, meu teatro é um teatro da periferia”, diz ele.

MITOLOGIA

A partir da utilização de figuras mitológicas da cultura brasileira, sua obra promove o embate entre realidades opostas.

Ele parte de um debate micro, pessoal, e o expande para uma reflexão sobre a sociedade, como é o caso do confronto entre cultura ocidental e indígena exposto em “Jaguar Cibernético”.

O texto, agrupado no bloco temático de suas “peças de pensamento selvagem”, tem o canibalismo como tema. Francisco Carlos serve-se do jaguar, um dos símbolos desta prática ritualística, para falar sobre altruísmo.

Segundo ele, incorporar a visão do outro é algo intrínseco às culturas indígenas. A visão múltipla destes povos se contrapõe ao ponto de vista uno da cultura ocidental.

Para o autor e diretor, a maneira como o índio percebe o mundo apresenta uma possibilidade. “É nossa utopia contemporânea”, fala.

Não só o conteúdo de suas obras busca a multiplicidade. A estética também é inspirada por essa visão. “A ideia de arte contemporânea fragmental, híbrida e plural veio da arte primitiva africana e da ameríndia”.

Sua estética teatral dialoga, muitas vezes de modo paródico, com diversas linguagens artísticas, como performance, música, dança, cinema e artes plásticas. “Jaguar Cibernético” mistura ainda teatro oriental, circense e rituais indígenas.

Francisco Carlos foi descoberto por artistas paulistas, como Majeca Angelucci, protagonista de “Namorados da Catedral Bêbada”, e apadrinhado por Ivam Cabral. O ator e fundador dos Satyros lhe abriu as portas de seu teatro em São Paulo e destacou seu trabalho na mostra Conexão Roosevelt, do Fringe.

A singularidade de sua arte encontra, enfim, reconhecimento e público. “Meu teatro representa aquele que não é o eu, o ego, branco, ocidental, normal. Eu uso a arte para apresentar o outro”, diz o autor e diretor, satisfeito com a repercussão de seu trabalho em Curitiba. “Entenderam a minha loucura.

Fonte: Gabriela Mellão – Caderno da Ilustrada. Folha de S.Paulo, 6 de abril de 2011