Encontra-se situada na Praça do Patriarca residência para artistas de diversas localidades do mundo

Situado na agitada praça do Patriarca, no centro, o edifício Lutetia é pura arte. Primeiro, pela arquitetura: projetado nos anos 20 por Ramos de Azevedo, foi tombado e restaurado, preservando a fachada, o piso hidráulico, o elevador antigo. Depois, por abrigar um museu, o MAB-Centro. Por último, e o mais importante: ele serve de casa para artistas do mundo todo.

Funciona no prédio a residência artística mantida pela Faap (Fundação Armando Álvares Penteado), que já existe acerca de seis anos.

O Lutetia é equipado com lavanderia, ar-condicionado, salas de convivência com TV e internet, ateliê coletivo, porteiro, administradora, ascensorista, faxineiros. O barulho dos espetáculos populares da praça é amenizado por janelas antirruído. As sete salas comerciais que antes ocupavam cada um dos oito andares deram lugar a dez modernos lofts, dois por piso, de 69 m² e 79 m².

Além de móveis contemporâneos em madeira clara, com nichos para guardar pincéis e tintas, os apartamentos têm cozinha, pia especial para pintura e o mais valorizado pelos artistas: lugar de sobra para criar.

“Este é o lugar mais bacana onde já vivi. Ter meu estúdio no espaço onde durmo e poder pintar até as três da manhã é ótimo”, diz a pintora americana Sarah O’Donoghue, 23, que morava em um apartamento “minúsculo” em Nova York. Ela chegou em Setembro de 2010 com o namorado, um DJ colombiano, e já virou fã de comida a quilo e dos sucos naturais.

A seleção para morar no Lutetia inclui a apresentação de um projeto artístico pessoal e outro de intercâmbio com alunos e professores da Faap. É possível ficar entre dois e seis meses, e os demais gastos são por conta do artista. A cada semestre, de 15 a 20 pessoas se inscrevem.

Há, ainda, parcerias instituicionais, como a que foi feita com uma escola de artes de Lisboa para a Bienal, que trará alunos e professores para morar aqui por dois meses.

Já passaram pelo Lutetia visitantes dos países mais diversos: Japão, Espanha, Líbano, Colômbia, Benin. Brasileiros de fora do Estado de São Paulo também são aceitos. Não há limite de idade, mas a média é de 30 anos. Eles podem trazer companheiro(a), mas crianças e animais não são aceitos. As regras incluem não viajar sem avisar e devolver utensílios em bom estado.

Estar no centro, aliás, faz parte do charme do projeto. “Não queremos só trazer o artista para cá. Queremos que ele interaja com a cidade”, afirma Marcos Moraes, coordenador da residência.

O peruano Daniel Barclay, 37, gosta da proximidade de tudo. “É uma forma de recuperar a área, trazendo arte para um lugar considerado perigoso.” Seus quadros, uma releitura de ícones de SP, como o Masp, já ocupam todo o loft, e ele migrou para o ateliê coletivo.

Conterrâneo de Daniel, Oscar Kovach, 32, prefere o centro ao Morumbi, onde já morou. “Lá não tem ninguém na rua. Aqui tem mais informação visual, sonora, tudo perto.” Seus passeios por São Paulo incluíram dois dias em cemitérios, admirando as esculturas dos túmulos.

Assim como outros residentes, ele mudou seu projeto a partir do contato com o centro: esculpiu um morador de rua usando pedras soltas do piso português da região e levou a obra até a praça.

A residência também possibilita a integração entre os artistas. “Todos somos novos, então nos tornamos amigos”, conta a austríaca Monika Nguyen, 27, que já viveu em Tóquio e em Nova York e costuma ir com os vizinhos a exposições. Ela tem três alunos da Faap como assistentes em sua pesquisa, na área de fotografia.

A americana Sarah diz que escolheu São Paulo pela “explosão” na arte de rua. “Nova York é ótima para arte em espaços tradicionais, mas aqui tem mais coisas que fogem do padrão.”

Pretende viajar, mas, por enquanto, quer mesmo é ficar em casa. “Ter um espaço como esse para trabalhar é tão importante que, por mais que eu queira explorar o Brasil, também quero aproveitar para pintar.”