Citando o Colégio de São Bento, Rogério Amato afirma ser preciso melhorar a qualidade da educação e garantir o aumento da inovação, como responsabilidades não apenas do governo, mas de toda a sociedade

Rogério Amato: "Tive o privilégio de estudar no Colégio de São Bento"

A Associação Comercial de São Paulo (ACSP) vai monitorar permanentemente todas as comissões de estudo dos legislativos federal, estadual e municipal de São Paulo para detectar quaisquer tentativas de normatização que possam prejudicar o empreendedor. “Temos um grupo dentro da ACSP que entende profundamente desses assuntos legislativos e que permanecerá ativo constantemente, observando os movimentos dos legisladores e, quando necessário, atuar com rigor para evitar atos e leis que ataquem o empreendedorismo”, disse o novo presidente da Associação para o próximo biênio, Rogério Amato, 62, ao tomar posse.

Esse monitoramento vai servir, também, para o “outro lado”, segundo o presidente da ACSP. “Às vezes temos bons legisladores que levantam bandeiras favoráveis ao que precisamos e acabam ficando sem apoio. Vamos nos mobilizar para ajudá-los, quando detectarmos que eles olham pelas nossas necessidades”, acrescentou Amato, que também assumiu a presidência da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp) na presença de 1,5 mil representantes de entidades, políticos e da maioria das 420 associações comerciais do Estado de São Paulo.

Entidades – O novo presidente da ACSP e da Facesp também afirmou que está aberto a associar-se a todas as entidades representativas do empreendedorismo alinhadas com o pensamento liberal e na luta pelos direitos dos empreendedores. “Queremos atuar em conjunto com as demais entidades sempre que essa união contribuir para fortalecer a posição da classe empresarial ou da sociedade, sem prejuízo da ação individual de cada uma”, observou. “O nosso lado é do pensamento liberal, é o da defesa da livre iniciativa, da liberdade de expressão, da liberdade de empreender. Quem estiver deste lado, estaremos juntos. Quem não estiver desse lado nós vamos fazer o possível para democraticamente mostrar o nosso lado.”

Amato observou ainda a necessidade da união para avançar nas mudanças sociais e econômicas. “É preciso melhorar a qualidade da educação e garantir o aumento da inovação, sem descaracterizar a ampliação da infraestrutura e a modernização institucional com a realização das reformas necessárias. São tarefas que não cabem apenas ao governo, mas a toda sociedade.”

Cobranças – Apesar de apartidária, a política fará parte da Associação Comercial, principalmente nos questionamentos e nas cobranças pelos avanços sociais e econômicos do Brasil, segundo o novo presidente. “Não se trata de retórica da indignação, que se esgota em si mesma, mas podemos garantir que não faremos parte da ‘conspiração do silêncio’, em que o resultado positivo da economia faz com que os problemas existentes sejam ignorados.”

Amato, porém, reforçou que o foco é o empreendedor e não a política partidária. Ele afirmou que na gestão de Alencar Burti, que terminou agora, a própria ACSP entrou com uma ação contra a prefeitura de São Paulo, governada pelo vice-presidente da Associação,, Gilberto Kassab. “Quem fizer alguma coisa que não vá de encontro às necessidades dos empreendedores, nós vamos para cima com todas as forças”, completou o novo presidente.

Para reafirmar que a ACSP está fora do âmbito partidário, Amato disse em entrevista coletiva, depois da posse, que vai se desfiliar do Democratas, partido que ingressou quando foi lançado, em 2007. “Não tenho vocação para política partidária. Tenho vocação para a política empresarial.”

Leia abaixo a íntegra do discurso de Rogério Amato

Patriotismo, em seu sentido lato, significa  ” o sentir pertencer à terra do pai”, ou à terra onde nasceu.

 
Tem, no entanto,  um significado mais amplo que é o do “sentimento de pertencer a uma família, ou a um grupo que se mantém unido por valores, cultura, história e objetivos”. Esse é o sentido que empresto a esse termo, e que justifica o orgulho que sinto de pertencer ao movimento das associações comerciais.
 
Desde sua fundação por Antonio Proost Rodovalho, em 7 de dezembro de 1894, até à gestão de Alencar Burti, que ora se encerra, cada presidente da ACSP incorporou sua personalidade e suas ideias na atuação da entidade. Manteve  sempre, contudo, a linha mestra representada pela tradição e valores que foram sendo transmitidos a cada diretoria.
A história  registra episódios marcantes da atuação da entidade, como, por exemplo,o envolvimento da Associação na Revolução Constitucionalista de 1932, quando, além da mobilização dos empresários, organizou a logística de suprimentos das tropas paulistas, e administrou a campanha do “Ouro para o Bem de São Paulo”. Desse envolvimento, resultou a prisão e o exílio de seu então presidente, Carlos de Souza Nazareth.
 
Esse exemplo visa apenas demonstrar que a atuação da entidade não se limitou à defesa apenas retórica de seus valores – liberdade de empreender, respeito ao direito de propriedade e aos contratos, a contribuição para o desenvolvimento econômico e social do país e pela igualdade de oportunidade. As ações da entidade tomaram diferentes formas em função da diversidade dos desafios, mas sempre mantendo a coerência dos princípios.
 
Para citar apenas alguns exemplos mais recentes, poderia lembrar a luta da Associação durante a Constituinte, para procurar defender a livre iniciativa, o apoio à aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal, a mobilização contra a aprovação da MP 232 e a prorrogação da CPMF, a criação do Impostômetro e a atuação constante contra a excessiva carga tributária e a burocracia exagerada.
 
Nossa missão primordial, portanto, é a de dar continuidade à essa herança moral.
 
Charles Darwin, em sua genialidade, afirmou que a adaptação às mudanças é o que perpetua as espécies. Não temo afirmar que este conceito se aplica igualmente às organizações. Neste sentido, os 117 anos de existência da ACSP mostra que temos sido um exemplo raro de sucesso na adaptação às mudanças sócio econômicas e políticas ocorridas no Brasil nesse período.
 
Pesquisa da IBM, realizada a cada dois anos junto a mil dirigentes globais de múltiplos segmentos, para avaliar os cenários que se descortinam para as empresas e organizações, mostrou, em 2008, que o maior desafio apontado, foi a frequência e velocidade das mudanças, e as dificuldades para as organizações se ajustarem aos novos cenários. Na última pesquisa, a de 2010, portanto bastante recente, se soma a preocupação com a complexidade crescente da atuação no novo ambiente corporativo. Permito-me adicionar um terceiro desafio, que é o de revitalizar nossa organização para torná-la atraente para as novas gerações, que tem pressa.
 
A esses três desafios – mudanças, complexidade e revitalização – deve-se adicionar a agilidade. Não basta adaptar-se. Será fundamental adaptar-se rapidamente. Se antigamente dizia-se que “os grandes iriam engolir os pequenos “, agora se pode afirmar que “os ágeis irão engolir os lentos””.
 
Precisamos entender as associações comerciais sob duas óticas distintas: a de prestadores de serviços e geradora de receitas, e a institucional, como catalisadora (defensora)  dos interesses de um segmento importante e representativo da economia e da sociedade brasileira, a classe empresarial.
 
Na prestação de serviços, revelamos nossa capacidade de enfrentar e superar os desafios e as mudanças mencionadas com grande sucesso. Os serviços de informações prestados ha décadas pela entidade sempre foram de grande valor para os associados. Mais do que isso. Nos garantiu uma posição que deve ser preservada a todo custo. A autonomia financeira. Embora os serviços sejam meio, e não fim, devemos lembrar o que  afirma com senso de humor o sempre presidente  Guilherme Afif Domingos.  “Quem não tem a verba, não tem o verbo”.
 
A entrada da maior empresa mundial da área de informações no mercado brasileiro, obrigou-nos a agir rapidamente para enfrentar esse desafio, o que foi feito com a transformação de nossos serviços em uma empresa, a Boa Vista Serviços, que incorporou capital, tecnologia, novos produtos e novos modelos de negócios. Orgulho-me de afirmar que estamos preparados não apenas para enfrentar a concorrência, mas, sobretudo, para atender às novas necessidades dos associados, e dos empresários em geral, com tecnologia de ponta e capital humano de altíssima qualidade. Podemos garantir a continuidade desse processo, com  agilidade e eficiência.
 
Sob a ótica institucional, a de representar a classe empresarial, que é a razão da existência das associações comerciais,   concentraremos nossa atuação. Permitam-me reapresentar o que realmente somos. A palavra comercial de nosso nome, não reflete a realidade. As Associações Comerciais congregam todos os setores da economia: comércio, indústria, serviços, agronegócio e instituições financeiras. Contamos com empresas de todos os portes em nossos quadros: grandes corporações, médios empreendimentos, pequenas e micro empresas e profissionais liberais ligados as atividades econômicas. Com um detalhe. Todos com adesão voluntária.
 
Colocando em números, a ACSP possui cerca de 30 mil associados, divididos por suas 15 sedes distritais, que são verdadeiras entidades locais, atuantes nas diversas regiões da na Capital. A FACESP reúne mais de 420 associações comerciais no Estado, que, no seu conjunto representam mais de 100 mil empresas do Estado de São Paulo. Integramos a CACB – Confederação das Associações Comerciais do Brasil, que conta com cerca de 2 milhões de  empresas participantes das mais de 2000 associações comerciais que integram as 27 federações estaduais.
 
Nosso desafio é mobilizar essa imensa comunidade de associações comerciais utilizando os modernos recursos da área da comunicação. Não basta, contudo, apenas o contato virtual. É preciso que haja a contato pessoal, o dialogo “olho no olho”, para criar a confiança e a cumplicidade na busca dos objetivos comuns.
 
Devemos considerar ainda, que os diretores e conselheiros das associações comerciais participam de diversas entidades, inclusive do terceiro setor, que, por sua vez, se constituem em redes, com as quais queremos colaborar, até porque enfrentamos muitos problemas comuns (na esfera burocrática e fiscal) .
 
Queremos destacar nosso propósito em atuar em conjunto com as demais entidades empresariais, sempre que essa união possa contribuir para fortalecer a posição da classe empresarial ou da sociedade, sem prejuízo da ação individual de cada uma.
 
Desejamos ser parceiros e não competidores na representação empresarial.
 
Vamos procurar desenvolver uma agenda de debates sobre os grandes temas nacionais e, também, sobre as questões  mais específicas que afetam os empresários.
 
Isto porque o relatório da ACSP de 1924, chamava a atenção da necessidade de atender aos interesses dos associados, para poder defender seus ideais. Assim, não basta termos uma forte atuação defendendo posições institucionais, e não dar a atenção devida aos problemas específicos enfrentados pelos empresários. Assuntos que podem parecer pouco importantes quando comparados aos grandes desafios institucionais ou macroeconômicos, para o empresário, no entanto, especialmente para os de menor porte, pode representar  a diferença entre a sobrevivência ou fim da empresa.
 
Seja o crescente intervencionismo estatal, como a atuação da ANVISA legislando sobre tudo. O aumento da burocracia, como a recente pérola da obrigatoriedade do relógio de ponto com o uso de papel, com claro retrocesso tecnológico e ambiental. O fiscalismo e o arbítrio, como a “penhora on line”,  que não apenas afeta as empresas, mas, muitas vezes, invade a esfera individual e familiar.
 
Seja a instabilidade, complexidade e insegurança jurídica, por exemplo, quando a empresa depende de vários órgãos públicos,  que não atuam de forma coordenada, como ocorre em relação ao meio ambiente.
 
Tudo isso afeta a empresa, e especialmente o empresário  de micro e pequeno  porte que se sente solitário, abandonado e, muitas vezes, acuado. Precisamos  demonstrar que  ele faz parte de uma comunidade que se preocupa com  seus problemas, que vai apoiá-lo, orientá-lo, e procurar oferecer serviços que possam ajudá-lo a superar suas dificuldades. É preciso reforçar o sentimento e o orgulho de pertencer a uma associação comercial, o  que fará com que sua voz que, isolada, nada significa, passe a ser ouvida quando  somada a milhares de outras que convivem com os mesmos problemas.
 
“Mexeu com um, mexeu com todos”
 
Não se trata da retórica da indignação, que esgota em si mesma, mas podemos garantir que não faremos parte de uma “conspiração do silêncio” em que o resultado positivo da economia faz com que os problemas existentes sejam ignorados.
 
O Brasil está vivendo um período de grandes oportunidades e desafios. Entre as opor-ameaças, como as chama o professor Adizes, podemos destacar a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas, no país. A exploração do Pré Sal. A compatibilização do crescimento com a preservação do meio ambiente. A disseminação da responsabilidade social das empresas sem perda de sua eficiência e função primordial de gerar lucros e criar empregos. A melhora qualitativa da educação e o aumento da inovação. A ampliação da infra estrutura e, não menos importante, a modernização institucional, com a realização das reformas necessárias e urgentes para permitir ao Brasil o avanço que suas potencialidades permitem.
São tarefas que cabem não apenas ao governo, mas a toda sociedade.
 
Queremos fazer a nossa parte.
 
Para encerrar: Tive o privilegio de estudar no colégio de São Bento. Aprendi que na organização do mosteiro, a comunidade delega ao abade, a autoridade máxima. Ao mesmo tempo ele serve a mesa para os monges idosos.
 
Ter grandeza não é ser o maior.  O sentido e que aquele que detém o cargo hierarquicamente mais elevado tem o dever de ser o maior servidor. Este é o sentido desta nossa empreitada.
E assim sendo, quero agradecer a todos os vice-presidentes, diretores, conselheiros, membros de comissões e todos os colaboradores pela disponibilidade e comprometimento.
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