“Onde Bento ainda hoje refulge em milagres”
São Gregório Magno
O atual abade do antigo mosteiro beneditino retoma a sua história: os primeiros assentamentos monásticos de Bento, os tesouros artísticos e documentais, as peregrinações

Igreja do Sacro Speco

São Bento, nascido em Núrsia por volta de 480, foi enviado pela família a Roma para completar estudos que, provavelmente, o teriam inserido numa honesta carreira de funcionário público. O jovem, porém, desgostoso com o ambiente da cidade, marcada por profundas divisões civis e eclesiais, querendo “agradar somente a Deus”, como diz seu biógrafo, o papa São Gregório Magno (590-604), no Dialogorum libri II (prologus), pouco antes do ano 500 deixa a Urbe e se dirige para o “deserto” subiacense. Depois de uma primeira etapa na cidadezinha de Enfide, atual Affile, escolhe a gruta do monte Taleo, próxima do mosteiro do monge Romano, para adquirir, mediante a meditação da Sagrada Escritura, a oração e a penitência, a sabedoria que o tornará ignorante aos olhos do mundo mas sábio perante os olhos de Deus.
O mosteiro do monge Romano, estabelecido acima do Sacro Speco (“gruta santa”), chamava-se, e ainda se chama, São Biágio. Ao longo dos séculos, foi utilizado várias vezes como eremitério; hoje é habitado por uma comunidade de irmãs salesianas.
Depois de cerca de três anos de vida retirada, São Bento começou a reunir em torno dele muitos discípulos, que tiveram como primeira morada alguns galpões da Vila de Nero, situada mais abaixo, próximo da barragem que formava a vazão subiacense; surgia aí o mosteiro de São Clemente. Esses discípulos provinham de todas as classes sociais da época: rústicos, nobres do patriciado romano e até “bárbaros”.
Com o aumento do número de monges, São Bento os reuniu, segundo a simbologia do colégio apostólico, em doze pequenos mosteiros, cada um habitado por doze religiosos chefiados por um abade.
Conhecemos o nome de todos esses mosteiros, e de quase todos sabemos a exata localização. No entanto, não podemos dizer muito sobre a sua história, e é fácil imaginar que bem cedo desapareceram.
Entre estes se destaca o mosteiro de Santa Maria de Morrabotte, que se conservou através dos séculos, habitado por eremitas ou pequenos núcleos de monges, sempre mantendo forte relação com o cenóbio subiacense. Em especial, ali viveu um grande eremita, no século XIII: o Beato Lourenço Loricato (†1243), famoso pela austeridade e pela heroicidade de sua vida penitente. Esse lugar, conhecido também como mosteiro ou eremitério do Beato Lourenço, continuou a exercer um fascínio todo especial mesmo recentemente, e ali encontraram um refúgio de oração e inspiração personagens não só do mundo monástico. Lembro, entre estes, Dom Giussani, que gostava de frequentar o eremitério com seus jovens; ou o pintor americano Bill Congdon, que escolheu o eremitério para retiro espiritual e lugar decisivo para sua produção artística.
Depois da partida de São Bento para Monte Cassino, que se deu por volta de 529, a vida monástica subiacense se concentraria cada vez mais no mosteiro de São Silvestre, instalado um pouco acima de São Clemente, num lugar rico em água, mas menos úmido e mais exposto ao sol. Esse mosteiro, que em seguida se chamaria Santa Escolástica, desenvolveu-se progressivamente até assumir sua configuração atual. A evolução de suas construções acompanhou as características físicas do monte Taleo: o primeiro núcleo do mosteiro ficava no amplo espaço atualmente ocupado pelo pátio da Assumpta; na fase seguinte, entre os séculos VIII e IX, o edifício se desenvolveu para o sul, em direção à orla do vale: esse é o núcleo românico, coroado com a edificação da torre campanária do abade Humberto, em 1052, e com o claustro feito pelos arquitetos Cosmati, do século XII. Em seguida, o mosteiro ampliou-se para o oeste, com a construção do claustro gótico dos séculos XIV e XV e, enfim, com o acréscimo do claustro renascimental iniciado no século XVI pelo abade Cirilo de Montefiascone (1577-1581). Recentemente, as partes do mosteiro que dão de frente para Santa Escolástica foram reformadas e abrigam uma ampla hospedaria. Essa evolução secular e a concatenação dos mais variados modelos arquitetônicos nesse edifício fizeram o papa Paulo VI exclamar: “Este mosteiro é um museu de arquitetura”.
É impossível resumir a história do cenóbio de Subiaco em poucas linhas: certamente, a partir do século IX, foi um protagonista indiscutível da história do Médio Lácio e, de modo particular, do alto vale de Aniene. A comunidade monástica e os abades, não obstante o vaivém da história, exerceram sobre as populações desse território profunda influência espiritual, cultural e social, cuja expressão concreta pode ser vista em algumas instituições. Quero mencionar especificamente a biblioteca e o arquivo subiacense, que ainda hoje são um instrumento indispensável para compreender a identidade da população da região. Por volta do século XV, a biblioteca possuía cerca de dez mil manuscritos, posicionando-se, assim, entre as maiores da época, e o scriptorium já ostentava uma secular e notável atividade. O arquivo ia reunindo, como poeira fecunda, milhares e milhares de documentos que ainda hoje narram não apenas a vitalidade da história monástica subiacense, mas também a de uma terra, naquela época, rica e populosa. Nesse contexto, em 1464, chegaram a Subiaco dois clérigos alemães, Conrado Sweynheym e Arnoldo Pannartz, especialistas na novíssima arte tipográfica, e ali, em 29 de outubro de 1465, terminaram a impressão do celebérrimo Divinae institutiones, de Firmiano Lattanzio, o primeiro livro impresso na Itália.
Seguindo o itinerário dos Diálogos gregorianos, que, depois de descreverem a vida de São Bento em Monte Cassino, voltam ao Speco, onde “ainda hoje […] ele refulge em milagres” (Dialogorum libri II, 37), quero também voltar até lá, onde tudo começou.
Pouco sabemos do destino dessa gruta depois da descida de São Bento para a Vila de Nero. Segundo a tradição, nas suas proximidades continuaram a viver eremitas e para lá subiram peregrinos atraídos pela fama de santidade daquele lugar. Já no século IX admiráveis afrescos ornavam aquelas paredes rupestres, como testemunham vestígios da chamada gruta dos pastores. Por volta do século XI, começaram a ser construídos edifícios mais amplos e, enfim, a partir do século XIII, uma pequena comunidade passou a morar ali estavelmente, sempre mantendo-se em relação com a comunidade de Santa Escolástica e sob a direção do abade subiacense. Os edifícios assumiram bem cedo a grandiosidade que ainda hoje podemos admirar, e ao longo do tempo se enriqueceram de uma série de ciclos afrescados que constituem uma expressiva e esplêndida celebração da vida e da glória do santo de Núrsia, hoje venerado como patrono da Europa.
Quantos peregrinos e devotos subiram até lá! Deles restam vestígios nos milhares de rabiscos que ornam os afrescos, na verdade deturpando-os, mas que querem expressar o afeto e o desejo de pôr-se sob a proteção de São Bento no lugar que Petrarca definiu justamente como “limen paradisi”, e que contou sempre com a proteção de papas insignes, entre os quais Inocêncio III, cuja imagem se destaca na parte inferior da igreja do Sacro Speco.

Padre Mauro Meacci – http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=23506

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