Monges do Mosteiro Cisterciense de Tibhrine foram sequestrados e decapitados por muçulmanos em 1996

“Pensando naquele evento, é curioso, mas não sinto nem ódio nem amargura. O filme? Tocou-me profundamente. Emocionou-me rever o que vivenciamos juntos. Mas, acima de tudo, senti uma espécie de plenitude, porém nenhuma dor. Considerei o filme muito belo porque sua mensagem é verdadeira, embora nem sempre exato com respeito àquilo que realmente sucedeu. Mas isso é pouco importante. O essencial é a mensagem. E este filme é um ícone. Um ícone diz muito mais do que aquilo que se vê…”.

Palavra de frei Jean-Pierre, de 88 anos, único sobrevivente dos monges cistercienses do mosteiro de Tibhrine, na Algéria. Vivam ali nove irmãos, segundo a regra: silêncio, oração e trabalho. Em 1996, no momento mais duro da guerra civil entre a Gia islâmica e as forças governamentais, sete coirmãos foram sequestrados. Meses após, suas cabeças decapitadas foram encontradas na beira de uma estrada. Da comunidade salvaram-se somente dois monges: um está morto, e o último, precisamente Jean-Pierre, vive ainda na África, num convento de Midelt, no Marrocos, para onde foi levada a imagem de Nossa Senhora do Atlante, que antes era venerada em Tibhrine.

Veja a reportagem  de Alberto Mattioli publicada pelo jornal La Stampa, 08-02-2011.

Uma tragédia remota mas não esquecida, graças a Des hommes  et des dieux (Homens e deuses) o filme de Xavier Beauvois, rodado em setembro entre um ceticismo generalizado e que, ao invés, na França permaneceu por quatro semanas à frente no Box Office, teve mais de três milhões de espectadores e onze nomeações ao César, o Oscar franceses. E comoveu qualquer um que o tenha visto, incluindo Jean Pierre, o qual, aliás, só descobriu sua existência depois que lho mandaram: “O fato de ser conhecido me perturba. Um monge é feito para ficar escondido”. Agora Jean-Pierre, por primeira vez, fala para o Fígaro Magazine uma entrevista daquelas que te obrigam não só a ler, mas a refletir.

O dia decisivo foi o da noite de Natal de 93, quando pela primeira vez os terroristas “visitaram” o mosteiro no término de um lento e inexorável aumento de ameaças e intimidações. O prior lhes disse em árabe: “É a festa do nascimento do príncipe da paz”. E eles saíram dizendo: “Voltaremos”. Os monges podiam escolher: ou ir embora e salvar a vida, ou permanecer e arriscar a morte. Escolheram permanecer. “Por fidelidade à nossa vocação, sabendo bem o que podia suceder”.

De resto, aquela era a sua casa. “Não esquecerei jamais – conta Jean-Pierre – aquele 19 de setembro de 1964, quando montados em dois cavalos chegamos ao mosteiro. Ainda vejo o rapazinho em cima de um burro que veio ao nosso encontro para acolher-nos. Eu me sentia muito feliz. De minha pequena cela eu via o claustro, o jardim e, ao longe, a aldeia. Então eu me disse: eis a paisagem que contemplarei até o fim de minha vida. Porque no meu coração era para toda a vida. Sem retorno. Lá permaneci durante 32 anos, de 1964 ao seqüestro de 96.”

Christian de Chergé, o prior, fazia a “lectio divina” com uma Bíblia em árabe e às vezes fazia a meditação com o Corão. E o Padre Luc administrava o dispensário, cuidando gratuitamente de todos, cristãos e muçulmanos, “até 80 pessoas por dia”. Foram degolados ambos, junto com os outros. Na noite do seqüestro os dois que se salvaram o devem à rapidez de espírito do guardião, que aos terroristas respondeu que sim, os frades eram somente sete. Naquela ocasião, Jean-Pierre não se deu conta de nada: “A pergunta que me fiz imediatamente é: se os tivesse ouvido, o que teria feito? Teria permanecido ou deveria ter corrido atrás deles para ir com eles?”

Os dias seguintes foram dias de angústia. A notícia que os monges tinham sido assassinados chegou dois meses depois. “Estávamos recitando as Vésperas. De repente um jovem coirmão entrou na capela e se lançou por terra gritando e chorando em seu desespero. Eu lhe disse: é preciso viver isso como algo muito belo, muito grandioso. É preciso ser dignos disso. E a missa que celebraremos por eles não será em cor negra. Será em vermelho”. O vermelho, a cor dos mártires.

Hoje Jean-Pierre recorda do seguinte modo os seus irmãos: “Aquilo que vivenciamos juntos tem sido uma ação de graças. Tenho certeza que estão junto de Deus. Isto gera alegria, não tristeza. Como dizia Christian, a esperança é invencível”.

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