Maria, a primeira dentre todas as criaturas

Anunciação - Fra Angélico

Apresentação do comentário de Tomás de Aquino

À Saudação Angélica*

Prof. Dr. Francisco Catão

Palestra proferida na aula inaugural do ano letivo de 2011 da Faculdade de São Bento de São Paulo

Agradeço o convite, que muito me honra, de estar inaugurando o curso de teologia na Faculdade São Bento, que funciona há dois anos, mas que começa neste semestre já aprovado também pelo MEC.

A iniciativa de Dom Abade, em janeiro de 2009, tinha como objetivo claro abrir um curso de teologia na esteira da teologia monástica. Teologia que se praticou durante séculos nos mosteiros de tradição beneditina. Sua importância não só é hoje plenamente reconhecida, como inspira uma série de novas formas de estudo e pesquisa, das mais promissoras. Está em continuidade com a valorização da lectio divina, dando ênfase à Palavra de Deus, desde a primeira formação teológica, no nível que hoje denominamos, da graduação.

Como tema para essa aula inaugural, foi sugerida a leitura da Exposição de Tomás de Aquino sobre a Ave Maria. Tomás, que se formou no mosteiro de Monte Cassino, em que se praticava a teologia monástica. Radicado na Palavra de Deus, atuou como dominicano na universidade. Sua grandeza como teólogo é tributária dessa dupla fonte em que se alimenta, tendo sabido, radicado na teologia monástica, fazer frente a todos os desafios da teologia universitária.

O professor Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento, profundo conhecedor da Idade Média, acaba de situar o comentário de Tomás à Ave Maria no conjunto de sua obra, ressaltando a importância que reconhece à Sagrada Escritura; a índole ternária do desenvolvimento do texto, imagem da Trindade, por certo, mas que não deixa de ser uma forte característica do pensamento tomasiano, que vai além da dialética binária e procura sempre, na transcendência, a superação da superficialidade das oposições; finalmente a idéia de um mundo hierarquizado, herdada do famoso pseudo-Dionísio, mas que hoje se traduziria pelo esforço de compreender a diversidade na unidade.

 

Aproveita-se a ocasião para lançar a Ave Maria Expositio, com que a Editora Musa nos presenteia em caprichosa edição bilíngue, vem enriquecida de notas, com complementos cuidadosos e precisos do tradutor, Omayr José de Moraes Júnior. Salienta-se o alcance das considerações aparentemente singelas do Doutor Angélico, situando-as nas preocupações teológicas de seu tempo e do nosso.

Na orelha, o tradutor, faz longa e piedosa menção a Dom Odilão de Borba Moura, monge do Rio de Janeiro há pouco falecido (11/11/2010), grande amante e tradutor de Tomás de Aquino, a quem presta merecida homenagem.

Não poderia deixar de relembrar, antes de tudo, a figura de Dom Odilão. Conheci Telmo Bello de Borba Moura, quando ainda estudante de Direito no Rio de Janeiro. Papai era o seu responsável, enquanto cursou a Faculdade. Vinha frequentemente nos visitar. Entrou para o Mosteiro na mesma época em que muitos universitários deram o mesmo passo, enriquecendo a comunidade então presidida por Dom Tomás Keller. Foi no dia de sua primeira missa. 8 de dezembro de 1944 que decidi eu mesmo, universitário, entrar no Mosteiro. Convivi com ele, como irmão mais velho, durante cinco anos. Ensinou-me a valorizar o texto de Tomás de Aquino. Compartilhamos o resto da vida desse amor, e por isso o relembro nesse momento.

A maioria dos grandes temas tomasianos está mencionada nas notas, inteligentemente distribuídas entre observações explicativas do texto e aprofundamento das posições doutrinárias assumidas por Tomás.

Permitam-me, no entanto, ler mais de perto o próprio texto e chamar atenção para seu aspecto central, cuja importância nos é difícil apreciar nos dias de hoje: as razões pelas quais, Maria, na Sagrada Escritura, deve ser colocada acima de todas as criaturas, como superior aos anjos, apesar de simples mulher: Maria é a Rainha dos anjos, Regina angelorum, como a invocamos na liturgia.

 

O texto tomasiano

A saudação angélica comporta três partes, atribuídas respectivamente ao Anjo: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo (Lc 1,28); a Isabel: Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto de teu ventre (Lc 1,42) e à Igreja: Maria.

O ponto de partida de Tomás é a surpresa, quase escandalosa, de ver como um anjo, ser perfeito, confirmado em graça, que vive na intimidade de Deus, esplendoroso e belo, saúda uma jovem judia de Nazaré, reconhecendo sua superioridade, ao dizer Ave, cheia de graça. Como entender que um ser, que, segundo as Escrituras, supera todas as criaturas materiais por sua dignidade, sua familiaridade com Deus e pela plenitude do esplendor espiritual, possa se inclinar diante de uma criatura humana, de uma simples mocinha, apenas saída da adolescência?

A afirmação de fé, fundada na autoridade do Evangelho de Lucas, só se explica também pela fé: Maria é superior aos anjos por sua dignidade, familiaridade com Deus e por sua pureza, isto é, pelo esplendor e pela beleza de seu ser, como jovem mulher.

A superioridade de Maria se explica quanto à sua alma, seu corpo e pelo papel que foi chamada a desempenhar. Sua alma, muito próxima de Cristo, que tem a plenitude das virtudes, está também ornada com todas as virtudes, pelas quais nos serve de exemplo. Mais ainda, assim como Cristo, Filho de Deus, não podia pecar, Maria foi libertada de todo pecado e mesmo de toda mancha do pecado original, no momento mesmo de sua concepção. Apegado às realidades da história, Tomás raciocina como teólogo a partir dos fatos. Mas tarde, depois de se introduzir uma forma de fazer Teologia a partir da idéia de Deus, em continuidade com a tendência platônica que prevaleceu na tradição franciscana, Duns Scoto (†1308) vai dizer que Maria foi preservada da mancha do pecado original, fórmula que permitirá a definição do dogma da Imaculada Conceição em 1854.

Mas a plenitude de graça de Maria não se limitava à sua alma, redundava sobre seu corpo, pois a tornou digna de conceber o Filho de Deus. Temos hoje uma certa dificuldade em entender exatamente em que consiste essa redundância da graça sobre o corpo, mas não se pode negar, que a maternidade divina de Maria, aos olhos da fé, nos desperta para uma riqueza da graça que hoje nos escapa. Não há dúvida, porém, de que esta extensão da graça ao corpo é um privilégio de que não se podem vangloriar os anjos…

Também não se podem vangloriar do fato de que, unida a Cristo e na inteira dependência da graça de Cristo, a graça de Maria visa à salvação do mundo inteiro. Mãe da Cabeça, Maria é também Mãe do Corpo de Cristo, nossa Mãe, Mãe da Igreja como o proclamou Paulo VI em 1964, entendendo que é Mãe de todos os humanos.

Cheia de graça, superior aos anjos, Maria o é, também, pela familiaridade que tem com Deus. Tomás discorre então com tranquilidade: familiaridade que tem com Deus Pai, tendo os dois em comum o mesmo e único filho. Sinal e laço de intimidade única da mulher com o pai de seu Filho único!

Familiaridade com Deus Filho, pois o trouxe em seu ventre durante nove meses e o acompanhou desde o primeiro balbuciar, durante toda a vida, desde quando inaugurou sua missão, percorrendo as cidades da Galiléia, até o momento derradeiro da cruz.

Familiaridade com o Espírito Santo, de que Maria é o Templo, vivendo uma santidade impar, cujo mistério jamais poderemos inteiramente penetrar.

Cheia de graça, familiar com Deus, Maria está acima dos anjos pela sua pureza. Entendamos aqui, pela sua beleza, beleza espiritual, beleza de graça. A criatura é reflexo da beleza de Deus, apenas o pecado, com suas consequências, empana sua condição ontológica primeira e vela o esplendor de sua vocação. Maria é mais pura que os anjos nesse sentido pleno, é sem pecado.

Todos os humanos sofrem as consequências do pecado. As mulheres as experimentam na gestação e no parto, Maria gerou na paz e na alegria, que canta no encontro com Isabel e vive na noite de Natal. Os homens as experimentam no labor cotidiano, com o suor de nossa fronte, Maria vive, como as virgens, ocupada com as coisas de Deus e sua vida é um cântico de louvor. Mas, sobretudo, mulheres e homens estão expostas à corrupção de seu corpo, ao passo que Maria mereceu a incorruptibilidade, unindo-se ao corpo glorioso de seu Filho ressuscitado. Tomás fornece aqui o fundamento teológico da festa muito antiga da “dormição” da Virgem, cujo dogma da Assunção, foi solenemente declarado em 1950.

Daí que, ao recebê-la, grávida de João, e ao reconhecê-la como mãe do Salvador, Isabel a proclama Bendita entre as mulheres. Bendita porque cancelou a maldição que pesava sobre a humanidade, comenta Tomás. Bendita porque trouxe à terra a benção de Deus, seu filho Jesus. Bendita, enfim, porque nos abriu assim as portas do paraíso.

Isabel vai, porém, à raiz e à causa dessa benção ao proclamar: bendito o fruto de teu ventre. Tomás aproveita aqui para orquestrar um tema dos mais antigos, já desenvolvido por santo Irineu, no segundo século, a comparação entre Eva e Maria.

Eva querendo se igual a Deus, como lhe sugerira mentirosamente o demônio, comeu do fruto proibido, e ficou frustrada. Maria, através do fruto de seu ventre, nos alcançou a semelhança com Deus. Eva, movida pelo prazer, comeu do fruto, desobedecendo a Deus, Maria, pelo fruto de seu ventre, nos encaminhou, pela verdade e pela humildade, à suavidade da salvação. Eva deixou-se seduzir pela beleza ilusória do fruto, Maria nos oferece o fruto que é esplendor da glória do Pai.

Este em de fato, o fruto abençoado por Deus. Bendigam-no os anjos… Bendigam-no os homens… Bendita a Virgem… Mais bendito, porém é o fruto de seu ventre. Amém.

 

Considerações finais

 

O texto tomasiano é uma verdadeira corrente (catena) em que se articulam as mais variadas citações bíblicas. Nele se aprecia a força da exegese medieval, alimentada pela Palavra, nas muitas maneiras de dizer dos autores sagrados, que emprestaram seu talento literário ao Espírito Santo, autor principal e chave universal para a compreensão das Escrituras na sua unidade, como Palavra de Deus.

O foco de Tomás é o fato de que, surpreendentemente, no caso único de Maria, os anjos, sempre apresentados na Escritura como seres superiores, reconhecem a superioridade única de Maria, ao saudá-la por missão de Deus. Superioridade que compete a Maria em virtude de sua proximidade com Deus, e se traduz numa plenitude de graça e numa especialíssima familiaridade com Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

A doutrina aqui haurida das Escrituras vai orientar as reflexões de Tomás na sua análise das criaturas. Da realidade da graça aos segredos da natureza. Os anjos são, naturalmente, criaturas mais perfeitas que os humanos. São espíritos puros, transparentes à luz de Deus, vivem na intimidade com o Senhor, num ato primeiro e único de total adesão ao Bem. Comungam na vida do Pai, com o Filho, no Espírito Santo, sem tegiversação alguma, desde que consentiram em estar para sempre no degrau em que foram criados, dizendo um sim definitivo ao convite da graça que lhes foi feito ao serem chamados à existência. A vida angélica é uma vida de união com Deus, que mergulha para sempre no insondável mistério do Transcendente. É o que Tomás analisa nas catorze questões consagradas aos anjos na Suma Teológica (I,50-64)

Também os humanos somos chamados a esta mesma vida, desde a origem, de nossos primeiros pais. Mas Adão e Eva não disseram sim no tempo oportuno, o que explica as condições penosas que deles herdamos e em que até hoje vivemos. Para nos libertar do pecado e de suas penosas consequências, Deus enviou o seu próprio Filho como homem, para nos unir ao Pai no Espírito e merecermos como filhos, pelo seguimento de Jesus, a participação na vida dos anjos a que somos todos chamados.

A grandeza de Maria nasce do papel a que foi chamada desempenhar nesse conjunto. Não se baseia na perfeição de seu ser humano, como mulher, mas no dom gratuito de Deus, cuja perfeição se mede pela proximidade com Deus e pelo afastamento do pecado e do mal. Na ótica de Deus, ótica da graça, mais do que da natureza, Maria está muito acima dos anjos. Tomás se delicia em constatá-lo, a partir do testemunho minuciosamente analisado da Palavra de Deus.

A Encarnação do Verbo, de que Maria participa, numa proximidade única, como Mãe do Filho de Deus, gerado em seu seio por obra do Espírito Santo, introduz toda a humanidade numa nova relação com Deus. Relação de graça e de amizade, que se verifica inicialmente em Jesus, como homem, e brilha de modo singular em Maria, estendendo-se também a toda a humanidade.

Maravilhosa troca operada na Encarnação e realizada na Páscoa. Foram esses acontecimentos históricos, ou melhor, eventos divinos acontecidos na história, que nos possibilitam compartilhar com os anjos a vida de Deus. A fé cristã reconhece e bendiz o autor de nossa salvação: Bendito o fruto de teu ventre, em cuja benção se sustenta na saudação angélica, em que Maria é bendita entre as mulheres, como o explica Tomás no fim de sua Exposição.

De fato, vinculada a Jesus, Maria está acima dos anjos. Por natureza os humanos, homens e mulheres, somos inferiores aos anjos. Por graça, entretanto, o homem Jesus, Filho de Deus e santo entre os santos, é Senhor Altíssimo. Sua mãe, Mãe de Deus, Maria está acima dos anjos e é a primeira entre todas as criaturas, materiais e espirituais, visto que, como Mãe de Deus, relaciona-se pessoalmente com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Lida nessa perspectiva, a Exposição de Tomás comporta três grandes lições:

Primeiro, que a grandeza das criaturas, como todos os valores do mundo e de nossa vida, é grandeza que se mede pela relação que se entretém com Deus, seja na ordem do ser, seja na ordem do agir. Relação pessoal, cuja estrutura respeita a estrutura de nosso ser e de nosso agir, mas que, como laço pessoal, nos situa muito acima do lugar que ocupamos no universo como criaturas materiais.

Segundo que, na verdade profunda do nosso ser e aos olhos da fé, melhor compreendemos o que é o ser humano, à luz de Deus, comparando-os com os anjos. Estes são criaturas puramente espirituais, que vivem o drama existencial de todos nós, na sua épura, isto é, no simples dizer sim a Deus. A experiência angélica, vivida em perfeição por Maria, ao dizer sim a Gabriel, segundo a teologia de Lucas, em sua narrativa da Anunciação, é vivida por todos nós no decorrer de nossa existência, na medida em que, no dia a dia e nos menores acontecimentos de nossa existência, vivemos essa exigência do sim a Deus e do acolhimento de sua vontade.

Finalmente, em terceiro lugar, Tomás nos ensina que a única coisa que nos afasta do bem e nos mantém distantes de Deus é o pecado. Tudo nos é dado por graça. Que estejamos convencidos, teórica e praticamente, que a bem-aventurança vem da união com o Senhor, como nos ensina a Virgem bendita entre as mulheres, e acima de tudo, o bendito fruto de seu ventre. Amém.


* Santo Tomás de aquino, op. Ave Maria Expositio, Comentário à Ave Maria, in salutationem angelicam expositio. Tradução, introdução e notas de Omayr de Moraes Junior. São Paulo: Musa, 2010

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