Cansados de ouvir as mesmas promessas de fachadas restauradas e “revitalização”, famílias, empresas e profissionais desistiram de esperar e investem na região por conta própria. E você, o que tem feito pelo centro?

por Camilo Vannuchi e Victor Ferreira – Época São Paulo

Aspecto noturno do Centro paulistano

Décio e Joceli mudaram-se há um ano para o Copan, arranha-céu desenhado por Oscar Niemeyer no final da Avenida Ipiranga. Amam a possibilidade de fazer tudo a pé, mas ficam chateados com a presença de moradores de rua a poucos metros de seu prédio. Dona Laudelina trocou Itaquera pelo Centro há 30 anos, atraída pelo metrô. O que ela não gosta é de ver meninos de dez anos consumindo drogas a qualquer hora do dia. Fernanda trabalha desde 2004 em um escritório de advocacia na Rua Líbero Badaró. Admira o comércio farto, a diversidade social e a animada happy hour nos bons bares inaugurados recentemente na região. Quando não tem expediente, no entanto, prefere se divertir em bairros considerados mais seguros. Sem-teto há cinco anos, Gilson não deixa a Praça da República. Ali, encontra comida, gente disposta a dar um trocado e boa parte dos programas assistenciais mantidos por ONGs e igrejas. O inferno, ele diz, é acordar com pontapés desferidos, às vezes, por homens da Guarda Civil Metropolitana, a GCM (embora Gilson os considere uma garantia de que nenhum playboy ou skinhead ateará fogo nele durante a noite).

Décio, Joceli, Dona Laudelina, Fernanda e Gilson compõem o cotidiano desse universo que chamamos de Centro. Para conhecer suas histórias e as de outros paulistanos igualmente comprometidos – ainda que involuntariamente – com o presente e o futuro da cidade, Época São Paulo alugou um apartamento no início da Rua da Consolação e colocou dois repórteres para viver ali durante 30 dias. Sua missão era decifrar as facilidades e as adversidades de quem mora e trabalha na região, entender o que falta para que todos voltem a sentir orgulho do Centro e, em sucessivas visitas a secretários municipais e outras autoridades, conhecer os projetos que vêm sendo realizados na área. Nos mesmos 30 dias, eles mantiveram o blog CentroAvante, no qual revelaram deliciosas curiosidades do Centro e estabeleceram um caloroso diálogo com os leitores. Os vários comentários deixados no blog – alguns reproduzidos nas próximas páginas – confirmam: o Centro é mais bem equipado e seguro do que muitos acreditam e tem potencial para trazer de volta aqueles que, decepcionados com sua deterioração, optaram por fazer as malas anos atrás. O que falta, quase sempre, é parar de esperar um milagre do Poder Público e começar a agir. Quem ama cuida, diz um axioma muito conhecido – e pouco praticado – por aqui.

“VAMOS PARA A CIDADE”
O Centro é um lugar que não existe. Nunca existiu, assim, de se tocar com a mão. O que existe é a região central, com 31 quilômetros quadrados e oito distritos (da Santa Cecília ao Cambuci), chegando à Avenida Paulista e ao Parque da Aclimação. Não é a esse latifúndio que o paulistano se refere quando diz ter medo de ir ao Centro ou que o Centro está abandonado. Nesses momentos, em geral, ele se refere à área equivalente aos distritos Sé e República, delimitada a norte pelos trilhos da CPTM, a leste pela Avenida do Estado e a sul e a oeste pelo Minhocão. É nesse perímetro que, subitamente, o Centro que não existe ganha forma na memória afetiva da população e nas pranchetas dos urbanistas. Espalha-se pelo que, 20 anos atrás, era conhecido como Centro Velho (Sé) e Centro Novo (República) – e que nossos pais ou avós chamavam de “cidade”. “Vamos para a cidade”, convidava o morador da Lapa ou da Vila Mariana, antes de tomar o bonde rumo às butiques da Rua Barão de Itapetininga ou aos bancos da Rua XV de Novembro. Esse Centro, tão vasto de história, ninguém precisa tocar com a mão para existir.

A metrópole começou a virar as costas para ele antes mesmo de ser metrópole. Cem anos atrás, já havia quem se referisse ao Centro com reservas, preferindo estabelecer-se em uma chácara “afastada”, em Campos Elísios ou Higienópolis. Espaço de confluência de tribos e classes, o Centro foi sempre uma região barulhenta, dinâmica e apressada. “Em 1940, o maior problema do Centro já era o trânsito”, afirma o engenheiro aposentado Eduardo Fares Borges, de 89 anos – 43 deles dedicados ao Departamento de Estradas e Rodagem (DER). Já em 1950, a busca por qualidade de vida fez com que muitos transpusessem a Avenida Paulista em direção à pacata Zona Sul. Grandes bancos e empresas subiram o morro nas décadas seguintes e, dali, desceram em direção à Avenida Faria Lima. A “cidade”, a partir de 1960, foi cercada por obras viárias, como a Radial Leste e o Elevado Costa e Silva, que destruíram ruas e lhe bloquearam o acesso, contribuindo ainda mais para afastar a população. “A elite vai a Higienópolis, mas raramente transpõe o Minhocão, essa aberração que se tornou uma barreira real e simbólica entre os bairros”, diz a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik, relatora especial da ONU para o direito à moradia adequada. “Com a elite longe, o Poder Público abandonou o Centro definitivamente.”

Segundo Raquel, bairros como Sé e República passaram a ser vistos exclusivamente como locais de transbordo, um grande terminal convertido em território de passagem. Pouco foi feito para conter o esvaziamento dos prédios residenciais, ao mesmo tempo que a migração para a periferia (incluindo os endinheirados que lotearam o Morumbi e construíram grandes condomínios em Barueri) ajudou a gerar engarrafamentos. Preterido, o Centro se tornou, já em 1980, motivo de dor de cabeça para urbanistas e governantes.

PROBLEMA OU SOLUÇÃO?
“O Centro é um problema, você sabe”, disse um funcionário da prefeitura num quase desabafo captado pela reportagem em meados de maio. Dois dias depois, uma frase muito parecida na forma, mas oposta no conteúdo, foi dita pelo superintendente da Associação Viva o Centro: “O Centro é solução”, afirmou Marco Antonio Ramos de Almeida, referindo-se à necessidade de se conter o trânsito e a expansão urbana. Executivo do Itaú, que adquiriu o BankBoston, onde a associação foi elaborada há 19 anos por iniciativa do então presidente Henrique Meirelles (hoje à frente do Banco Central), Almeida diz que o Brasil tem experiência em inaugurar prédios, mas não em geri-los. “O governo inaugura uma escola e, em seis meses, não tem giz para as aulas”, afirma. “Nosso trabalho é oferecer expertise para viabilizar programas e zelar pela manutenção do Centro.”

Uma das reclamações mais comuns de quem vive por ali é justamente a falta de manutenção: calçadas esburacadas, bueiros entupidos, iluminação insuficiente, pouco apuro no recolhimento de resíduos, mau cheiro. Por esse motivo, uma equipe de 18 zeladores da Viva o Centro percorre diariamente, das 6h à meia-noite, o triângulo formado pelo Largo São Francisco, a Praça da Sé e o Largo São Bento, registrando inconformidades e alertando os serviços de ouvidoria da administração municipal. “O Centro mereceria ter um gestor dedicado full time a ele, inclusive para fazer a interface entre as secretarias”, diz Almeida.

Em muitas secretarias, sobram programas voltados para a região. O prefeito Gilberto Kassab, nos bastidores, tem insistido que a requalificação do Centro virou prioridade em sua gestão. Recentemente, voltou a afirmar seu compromisso durante a Virada Cultural, que, segundo estimativa oficial, atraiu 4 milhões de espectadores à área central entre os dias 15 e 16 de maio. Só a Secretaria da Cultura, que promove a virada, promete reinaugurar até dezembro a Biblioteca Mário de Andrade, em reforma desde 2007, e o Teatro Municipal, repaginado para celebrar 100 anos em 2011. Também prevê inaugurar a Praça das Artes, na esquina da Avenida São João com o Vale do Anhangabaú, que será a sede da orquestra e do balé municipais. Na margem oposta do vale, em meio ao calçadão, serão instalados quiosques e um sistema para a projeção de filmes sobre uma parede de água (um moderno chafariz em linha reta fará as vezes de tela). Prevê, ainda, implantar um circo-escola no Largo do Paissandu e recuperar importantes salas de cinema dos anos 1950, hoje fechadas ou convertidas em cine pornô. “Estamos concluindo a desapropriação do Art Palácio, onde faremos um espaço para shows”, diz o secretário Carlos Augusto Calil. “A desapropriação do Cine Ipiranga está adiantada, e, em dois anos, teremos ali o Cinema Municipal, com vocação para receber grandes mostras e eventos.”

No ano passado, o Centro ganhou de volta o Marabá, outro ícone da Cinelândia paulistana, transformado em cinco salas pelo arquiteto Ruy Ohtake. Sua reinauguração foi bem recebida por aqueles que reconhecem o papel da iniciativa privada na promoção de melhorias para um bairro, qualquer que seja ele. O Marabá, adquirido pela PlayArte, veio se somar a outros empreendimentos que, hoje, confirmam a demanda por novos espaços de lazer, cultura e gastronomia na região. O Bar Brahma, vizinho ao cinema, é um dos mais bem-sucedidos exemplos dessa retomada. Reaberto há oito anos, o bar, fundado em 1948 (e que havia fechado as portas em 1990), tem ocupação superior a 80% todos os dias, no almoço e à noite, apesar de cobrar R$ 60 de couvert para as atrações musicais. Na mesma avenida, o Bar da Dona Onça, inaugurado em 2008, se firmou como um dos mais bem avaliados botecos chiques da cidade. Mais além, os teatros instalados na Praça Roosevelt nos últimos dez anos conseguiram criar um importante polo cultural num local antes abandonado. “A revitalização já aconteceu”, diz Gualberto Costa, dono da HQ Mix, uma livraria no local. “Aqui era um antro de bandidagem e hoje tem uma efervescência boêmia semelhante à que ocorreu anos atrás na Vila Madalena”, afirma. A demolição de uma estrutura de concreto que desfigurou a Praça Roosevelt nos anos 1970 deve começar em junho, segundo a prefeitura, e atrair um público ainda maior.

DEIXA QUE EU DEIXO
Todos esses estabelecimentos atendem a um público com alto poder aquisitivo e vingaram a despeito da projeção negativa que seus proprietários cansaram de ouvir. Hoje, esse movimento de adoção do Centro pela iniciativa privada tem contribuído para vencer a inércia que caracteriza o ciclo de esvaziamento da região. Sem uma boa padaria perto de casa, o designer Décio Almeida, 40 anos, e sua mulher, Joceli, 35, apresentados na abertura desta reportagem, talvez não tivessem se mudado para a República, da mesma forma que a advogada Fernanda Santo, de 25 anos, não teria aonde ir com a turma do trabalho se não houvesse bares como o Salve Jorge perto do escritório. Até pouco tempo atrás, os empreendedores que poderiam investir na região preferiam adiar seus planos para quando as classes média e alta estivessem de volta, ao mesmo tempo em que as classes média e alta resistiam a se mudar para lá enquanto não houvesse novos bares, restaurantes e supermercados. Sob a vigência desse “deixa que eu deixo”, quem ousou dar um passo à frente não reclama.

Presidente da União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo (Uniesp), Fernando Costa decidiu instalar um campus universitário no Largo do Café em 2005. Começou com 300 alunos em um prédio alugado e hoje tem 8.500, distribuídos por quatro edifícios na Rua Álvares Penteado e um quinto na Rua Conselheiro Crispiniano. Costa notou que o Centro era carente de instituições de ensino superior e, se cobrasse mensalidades modestas, conseguiria atrair boa parte das pessoas que trabalham ali. “É provável que eu não estivesse estudando se precisasse enfrentar a hora do rush para chegar à escola depois do serviço”, diz o vendedor David Macedo, 21 anos, que trabalha na Praça da Sé e cursa administração. Em cinco anos, os alunos da Uniesp foram responsáveis por ampliar o horário de funcionamento do comércio e a oferta de serviços ao redor do campus. “Nada ficava aberto depois das 19h por aqui”, diz. “Hoje, tem música ao vivo quase toda noite e os bares ficam cheios até o fechamento do metrô.”

Quem passeia pelos calçadões das ruas São Bento e Álvares Penteado encontra uma dezena de shows simultâneos, de sertanejo universitário em bares com mesas de plástico a chorinho e MPB em locais mais sofisticados. No Café dos Bancários, inaugurado em março no Largo do Café, é possível se surpreender com um duo de trompete e violão. Esses serviços também foram favorecidos pela instalação de um campus da Universidade de Guarulhos dentro do Shopping Light, na Praça Ramos de Azevedo, onde estudam 600 alunos desde 2008, e pela mudança de 14 mil funcionários públicos para o Centro desde o início da década, em razão da transferência da prefeitura e de diversas secretarias, entre elas a da Cultura, a do Planejamento, a do Desenvolvimento Urbano e a de Habitação.

 MORAR NO CENTRO
Atrair moradores é, hoje, o principal desafio de quem pensa políticas públicas para esse pedaço da cidade. Especialistas insistem que o aumento da segurança e a conservação do patrimônio só virão quando se reverter o decréscimo populacional. Entre 1991 e 2009, a Sé perdeu 21% de seus habitantes, segundo estimativa da Fundação Seade, passando de 27,2 mil para 21,5 mil. Na República, com maior vocação residencial, a redução foi de 25%: caiu de 57,8 mil para 43,3 mil moradores. “A única política continuada que a cidade viu para a área central foi a de construir grandes equipamentos culturais”, diz o cientista político Eduardo Marques, professor da USP e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole, referindo-se a marcos como a Pinacoteca e a Sala São Paulo. “Melhor seria focar a questão habitacional, sem destinar toda a área para os ricos ou somente para os pobres, mas mesclando a classe média com gente de menor poder aquisitivo”, afirma.

Segundo a urbanista Raquel Rolnik, o caráter excludente de muitas políticas tem inviabilizado melhoras mais efetivas (e rápidas). “Seria razoável se as autoridades assumissem o Centro como território heterogêneo, como Lapa, Pinheiros e muitos bairros da Zona Leste, e promovessem políticas de incentivo à requalificação de edifícios antigos, em vez de estimular apenas novas construções”, diz. Por enquanto, as melhores iniciativas habitacionais na região seguiram a linha proposta por Raquel. No Hotel Comodoro, por exemplo, uma reforma iniciada no final de 2008 tem transformado as antigas suítes em 142 quitinetes, de 70 metros quadrados. “Hoje, com as obras no final, há apenas 28 unidades disponíveis”, diz Carmen Carvalho, conselheira da corretora Imóveis no Centro, responsável pela comercialização. A empresa, que atuou em outras reformas semelhantes, apresenta números animadores para quem optou por investir no Centro. “Uma quitinete de 30 metros quadrados que custava R$ 25 mil está sendo vendida por R$ 110 mil”, afirma Carmen, citando o financiamento da Caixa e a inclusão desses imóveis no programa Minha Casa, Minha Vida como aliados.

Agora, um movimento semelhante começa a ser retomado pela prefeitura. No início do ano, a Cohab anunciou a desapropriação de 53 imóveis vazios nos distritos Sé e República para convertê-los em moradia. O financiamento para quem ganha até seis salários mínimos será estendido a quem recebe até dez salários, uma vez que os projetos incluem a construção de apartamentos com dois dormitórios, que, segundo a própria Cohab, poderão atrair interessados com renda mais alta. “Faremos a licitação para as obras ainda neste ano e entregaremos todos os prédios até 2012”, diz o presidente, Ricardo Pereira Leite. Quem já possui imóvel na região, comercial ou residencial, pode se beneficiar de uma lei de 2007 e ganhar isenção de IPTU durante dez anos se reformar a fachada. A Bovespa, o Centro Cultural Banco do Brasil e a Bio Ritmo da Rua XV de Novembro foram algumas das empresas contempladas.

Uma característica comum à maioria dos prédios no Centro, e a todos os 53 incluídos no programa da prefeitura, é a ausência de garagem. Isso pode restringir o interesse nesses imóveis a quem se dispuser a abrir mão do transporte individual ou a locar uma vaga em um estacionamento. Em média, cobram-se R$ 180 mensais por uma vaga. As áreas de estacionamento público são tão escassas que a Secretaria dos Transportes prevê a construção de três edifícios-garagem na região, com 400 vagas de zona azul vertical cada um. Ainda sem previsão de início das obras, eles deverão ser erguidos junto ao Teatro Municipal, ao Pátio do Colégio e ao Mercado Municipal.

NOVA LUZ PARA TODOS
“O que mais me entristece aqui é o crack”, diz Luiz Calanca, dono da loja de discos Baratos Afins, em funcionamento na Galeria do Rock há 32 anos, e voluntário na Associação Viva o Centro. O desabafo de Calanca reflete uma aflição muito comum em quem mora ou trabalha na região: o que fazer com a população em situação de rua, principalmente com os dependentes de álcool e drogas? Estima-se a existência de 4 mil moradores de rua no Centro. É ali que eles encontram maior oferta de comida, água, segurança e companhia. Quase a metade dessa população vive uma situação ainda mais delicada, em razão do vício. Para esses, não bastam os asilos e as “tendas” – espaços de convivência com chuveiros, sabonete e toalhas, onde oficinas culturais prometem um início de socialização. É preciso monitorar, acompanhar esses dependentes e, aos poucos, convencê-los a buscar tratamento, uma vez que toda internação involuntária é descartada pelo poder público municipal. Por esse motivo, os resultados são tímidos. Desde junho de 2009, quando a Secretaria de Saúde lançou o programa Centro Legal, com 27 equipes multidisciplinares dedicadas a prestar assistência a esse público, foram registrados 4.463 encaminhamentos – que incluem atendimentos ambulatoriais em razão de pneumonias ou convulsões, entre outras doenças – e 240 internações. Mas poucos se dispuseram a iniciar um tratamento de reabilitação e, entre os que o fizeram, muitos voltam para a rua em sucessivas recaídas.

Parte dessa população concentra-se no limite de República e Campos Elísios, área também conhecida como Cracolândia e rebatizada de Nova Luz. Para aquele pedaço, está planejada não apenas a atração de moradia, mas também de empresas, numa operação urbana que pretende, a partir do ano que vem, repaginar completamente o local, a partir de uma ferramenta de gestão chamada concessão urbanística. Uma licitação entregará a área a um consórcio que, sob supervisão da prefeitura, poderá desapropriar o que convier em um quadrado que liga a Avenida São João à Praça Júlio Prestes e a Avenida Ipiranga à Avenida Duque de Caxias. Esse processo será orientado por um projeto urbanístico a ser elaborado, nos próximos meses, por outro consórcio – este já licitado e liderado pela Aecom Technology Corporation, autora do plano de reurbanização destinado a recepcionar as Olimpíadas de Londres, em 2012, e da revitalização do Centro de Manchester, na Inglaterra. “Um quarto da área será destinada a moradia popular”, diz o secretário de Desenvolvimento Urbano, Miguel Bucalém. “No resto, caberá ao consórcio propor um plano de ocupação que garanta a presença de serviços, áreas verdes e espaços atraentes para empresas.”

Há pelo menos 20 empresas interessadas em se instalar na região, segundo o secretário de Planejamento, Rubens Chammas. Foi esse o número de empresas que se habilitaram, em 2007, para receber de volta até 80% do total a ser investido na Nova Luz por meio de descontos anuais no ISS e no IPTU. O programa, previsto em edital, selecionou iniciativas nas áreas de comunicação e tecnologia antes mesmo de se confirmar o projeto do novo bairro. “Se não houvesse esses incentivos e se a gente não acreditasse na recuperação da área, teríamos nos instalado na Vila Madalena”, afirma Celene Marrega, diretora da agência de publicidade Fess’Kobbi, com 70 funcionários, instalada na Rua do Triunfo desde 2005 e pioneira ao receber, em maio, as primeiras parcelas dos benefícios. Entre as demais empresas habilitadas, está a IBM, que prevê alugar um prédio de 21.000 metros quadrados e gerar 1.250 empregos no local em parceria com outra empresa, e o Instituto Moreira Salles, decidido a instalar um centro cultural. “Dará certo se a população que ainda reside no local tiver garantido seu direito à cidade”, diz o arquiteto Kazuo Nakano, do Instituto Polis. “Mas será uma agressão se essa gente não for absorvida pelas moradias de interesse social previstas e se o comércio que se estabelecer ali não for acessível à baixa renda.”

ABAIXO O ELEVADO
De todas as intervenções programadas, a mais surpreendente foi a proposta apresentada no início de maio para demolir o Elevado Costa e Silva. O projeto não é novo. Propostas semelhantes surgem desde que o Minhocão foi construído. Já em 2005, o arquiteto Michel Gorski havia apresentado ao então prefeito José Serra o projeto de se aproveitar o amplo terreno que ladeia os trilhos da CPTM para abrir uma avenida capaz de absorver o fluxo Leste-Oeste, o que possibilitaria à cidade prescindir dos 3,5 quilômetros do Minhocão. A novidade, agora, é a transformação do trem em metrô, fazendo aumentar o espaço disponível na superfície, onde, segundo o projeto, será construída uma “via-parque”, com ciclovias dos dois lados e um canteiro muito bem arborizado.

Quem mais aplaude a proposta é quem vê a “aberração” de concreto da janela de casa e teve seus imóveis desvalorizados em razão dela. “Esse prédio tem cinco andares, todos vazios”, diz o zelador José Levindo, de 78 anos, que mora em um pequeno apartamento na cobertura do mesmo edifício comercial em que trabalha, na esquina da Rua Amaral Gurgel com a Rua General Jardim. “Os interessados vêm visitar, abrem a janela, calculam o barulho e vão embora na hora”, afirma Levindo, um dos personagens apresentados no documentário Elevado 3,5, que estreia nos cinemas no dia 4 de junho. Sua esperança é que essa e outras promessas saiam do papel para a realidade. E que o Centro volte a ser a casa e o escritório de cada vez mais gente – que saberá aproveitar a região como fazem Décio, Joceli, Dona Laudelina, Fernanda e Gilson.

Saiba o que acontece no Centro de São Paulo por meio da Associação VIVA O CENTRO: http://www.vivaocentro.org.br/

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