Cristãos no mundo

O não ser clérigo define o leigo?

Os mártires cristãos dos primeiros Séculos

O “Congresso de Leigos”, realizado na Arquidiocese de São Paulo de 25 de janeiro a 21 de novembro, deu lugar a que se exprimissem, sob a conduta de bispos e sacerdotes, inúmeros movimentos, comunidades e grupos de leigos, manifestando sua forma de entender a presença e a ação dos cristãos no mundo, quer pelo testemunho da vida, quer pela ação evangelizadora.

Todos reconheceram também, a começar pelo próprio Cardeal Arcebispo Dom Odilo Pedro Scherer, que o Congresso longe de se concluir no seu encerramento, foi o lançamento de um processo: através das propostas ratificadas, uma iniciativa chamada a abrir novas pistas para o conjunto da atividade cristã em São Paulo, marcando o esforço da Igreja na Nova Evangelização, senão do mundo, pelo menos do país e do continente latino-americano, em continuidade com a Conferência de Aparecida de 2008.

Compete-nos a todos, a começar pelos que, por profissão, têm o dever de perscrutar a Palavra de Deus, refletir sobre a rica experiência do Congresso, ao buscar os esclarecimentos necessários à vida e à missão dos cristãos nos dias de hoje.

Sob esse ângulo, um dos pontos mais salientes, refere-se à própria noção de leigo. O Congresso expôs diversas concepções de leigo. A participação em algumas oficinas e a análise de textos publicados no site do Congresso nos levou a identificar ao menos três a quatro sentidos do conceito, que tangem à equivocidade. Do seu ponto de vista são todos legítimos, mas nos parece indispensável tê-los presentes, se quisermos agir com clareza.

Num primeiro sentido, em continuidade com a ótica que prevaleceu no Vaticano II, leigo é o fiel que vive no mundo, procurando pautar sua vida pelo Espírito de Jesus, em vista de uma pertença cada vez mais íntima e abrangente à Igreja, sob a conduta dos pastores. O Vaticano II, estendendo o conceito de Igreja a todo o povo de Deus, leva a perceber que o leigo não é simples cliente dos serviços prestados pelo ministério eclesiástico. Não é, portanto, simples membro passivo da Igreja, mas, em virtude de sua fé e de seu batismo, membro ativo do povo de Deus, chamado a testemunhar no mundo, principalmente pela vida, a salvação a todos oferecida por Jesus, através da Igreja. Nesse sentido, o Congresso de Leigos é a manifestação da integração dos leigos na vida e na ação da Igreja, sua participação nas pastorais, ação e missão dos pastores, em vista da conversão do mundo.

As circunstâncias históricas em particular da evangelização latino-americana, com o movimento de vinda de padres e religiosos das igrejas européias para o continente, começado no século XIX, continuado e intensificado no século passado, fez com que se cavasse uma distância entre o clero, com sotaque estrangeiro, mesmo quando nascido no continente, e a sociedade local, o povo profundamente religioso conduzido por uma elite marcada por diversos matizes de anti-clericalismo. Criaram-se assim condições favoráveis à dissociação entre a fé e a vida, denunciada nas conferências do Celam, a partir de Medellín, em 1968, na virada provocada pelo Concílio.

Nessas circunstâncias, a Igreja deve assumir, ainda que supletivamente, a tarefa de transformação do mundo numa sociedade dominada pela opressão de elites decorativamente cristãs, em uma sociedade sustentada pela justiça e baseada na religiosidade do povo pobre e dominado, traduzindo nos fatos a libertação proclamada como missão dos cristãos em face do mundo. Essa tarefa libertadora, abraçada como objetivo da ação da Igreja, da Pastoral, portanto, embora liderada por eclesiásticos, deve contar principalmente com os leigos, chamados a participar da ação libertadora da Igreja.

Como, porém, transformar a sociedade? A ação católica, revigorada com o apoio de Pio XI e introduzida no país pelo Cardeal Dom Sebastião Leme, constituiu um exemplo a ser seguido. Leigos, então, são os fiéis chamados a participar do apostolado da hierarquia. Vinculados à Igreja pela formação doutrinal, participação da vida litúrgica e empenho no exercício cristão de sua profissão. Valorizados como leigos, procuram, desde a juventude, encontrar caminhos de atuação na sociedade. Mas nem sempre correspondem às perspectivas predominantes da hierarquia, tendente a colaborar com o poder e a se ajustar às estruturas sociais perversas de opressão e dominação. Dá-se então uma ruptura, com a cassação do mandato hierárquico aos jovens da Ação Católica.

Por outro lado, o potencial religioso do povo levou uma parte importante dos pastores a adotar um caminho alternativo, criando comunidades entre os mais pobres, comunidades de base. Iniciadas numa leitura da Bíblia mais próxima da vida concreta e da história, as comunidades alimentam a esperança de conseguir melhorar sua condição de vida e a qualidade humana da própria sociedade. São assim chamadas pela religião a um empenho político ditado mais pelo espírito de luta e de enfrentamento com o poder dominante, do que pela promoção responsável de uma sociedade fundada no direito, dada a prevalência, entre nós, da estrutura jurídica injusta e até mesmo viciada e corrupta.

Formam-se assim, no seio da Igreja, dois tipos de laicato. Um, militando para cristianizar a sociedade, outro para mudar a estrutura de poder. Ambos, do ponto de vista cristão, se consideram leigos, isto é, cristãos pertencentes à Igreja, mas uns como participantes da missão da hierarquia, outros como profetas de uma nova sociedade. O conceito de leigo tem a razão comum de significar a pertença à Igreja, mas implica uma nota negativa, não pertencer à hierarquia, e se reveste, historicamente, de um colorido político que lhe confere, na prática, uma equivocidade radical.

O Congresso de Leigos deu, porém, ocasião a que se manifestasse um terceiro tipo de laicato, centrado não mais na ação em vista da cristianização da sociedade ou da transformação das estruturas polico-sociais, mas visando, diretamente, uma vida cristã pessoal e comunitária voltada para a vocação de todo ser humano à comunhão com Deus. Assentados no pietismo das igrejas provenientes da Reforma e diretamente inspirados no pentecostalismo, aportaram na América Latina, vindos primeiramente dos Estados Unidos, movimentos e comunidades de matriz carismática, como os classificam oficialmente documentos do próprio episcopado brasileiro.

Reconhecem-se como leigos, pertencem à Igreja, mas ao mesmo tempo tendem a se entender com leigos consagrados, isto é, leigos especialmente fiéis a Deus e à Igreja, separados do mundo, realizando de maneira concreta mais perfeita do que nunca, o princípio evangélico de estar no mundo, mas não ser do mundo.

Acreditam então que, por serem socialmente leigos, estão por isso, destinados a levar o anúncio de Jesus Cristo a todos os recantos da sociedade. Grande maioria dos pastores vê nesses movimentos e comunidades o instrumento ideal da Nova Evangelização. Mas na prática, em confronto com a complexidade do mundo e com os desafios culturais e estruturais de nosso tempo, a ação evangelizadora das novas comunidades está longe de poder corresponder ao que o mundo tem direito de esperar da Igreja, pelo menos tal como o entende o Vaticano II, na Constituição Gaudium et spes.

Em continuidade com essa análise sumária somos levados a falar de uma equivocidade do conceito de leigo. O Vaticano II o empregou e, como tal, foi acolhido no Código de Direito Canônico de 1983 sob a razão geral de cristão que não pertence à hierarquia. Mas uma nota negativa – não pertencer à hierarquia – não funda uma categoria. Pertencer à Igreja não é não ser ordenado, é, positivamente, crer e ser batizado. É ser cristão. Do ponto de vista teológico o conceito de leigo deve ser abandonado. É um conceito nascido numa eclesiologia que foi superada pelo Vaticano II e só nos pode levar ao equívoco, na medida em que nos dispusermos a pensar a Igreja como Povo de Deus. Seríamos, nesse caso, levados a propor, em lugar do conceito de leigo, o conceito de “cristão no mundo”, que vale para a totalidade dos membros do Povo de Deus.

A teologia da Igreja no mundo é comum a toda a Igreja, a todos os cristãos. Envolve clero e laicato. Os leigos não pertencem à Igreja depois dos clérigos. Pelo contrário. Vêm antes dos clérigos. Ser cristão no seu pensamento e na sua vida é uma exigência para ser ordenado. Jesus era leigo. Maria era leiga. Quer dizer, Jesus está na raiz do cristianismo, seu Espírito anima a vida de todos os cristãos. Maria, inteiramente animada pelo Espírito de Jesus, irradia a graça, de que está cheia – cheia de graça – a todos os cristãos, filhos no seu Filho. O que é importante na teologia da relação da Igreja com o mundo é compreender teoricamente e viver na prática a orientação de Paulo, sobre a relatividade das coisas temporais: usar do mundo como se não se usásse (cf. 1Co 7,31).

Parece-nos ser esse o princípio de unidade entre todos os cristãos. Clérigos e leigos, não podem deixar de colocar seu coração em Deus e viver como Jesus atendendo em primeiro lugar às coisas do Pai, deixando-se perpassar pelo Espírito. Somente uma comunidade que alimente a prioridade do espiritual será capaz de contribuir para a evangelização do mundo: ao dar testemunho da consagração a Deus, atuar na luta contra as estruturas injustas e opressoras, e, ao mesmo tempo, liderar a construção de um mundo a partir dos valores realmente presentes em nossa tradição cultural e social.

Depois do Congresso de Leigos falta um Congresso da Igreja, um Congresso cristão para proclamar a fé e marcar a posição comum de todo cristão em face do mundo, como já se faz em outros países.

Francisco Catão

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