UMA PERSPECTIVA SOBRE O 1º CONGRESSO DE LEIGOS DA ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO

Peter Greiner

A participação intensiva, junto com outros integrantes do Grupo Cultural Católico, deste 1º Congresso de Leigos, leva a algumas considerações que podem colaborar para colocar a memorável iniciativa do Arcebispo de São Paulo, Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer na sua real  perspectiva no contexto histórico da Igreja e apontar para alguns dos desafios fundamentais, dentre muitos outros, que se colocam para a reintegração dos leigos na missão que a Igreja, povo de Deus, recebeu de Jesus.

I  – ESPÍRITO SANTO NO CONCÍLO  – SINAIS DO TEMPO

O querido e admirável Papa João XXIII no seu discurso de abertura do Concílio Vaticano II, refutando críticas e pessimismos, disse o seguinte:  “…Devemos estar prontos para reconhecer os misteriosos desígnios da Providência, que juntamente com todos os seres humanos, leva-nos a alcançar objetivos que ultrapassam nossas próprias expectativas, e tudo dispõem para o bem da Igreja, inclusive as dificuldades que atravessamos. ”

Estas palavras  se confirmaram já no próprio concílio. Voltado inicialmente para um “aggiornamento ad intra”,  isto é sua atualização como instituição, teve, para a surpresa geral seu foco reformulado e ampliado. Voltou-se para a revisão de seu papel frente e no meio do mundo atual! Com esta inspiração do Santo Espírito, os padres conciliares foram levados a rever o papel dos próprios fiéis na missão evangelizadora da Igreja.

Depois de mais de um milênio e meio, a Igreja  volta a considerar-se como sendo a comunidade do povo de Deus, e redescobre que, na Fé, cada cristão deve dar testemunho e abraçar a missão de Jesus de oferecer a Verdade de Deus como caminho para a realização plena de cada homem segundo a natureza que lhe foi dada na gratuidade do Amor. Tal missão de discipulado é comum a todos e independe da situação de cada um na Igreja.

Colocando-se diante do mundo e da sociedade, a Igreja assume a responsabilidade de converter nos homens o próprio mundo, isto é, no plano comunitário e coletivo, colocar as estruturas do mundo e a humanidade, segundo os planos do Criador. Uma tarefa própria dos leigos que vivem e trabalham no secular, a ser transformado para sustentar a Justiça, dando consistência e credibilidade ao próprio esforço missionário no meio e junto aos homens.

Aos leigos cabe atuar em todos os espaços das estruturas sociais, próprios do desenvolvimento de suas vidas, mesmo porque a conformação do mundo ao plano de Deus envolve, para além da conversão individual, o coletivo cujas expressões culturais, sociais, econômicas condicionam e influenciam a receptividade para a Mensagem e a concretização de suas propostas.

A instituição eclesial por meio de sua hierarquia, ministros e consagrados, apóia e serve a todo povo de Deus nesta missão que é de todos. É, sobretudo, Magistério, depositária e zeladora da herança apostólica e da tradição, administradora dos sagrados sacramentos ao lado de sua missão evangelizadora própria. Conta neste mister, com a colaboração de dedicados leigos vocacionados que, em muitos casos, se organizam em comunidades especializadas.  

II  –  IMPORTÂNCIA DA CONTRIBUIÇÃO DA ARQUIDIOCESE NA RENOVAÇÃO DA IGREJA

Assim, cada vez mais, a explicitação das propostas conciliares nos coloca no contexto de um momento histórico ímpar de nossa Igreja, de âmbito universal. Nesta mudança e transição, demoradas e complexas, devemos ter presente a nossa responsabilidade pela importância e dimensão de nossa Arquidiocese de São Paulo.

Nosso Arcebispo, Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer tem clara visão deste fato quando afirma:  O cristão leigo, em São Paulo, vive num “contexto de cidade grande, com enormes contrastes sociais e econômicos, carências e exclusões, desafios de toda ordem”.

A igreja de São Paulo abrange uma megalópolis situada no coração econômico, social e cultural do Brasil, um dos países católicos mais importantes. Divide uma vasta área metropolitana com várias dioceses e, com a multiplicidade de problemas envolvidos, reproduz e enfrenta uma grande parte dos desafios e dilemas com que se defronta a Igreja universal que se sobrepõe e desafia a própria organização territorial das dioceses.  Isto representa um chamado desafiador para a nossa contribuição! 

III   –   PREOCUPAÇÕES DO ARCEBISPO DE SÃO PAULO, Cardeal D. Odilo Pedro Scherer

  (Extratos dos escritos e pronunciamentos pessoais do Cardeal, nas suas próprias palavras)

Nosso Arcebispo, Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, orientou o Congresso de forma a avançar na linha da percepção fundamental  do Concílio e de todos os recentes documentos da Igreja: 

  • Convocação a todos os cristãos de Fé, por graça dos dons do Batismo e da Confirmação, para a missão do testemunho e da evangelização, em especial a maioria dos católicos que estão hoje fora do âmbito considerado eclesial.
  • Ao mesmo tempo – afirma nosso arcebispo –, constatamos um déficit preocupante na evangelização de boa parte dos leigos, que apenas foram batizados, mas nunca tiveram uma experiência profunda de sua fé católica, nem se identificam muito com a Igreja.
  • Muitos leigos participam das atividades internas da vida da Igreja e isso é sumamente bom e necessário . Mas sua vocação e missão própria, acima de tudo, é anunciar o Evangelho e testemunhar a vida nova em Cristo no “mundo secular” e exercendo funções temporais, ordenando-as para Deus.
  • Como parte da conversão missionária da Igreja são desejáveis expressões novas da participação do laicato na sua vida e missão, segundo a condição que lhes é própria.
  • Novo despertar do laicato, uma nova consciência cristã e eclesial. Leigos vibrantes  de fé no amor a Deus, competentes nas coisas do mundo que atuem em todos os campos da vida social e cultural da sociedade; que assumam sua identidade e sua adesão à Igreja.
  • Os ministros ordenados da Igreja estão a serviço da comunidade de batizados, com vocês, no meio de vocês e à frente de vocês para ajudá-los e encorajá-los na vivência de sua vocação laical.

IV  –   DESAFIOS FUNDAMENTAIS

O reconhecimento do significado histórico e da grandeza da tarefa de reconquistar e reinserir os leigos na missão da Igreja, para que anunciem a Palavra a todos os homens e transformem o mundo, segundo os desígnios da criação e do Reino de Deus, deve nos fazer humildes e conscientes de nossas próprias limitações.

O congraçamento de tantas pastorais, comunidades e movimentos neste Congresso, não consegue afastar a constatação de que a grande maioria dos irmãos na Fé não estiveram presentes e precisam ser contatados, informados e conquistados para esta grande missão.

Por isso o Congresso, como bem disse D. Odilo, representa  apenas o início de um processo que continua para se ampliar e aprofundar. Foram muitas as propostas e boa parte delas será assumida pelas organizações existentes.  Muitas demandarão uma ampla mobilização. Outras, voltadas para áreas e aspectos hoje não atingidos pela ação dos católicos, só se explicitarão por meio da agregação de fiéis ainda ausentes e pelo desenvolvimento de projetos inovadores, ainda longe do alcance de nossa visão e experiência.

Assim, diante do desafio que foi colocado por este Congresso à Igreja e aos leigos de São Paulo, abandonamo-nos, na esperanças, ao Espírito Santo, certos de que nos assistirá no reconhecimento e interpretação de seus desígnios face à nossa realidade, a cada momento e passo de nossa caminhada. 

Algumas idéias sobre a natureza dos desafios para a continuação da caminhada, voltada para os espaços hoje pouco atingidos pela Igreja:  

  • Organizar um amplo esforço de formação integrada e integral, voltada para três linhas básicas de aprofundamento. Primeiro da Palavra e da Fé:  doutrinária, teologia e Igreja; segundo,  a da contextualização, analisando com os olhos da Fé os aspectos sociais, políticos, históricos e econômicos e, terceiro o da organização da ação, sua mística e instrumentos operacionais, variáveis adequadas aos espaços de ação e carismas envolvidos.  Em nome da unidade, do melhor aproveitamento, do  ganho de escala e do conteúdo e, principalmente do intercâmbio,  deveria resultar um esforço conjunto e coordenado dos movimentos e comunidades  e, desejavelmente, envolvendo em alguns temas o clero.
  • Evitar reducionismos na formação e organização dos leigos. Eles devem  capacitar-se para atuar no mundo e não refugiar-se exclusivamente na comunidade eclesial (espécie de “clericalismo”) e, por outro lado, não devem esvaziar-se da Fé e do Espírito de Cristo, na prática de uma ação ideologizada, sem Deus e amor real ao próximo (espécie de “secularismo”)3 
  • Desenvolver um programa para a identificação e mobilização de irmãos de fé, capazes e motivados para desenvolver novos tipos de organização e de ação, nas mais diferentes profissões e estruturas da sociedade, de forma a produzir efeitos concretos que testemunhem o Plano de Deus, tanto para a conversão pessoal como no plano coletivo. Tentar reunir cristãos de fé, “fora da Igreja – soltos no mundo” que tenham projeção no meio, para que, atuando e testemunhando em consonância, colaborem para difundir uma imagem verdadeira da Fé positiva e engajada no mundo.
  • Desenvolver pesquisas, estudos, laboratórios, seminários, cursos, textos e conferências para:  (i)  identificar os temas que mais angustiam e sensibilizam os diferentes segmentos sociais na busca de respostas pela Fé;  (ii) desenvolver uma linguagem e simbologia que traduzam, para a compreensão do homem hodierno, os significados das Escrituras e da doutrina, e  (iii)  promover, em assuntos-chave da atualidade, estudos capazes de orientar os fiéis e aproximar as diferentes  visões, com objetivo de viabilizar, não só posicionamentos consistentes, como  também a organização de ações efetivas, consistentes como os princípios cristãos e a Doutrina Social da Igreja.
  • Conceber, implementar e avaliar iniciativas que levem a uma melhor penetração das atuais paróquias “territoriais” nas respectivas comunidades, em particular quando os habitantes locais têm pouca identificação vivencial com ela. Da mesma forma, estudar formas de incentivar e assistir as indispensáveis futuras organizações leigas inovadoras no campo das profissões e das diferentes estruturas, tais como paróquias temáticas, assistentes espirituais e teológicos, etc.
Anúncios