No Centro de São Paulo e perto do céu

Ex-piloto, engenheiro formado pelo ITA, Mathias Toletino Braga é o abade mais jovem do Brasil que dá ares de modernidade ao Mosteiro de São Bento

Jussara Soares – Diário de São Paulo – 16 de Novembro de 2010

“Acho que o homem não foi feito para ficar no chão. É para ir para as alturas”, diz dom abade Mathias Tolentino Braga, de 45 anos. Qualquer desavisado pode logo imaginar que o jovem superior do Mosteiro de São Beto esteja falando de uma elevação espiritual a que se tem acesso com muitas orações, leituras bíblicas e cantos gregorianos. Mas não. As alturas a que ele se refere são essas que se podem alcançar com aeronaves. Antes de ser tornar um monge beneditino, era pilotando  aviões que ele atingia a  imensidão do céu.

“É uma das sensações mais gostosas que já tive”, confessa, sem medo de deixar escapar a saudade que sente do tempo antes da vida monástica. Ele se formou piloto na Academia da Força Área, aprendendo a pilotar em planadores – aeronaves sem motor. “É um voo sensitivo. Só ouve o barulho do voo. Não tem motor”, descreve.
Em seguida, o jovem ingressou na faculdade de engenharia eletrônica do Instituto Tecnológica de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, a 94 quilômetros da capital. Foi nessa época que conheceu o Mosteiro de São Bento. Veio até a capital para demover um amigo que queria ingressar na ordem. Mas Mathias, o jovem que sempre achou que o homem tinha que viver perto do céu, se encantou com a espiritualidade do local. 

O amigo desistiu do mosteiro.  Já o próprio Mathias retornou dois anos depois, aos 28 anos e engenheiro formado, para se tornar um monge.

Trocou as horas de voos por sete orações diárias com a comunidade do mosteiro. E outras tantas orações individuais e e estudos das sagradas escrituras. No melhor lema dos beneditinos de “ora e labora”, Mathias empregou sua formação em engenharia trabalhando na administração do Colégio e da Faculdade de São Bento
A vocação descoberta tardiamente, no entanto, não foi empecilho para que ele se tornasse, 13 anos depois, o abade mais jovem do Brasil, com apenas 40 anos de idade. De origem aramaica, a palavra abade significa “pai espiritual”. E por isso o cargo é entregue a monges mais velhos, experientes e  que sejam fonte de conhecimento. Outro motivo é evitar que um monge fique muito tempo na função, já que o cargo é vitalício. Daí a surpresa do abade ao ser eleito para o posto.

A escolha deu um ar de jovialidade ao mosteiro e flexibilixou a clausura.  Dom abade Mathias  usa Iphone para responder a e-mails. Deixa a clausura para ir a encontros de ex-alunos do ITA e visitar o Salão de Automóveis. “Gosto de tudo que tem motor”, diz.  Outro dia até chamou atenção de um menino no Paraná por causa dos calçados inusitados. O abade usava sandálias crocs – que se tornaram um fenômeno mundial, é usada pelo ex-presidente americano George W. Bush e tem nas crianças seu maior público. “Mãe, nunca vi um padre usando croc” , admirou-se o garoto. Sinais de tempos modernos no mosteiro.

Abade Mathias  foi anfitrião do Papa Bento XVI em São Paulo
Dom abade Mathias nasceu na roça, como gosta de dizer. Ele é do município  Presidente Olegário, no Noroeste de Minas Gerais. A primeira “cidade grande” que conheceu, aos 5 anos, tinha 7 mil habitantes.  Aos 8, se mudou para a Brasília. Mas nunca perdeu o gosto do cuidado com a terra e por cavalos. Orgulha-se de saber tirar leite e matar porco. Diz que, outro dia,  pescou 20 tilápias em uma hora e meia. “Era em um pesque e pague, mas não é história de pescador”, conta com sotaque mineiro e jeito simples.  Os mesmos que receberam o papa Bento XVI, durante sua visita em maio de 2007. 

“Tem uma expressão que diz ‘o dia que o papa vem em casa‘. É o dia do nunca, mas esse dia acabou acontecendo comigo”, diz, sem esconder o orgulho. O papa fez questão de ficar hospedado no Mosteiro de São Bento. Durante três dias, dom abade Mathias tinha a missão de acompanhá-lo durante  o trajeto dentro do mosteiro, o aguardava sempre à porta do dormitório e sentava-se à sua direita nas refeições.  À frente, estava sempre o cardeal dom Odilo Scherer.

Os diálogos não eram os assuntos internacionais ou os caminhos da Igreja Católica. Bento XVI queria saber da história pessoal de cada um que o rodeava. “A gente existia para o papa. E tínhamos um assunto que a gente dominava: nós mesmos. Ele é muito paternal e acessível, se coloca a nossa altura”, diz.
O menino que nasceu na roça jamais esperava se tornar abade em tão pouco tempo, muito menos receber o do papa. “Para mim, foi como os jovens que se encontram com um artista pop. É natural do ser humano se identificar com pessoas e seus valores”. E, como um fã, a foto com o papa fica exposta no parlatório do Mosteiro. Lembrança do dia que o papa veio para jantar.

A história dos monges  beneditinos
Os monges chegaram a São Paulo em 1598.  O terreno onde ainda hoje está localizado o mosteiro  foi doado pela Câmara de Vereadores em 1600. O prédio da abadia ficou pronto em 1634. As regras da ordem foram escritas  por Bento na Itália no século VI. A maioria dos beneditinos estão na Alemanha e na Itália hoje.

Comunidade em transformação
O mosteiro São Bento está se renovando. Hoje, 40 monges vivem lá. O mais jovem tem 21 anos. E o mais velho, 82 anos. Os monges da capital são longevos. Nos últimos 17 anos, morreram 21
monges acima de 80 anos. A média de idade dos monges hoje é de 30 anos.  

Colégio de São Bento ensina o mandarim
A instituição tem 220 alunos, dos quais 110 são filhos de chineses. Em 2007, eram apenas 17, mas a escola passou a oferecer aulas de mandarim e se tornou uma referência. Em 2007, haverá alfabetização em português e mandarim.

Portas abertas para turistas e paulistanos
 Aos domingos, a igreja atrai fiéis e amantes da música para ouvir o canto gregoriano. No último domingo do mês, há um brunch  com delícias preparadas na padaria do mosteiro, que dá direito a uma visita pelo local.  Difícil é sair de lá sem levar os pães, bolos e doces da lojinha do mosteiro.  Informações no site: www.mosteiro.org.br

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