‘A Vida Intelectual’ de Antonin-Dalmace Sertillanges

Fala-se constantemente em que devemos  ser autodidatas. Há mesmo aqueles que afirmam que isso é o que as escolas deveriam ensinar. Em contato com tais chavões, chega-se a pensar que só os ‘sábios’ contemporâneos, com todas as ferramentas e meios que a tecnologia e a pedagogia moderna, podem nos aconselhar, quando o assunto é o estudo e o aprendizado.

Ao longo da História muitos se enveredaram na tentativa de elaborar sistemas ou métodos de estudos. Se alguém quiser desfrutar de uma tradição de aconselhamento de como e porque estudar, que remonta à Idade Média, convém começar com o ‘Opúsculo sobre o Modo de Aprender e de Meditar’ de Hugo de São Vitor (1096-1141), continuar com o ‘Sobre o Modo de Estudar (De Modo Studendi)’ de Santo Tomás de Aquino  (1125-1274), passar pela Idade Moderna com a obra ‘Tractatus de Studiis Monasticis’ do beneditino Jean Mabillion e chegar aos nossos dias com ‘A Vida Intelectual’, escrito em 1934, pelo dominicano francês A.D. Sertillanges, do qual nos deteremos mais profundamente.

Um dos maiores tesouros sobre a metodologia de estudo. ‘A Vida Intelectual’ foi redigida originalmente em 1920. Para aqueles que desejam não apenas um manual prático que permita esboçar orientações de como entrar na vida dos estudos, o livro também oferece um exemplo de vida bem-sucedida no mundo intelectual – a do próprio padre Sertillanges, que por meio de dicas preciosas permite e disponibiliza, para qualquer pessoa que tenha abertura e coragem necessárias, uma nova forma de viver que abrange gradualmente a dimensão intelectual e todos os percalços que essa vida traz consigo.

Em seguida, vai a tradução de alguns trechos do prefácio da obra, feita pelo jesuíta James V. Schall para a edição americana de 1998. Vale lembrar que há uma recente tradução para a língua portuguesa editada pela Editora É Realizações.

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Os prazeres e as dores do pensar*


Uma vocação não é realizada por leituras vagas e escritos esparsos.
— A.D. Sertillanges, Introdução à Edição de 1934

Muitos de nós, mais velhos, desejaríamos que, quando mais jovens, alguém nos tivesse falado sobre certas coisas, ou sobre certos livros que, freqüentemente, quando os analisamos em retrospectiva, teriam nos ajudado, tremendamente, no projeto de nossas vidas e, em particular, nos teriam ajudado a conhecer as coisas verdadeiras. Alguns desses livros são orientados ao que é verdadeiro, à realidade, ao que é, mas alguns deles são mais direcionados à questão do “como começar a conhecer?” (…)

Sertillanges oferece muito mais do que um bom começo. Ele, explicitamente, diz como começar, como ler e escrever, como disciplinar nosso tempo, de fato, como disciplinar nossa alma. Ele também se ocupa com a vida do espírito na qual a verdadeira vida intelectual existe. Talvez, já tenhamos ouvido de Aristóteles que somos animais racionais, que a vida contemplativa é algo a que devemos aspirar. Mas, praticamente ninguém nos diz o que isso significa, se isso é algo que está disponível a nós sob alguma condição que não nos é fácil compreender. Mas, mesmo que nós, vagamente, saibamos que a vida intelectual é uma vida elevada, sabemos muito pouco sobre o que tal vida nos poderia exigir. Estamos, também, conscientes que a sabedoria vem muito mais tarde na vida do que, inicialmente, suspeitávamos,. Mesmo assim, suspeitamos que haveria caminhos que nos ajudassem, se pelo menos nós os conhecêssemos. (…)

Este breve prefácio é, simplesmente, uma explicação da razão pela qual esse livro maravilhoso e útil deve estar, sempre, disponível e ser, permanentemente, consultado por jovens estudantes de graduação, de pós-graduação, pelo pessoal mais velho e, enfim, por todos. Toda vez que usei esse livro em sala de aula, usualmente quando lecionava um curso sobre Santo Tomás de Aquino, tive alunos de graduação que, posteriormente, me disseram lembrar do livro porque ele os ensinou muito sobre como continuar pondo em prática a curiosidade intelectual, de uma maneira efetiva, não meramente enquanto estudavam, mas ao longo de suas vidas.

À primeira vista, como já insinuei, esse é um livro incomum. Depois, ele se torna um livro tremendamente exigente. Sertillanges, meticulosamente, nos diz como tomar notas, como começar a escrever e a publicar, como organizar nossas anotações e com isso, nosso pensamento. Assim, usei a palavra incomum porque nós não usamos mais, como fez Sertillanges, canetas e máquinas de datilografia, mas computadores sofisticados e processos de impressão que o teriam impressionado. Mas, lembre-se que Tomás de Aquino, sobre quem Sertillanges escreveu tão bem e de cuja inspiração deriva este livro, teve, talvez, somente vinte e cinco anos de atividade produtiva no século XIII. Ele não teve nenhuma das facilidades que mesmo Sertillanges teve nos anos 20 do século XX. Mesmo assim, Aquino produziu uma quantidade, estonteante, de material brilhante e profundo.

Como ele o fez? É altamente duvidoso que ele tivesse escrito mais ou melhor se ele dispusesse do mais avançado computador. De fato, num certo sentido, isso poderia ter sido um obstáculo. Pois, Santo Tomás desenvolveu uma memória prodigiosa e uma fantástica capacidade de acesso a todo o conhecimento dos grandes escritores seus ancestrais, incluindo a Bíblia. Essa sabedoria foi adquirida às custas de livros e leitura, mesmo para Santo Tomás, mas ele sabia como fazer essas coisas. O que Sertillanges nos ensina é como, do nosso próprio jeito, imitar as lições que podemos encontrar no grande Dominicano medieval, sobre como desenvolver uma verdadeira vida intelectual, uma vida cheia de honestidade e oração, por meio de um trabalho diligente e, no final, uma vida com o deleite de conhecer.

Ao ler o livro de Sertillanges, não podemos evitar o sentimento de que ele está nos revelando alguns dos segredos da vasta produtividade e intuição de Santo Tomás. Há tantas horas num dia, numa semana, num mês. Sertillanges não nos pede para abrirmos mão de nossa vida cotidiana e nos devotarmos, completamente, à vida intelectual da maneira como Santo Tomás fez. Ao contrário, Sertillanges nos ensina, de uma forma prática, como podemos organizar nossas vidas a fim de adquirirmos uma base inicial sólida – com sorte, quando ainda somos jovens – e continuarmos a construir sobre essa firme fundação, pelo resto de nossos dias. Em resumo, Sertillanges nos ensina sobre hábitos, sobre disciplina, sobre, sim, produtividade e verdade. Ele pensa que podemos viver uma verdadeira vida intelectual se conseguirmos reservar uma ou duas horas diárias para uma busca séria das coisas superiores. Ele não sugere nada rígido ou inexeqüível. Além disso, quando falamos em termos de horas, tendemos a perder de vista ao que Sertillanges se refere.

Qualquer tipo de aprendizado, no início, exigirá um esforço penoso. Podemos chamá-lo de um tipo de trabalho. Precisamos chegar a ponto de nos deleitarmos pelo que estamos aprendendo, a ponto de ficarmos ansiosos para voltarmos para nossas considerações, ou escritos, ou reflexões sobre algum assunto. Qualquer coisa que existe é fascinante. Chesterton, cuja vida intelectual parece ter sido tão vibrante, certa vez observou que não há coisas desinteressantes, apenas pessoas desinteressadas. Grande parte desse desinteresse existe, precisamente, porque nunca aprendemos como ou porque enxergar o que está lá.

Sertillanges nos ensina a examinar nossas vidas. Ele não deixa de mencionar que nossas falhas morais, as sérias e as mais leves, podem, de fato, nos impedir de sermos livres o suficiente para enxergarmos o que não seja ‘nós mesmos’, para enxergarmos o que é. “Você deseja ter uma vida intelectual?” Sertillanges responde, em sua Introdução da edição de 1934. “Comece por criar dentro de si uma zona de silêncio.” Vivemos num mundo cercado por barulho, por um tipo de agitação que preenche nossos dias e noites. Temos tantas coisas para nos distrair, mesmo que, às vezes, pensamos que elas nos educam. Sertillanges tem certeza que temos tempo. Mas, ele, também, tem certeza que não notamos que temos tempo porque nossas vidas parecem ser ocupadas, saturadas. Encontramos tempo nos tornando, primeiramente, interessados, desejosos de saber. Sertillanges exige um exame de consciência tanto sobre nossos pecados, quanto sobre o uso do nosso tempo.

Uma vida intelectual, contemplativa, é, em si, cheia de atividade, mas atividade proposital, que quer saber e saber a verdade. O que, comumente, chamamos “intelectual” atualmente não é, provavelmente, o que Sertillanges tinha em mente quando ele falava de “vida intelectual”. Pode-se dizer que os intelectuais como classe, como Paul Johnson escreveu em seu livro “Os Intelectuais”, desenvolvem teorias e explicações, precisamente, como um produto de suas próprias desordens morais internas. Não devemos nunca esquecer que uma vida intelectual é uma vida perigosa. O maior de todos os pecados não se origina da carne mas do espírito, como dizia Agostinho. O mais brilhante dos anjos foi o anjo caído. Essas considerações sóbrias explicam porque gosto deste pequeno livro de Sertillanges. Ele não hesita em nos alertar sobre a relação íntima entre nosso conhecimento da verdade e o não direcionamento de nossa alma ao bem. A vida intelectual pode ser e, com freqüência, é uma vida perigosa. Mas, isso não é razão para negarmos sua glória. E Sertillanges é muito cuidadoso em nos direcionar para aquelas coisas que devem ser perseguidas porque elas nos explicam o que somos, nos explicam o mundo e Deus. (…)

Tendemos a pensar que a vida intelectual é alguma enorme intuição que vem a nós numa agradável manhã, enquanto nos barbeamos ou tomamos café. Sertillanges não nega que alguma intuição nos chega dessa forma. Mas, o curso normal das coisas exigirá, ao contrário, uma preocupação permanente em perseguir a verdade, em conhecer, em ser curioso sobre a realidade. (…)

Eu colocaria A Vida Intelectual sobre a escrivaninha de todo estudante sério e da maioria dos negligentes. De fato, Platão disse que nossas vidas não são “sérias” em comparação com a de Deus. Algo do relaxado lazer, daquela sensação de liberdade que vem com o conhecimento e com o desejo de conhecimento, é instilado em nossas almas por este livro. Sua mera presença em nossas escrivaninhas ou estantes é um estímulo constante, um lembrete visível de que a vida intelectual não é algo estranho, algo que não podemos, do nosso jeito, alcançar.

*Tradução: Antonio Emilio Angueth de Araujo

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