Largo de São Bento está entre os locais mais procurados para filmagens publicitárias 

Vale do Anhangabaú em cena do filme "Ensaio sobre a cegueira"

Vanessa Correa – Folha de S.Paulo – 24 de Outubro de 2010 

Vestido com um terno, o executivo dirige seu carro pelas ruas de uma metrópole de primeiro mundo. Ele poderia estar em Nova York ou em Paris. Mas o homem é, na verdade, um ator e está em um comercial, gravado no centro de São Paulo, locação preferida de produtoras de vídeos publicitários.

A Secretaria da Coordenação das Subprefeituras, a pedido da reportagem, elaborou um ranking com as 16 ruas para as quais mais foram emitidas autorizações de filmagem de janeiro a setembro deste ano.

“Quando pensamos em grandes metrópoles, o que vem à nossa mente é a arquitetura mais antiga, como a de Nova York. O centro de São Paulo passa essa ideia de primeiro mundo”, diz Paula Trabulsi, cineasta e sócia-diretora da BossaNovaFilms.

Outra vantagem do centro, explica Paula, é a “universalidade” da região: o centro tem arquitetura variada.

Beleza

“O vale do Anhangabaú tem prédios históricos, bonitos. Queríamos um lugar aberto, urbano, com bastante circulação de pessoas, e essa foi a melhor opção”, afirma Júlio Taubkin, diretor da produtora Colmeia. Na última sexta-feira, ele filmou no local um “evento documental” para colocar no site da marca de eletrônicos LG. “Essa arquitetura copiada de fora é muito universal. Uma pessoa mais nova não vai saber se é Buenos Aires ou São Paulo.”

A Lei Cidade Limpa também ajudou, dizem os cineastas. Segundo Paula, a legislação representou uma “revolução” na imagem da cidade. Para ela, essa limpeza “normalmente só se encontra no primeiro mundo”.

 Revista da Folha tratou sobre o assunto em 2009: 

“Let’s run”, grita, em inglês, o diretor vindo de Los Angeles. “Pessoal, vamos correr!”, repete o assistente de direção, para um elenco “étnico” de negros, orientais e europeus “made in” São Paulo.

 

 A cena é filmada na cobertura de um prédio de 25 andares na avenida São Luís, com vista para a silhueta central de São Paulo e o edifício Itália ao fundo. Trata-se de um comercial de vodca, criado por uma agência americana para ser veiculado em todo o mundo.

São 7h de quarta-feira, e mais de 200 pessoas trabalham no set. Com grande diversidade racial e arquitetura europeia preservada em bolsões no centro, São Paulo bateu o Rio de Janeiro como destino para locação estrangeira. Em 2008, foram 91 filmagens contra 84 no Rio. Levando-se em conta apenas os filmes publicitários, foram 36 aqui contra 21 lá. No ano anterior, a contagem era 35 a 18 a favor do Rio.

A área mais requisitada é a central, do centro velho até a praça da República. “Queríamos representar gente do mundo inteiro, e São Paulo nos permite isso”, explica Lance Acord, diretor do filme, feito em parceria com a produtora brasileira Film Planet.

O teste de elenco atraiu 600 pessoas. Ao final, 40 participaram dos seis dias de filmagens em lugares como o viaduto do Chá, o Jardim Botânico, o parque da Juventude e até um posto de gasolina da Raposo Tavares, pintado de roxo para a cena. 

São Paulo é uma cidade que tem cerca de 80 mil empregos ligados ao mercado publicitário. Gente que trabalha em produtoras de vídeo, áudio e finalização, além de empresas de locação de equipamento e mobiliário, firmas de segurança e até bufês exclusivos para o segmento.

A multiplicidade paulistana é um produto bem vendável. “Para ‘vender’ São Paulo, um dos principais argumentos, além da diversidade étnica, é a possibilidade de encontrar, na cidade e nos arredores, tudo de que se precisa para um filme: centro movimentado, parques, mata, praia, cachoeira”.

A metrópole brasileira leva vantagens até em relação a Nova York, outra meca da publicidade mundial. “Depois de fazer ‘takes’ no Central Park, teria que ir para Miami atrás de imagens bonitas de praia”, diz Sonia Piassa, 52, diretora da Apro. “Temos desde os cenários óbvios, como a Paulista e o Ibirapuera, até os mais inusitados, como as ruas da Mooca e as casinhas do Pari.” 

Além de uma rodada de negócios no Museu da Casa Brasileira, com a presença de produtoras nacionais, os estrangeiros fizeram um périplo para conhecer a infraestrutura local. “Em um passeio pelo Jardim Europa, um americano me disse que se sentia em Beverly Hills”, conta Christiano Braga, da Apex.

Do tamanho do mundo

Os publicitários brasileiros usufruem há tempos da fotogenia da metrópole. “São Paulo se parece com tantos lugares que só se parece mesmo com São Paulo”, diz o publicitário Washington Olivetto, criador de um comercial do Mappin premiado em Cannes, em 1989.

A peça dá a volta ao mundo sem sair da região central da capital: o largo do Arouche, com suas bancas de flores, virou Paris; as construções do Brás e do Bexiga, Roma; os prédios da Paulista, Nova York; e, por fim, a estação da Luz trouxe Londres à Pauliceia. “As coisas em São Paulo nem precisam de maquiagem. É uma cidade naturalmente diversificada”, resume o publicitário.

É possível “vestir” de lugarejo até a badalada Vila Madalena. “Queria uma locação parecida com qualquer ponto do Brasil. E a Vila ainda tem coisas paradas no tempo, como alguns becos interessantes e o chão de paralelepípedos”, explica Oscar Rodrigues Alves, que dirigiu o filme encomendado pela Petrobras para o GP Brasil de Fórmula 1.

E o inimaginável: o comercial foi rodado em um único dia em um endereço tão calmo que nem foi preciso interditar a rua, na movimentada zona oeste.

Parar a metrópole não é tarefa fácil. No comercial do Citroën C4 Pallas, rodado em agosto de 2007, o filme, chamado “Cidade Vazia”, mostra o ator Kiefer Sutherland, protagonista da série de TV “24 Horas”, dirigindo por uma Paulista deserta. “Foi um grande truque”, diz Rodrigo Pesavento, diretor de cena. “Tive que apelar para a pós- produção para apagar pessoas e carros que ainda estavam em quadro.”

É importante conhecer os meandros da burocracia e as particularidades da cidade para vencer os obstáculos. Para montar uma locação numa grande avenida, além de pagar as taxas, a autorização deve ser pedida à CET com 45 dias de antecedência.

“Parar o centro de São Paulo durante a semana é praticamente impossível”, reclama Paulo Schmidt, do grupo Ink, um dos maiores complexos de produção do país. Usar trens urbanos e metrôs, só em horários específicos. “A CET leva um tempão para liberar uma rua.”

A cidade pode até comportar ideias mirabolantes nascidas nas geniais pranchetas das agências. Em 2007, para uma campanha da GM, Paulo conseguiu colocar 50 búfalos na frenética rua 25 de março. “Hoje, seria inviável.” 

São Paulo está bem na foto também na telona. A publicidade é o primo rico do cinema, mas, no caso de locação, é tratada como o pobre. Os longas levam vantagem, até pelo tempo de planejamento. Basta assistir a “Ensaio sobre a Cegueira”, produção internacional dirigida por Fernando Meirelles, para ver como São Paulo parou diante das câmeras.

O Minhocão -um dos cenários mais marcantes do longa- era quase um “local proibido” nas produções publicitárias. Mas sua “feiura” tem ganhado ângulos que o tornam belo, segundo Marco Versolato, vice-presidente de criação da Y&R.

Uma campanha da operadora Vivo aproveitou o Minhocão fechado para automóveis no domingo como locação. Encheu o local de carros e simulou o trânsito pesado, o que permitiu ângulos inusitados. “Como um comercial tem pouco tempo, procuramos chamar a atenção com uma imagem curiosa, um olhar que o paulistano não está acostumado a ver.” Uma mensagem que dura mais que 30 segundos.

Veja os locais mais procurados para filmagens em são paulo:

1. Largo de São Bento
2. Viaduto do Chá
3. Praça da República
4. Vale do Anhangabaú
5. Avenida Paulista

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