“A cor é o teclado, os olhos são os martelos e a alma é o piano, com as suas inúmeras cordas. O artista é a mão que toca o piano, emitindo esta ou aquela nota para provocar vibrações na alma.”

Kandinsky veio a teorizar o abstraccionismo em Do Espiritual na Arte (1912), onde concebia a Arte como a expressão do espírito humano e a linguagem mais eficaz para obter essa expressão seria a das formas puras, das cores puras que, garantisse o afastamento de qualquer conteúdo literário ou simbólico. No fundo, preocupava-se em dar uma base científica ao seu misticismo, considerando que a arte é uma actividade do espírito capaz de transcender o mundo material e objectivo. No capítulo II, O Movimento, a vida espiritual é concebida como sendo passível de ser apresentada em esquema, por um triângulo dividido em secções desiguais, alegando que o “hoje” é, apenas compreensível pelo ponto mais alto da pirâmide, representando um “disparate” para o resto do triângulo. No vértice do triângulo, alerta o autor, por vezes está apenas um homem que consegue contemplar o transcendente mundo material e objectivo, embora, infinitamente triste, talvez, pela sua solidão conhecedora, sendo incompreendido pelos que estão próximos. O autor interroga-se sobre quanto tempo será necessário para que a secção mais ampla do triângulo alcance a posição do anterior homem solitário. Alerta ainda que em todas as secções do triângulo existem artistas e que em cada um delas há sempre um homem que consegue ir mais longe do que o proposto em cada secção, sendo visto pelos que o rodeiam como um profeta (aquele que prediz o futuro, talvez, por inspiração divina), ultrapassando o domínio do mundo material. A sua obra não será entendida porque ultrapassa o domínio da experiência, do reconhecível, do concreto, do material e do objectivo, podendo, contudo, cair nas facilidades de “representar” o reconhecível, tornando-se o seu discurso compreendido pelas grandes massas de uma secção. Segundo Kandinsky, cada secção sente necessidade do “Espiritual”, dado através dos artistas. E o artista deve trabalhar sem descanso, evitando afundar-se, caso contrário o seu dom natural, o talento, poderá ter um efeito negativo, tanto para os artistas como para quem consome a obra de arte.
Considera também que os artistas utilizam o seu génio para “satisfazer necessidades baixas”, atraindo os fracos, que têm “fome Espiritual”, contudo alimentam-se de uma “comida” pobre em nutrientes, contribuindo, esta produção artística, para o retrocesso dos que se haviam esforçado por compreender o que está para além das coisas / realidade.
No mundo Espiritual, o da criação plástica, existem períodos de decadência, caíndo de degrau em degrau do triângulo, atingindo a sua secção inferior. E após esta queda os homens “concedem um valor especial e exclusivo aos sucessos exteriores”, já que são incapazes de atingir o Espiritual, tendo apenas significado o mundo material, passando o mundo Espiritual desapercebido. E neste preciso momento, o feliz contemplado que alcança a luz Espiritual é considerado como louco, pois não se enquadra no mundo material que serve de referência e referente à grande maioria da pirâmide. A arte deste período que acabámos de descrever tem uma finalidade materialista e aqui deve-se entender artistas cujos sentimentos tendem apenas para as coisas materiais, grosseiras, permanecendo o seu objecto representado imutável, transformando-se o modo “como se produz o objecto (…) no credo de uma arte sem alma”, porque não vai além do reconhecível. Os artista vivem obcecados em encontrar uma nova forma de produzir obras de arte, sem entusiasmo nem envolvimento, todavia, são essas obras que possivelmente atraem a base piramidal, chegando ao ponto em que “a procura cada vez mais se torna superficial” e sem conteúdo.
Kandinsky considera que a par de toda a “cegueira” referida, o triângulo espiritual continua a avançar, apesar de aparantemente invisível, concedendo aos homens a “fórmula de uma nova sabedoria”. Esta fórmula escapa aos homens, mas não ao artista, que a entende, vendo no objecto aquilo que o ultrapassa.
Para a arte conquistar o que havia perdido é necessário que o artista passe para a tela a sua experiência íntima e o seu poder emotivo, o que lhe permite, no fundo, comunicar com os outros, e aí, a Arte tornar-se-á no fermento espiritual da renascença. Agora, o objecto da busca do artista é o próprio “conteúdo da arte, a seu essência, a sua alma” essenciais para alcançar o Espiritual na Arte, e que só a arte pode possuir e exprimir.
O Espiritual não se atinge por meio da intervenção divina, ou seja por Deus, mas através da Arte, que passa a ser o próprio Deus!, e Kandinsky, o seu filho eleito encarregue no mundo exterior de ser o revelador e o portador da nova mensagem, acreditando numa inevitável catástrofe cósmica, seguida do renascer de uma nova época Espiritual.

Fonte: http://mespeintres.blogspot.com/

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