“Esforçai-vos para entrar pela porta estreita”

“Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” (Lc 13, 23)

Mediante esta interrogação, fruto da curiosidade de um personagem anônimo, Jesus – que não a responde – nos dá uma bela catequese sobre o Reino de Deus e como fazer para ser um membro deste, mostrando-nos que a quantia dos que se salvam não é tão importante quanto o fato de “ser salvo”.

Desde a Aliança feita com os patriarcas, Deus assumiu com predileção o povo de Israel, dando-lhe privilégios que não concedera a nenhum outro povo, como nos mostram as palavras do Salmo: “Ele revelou sua palavra a Jacó, sua Lei e seus preceitos a Israel; com nenhum outro povo agiu assim, a nenhum deles manifestou seus mandamentos” (Sl 147,19-20), sendo assim, os Judeus consideravam-se o povo escolhido (e de fato o eram) os únicos merecedores da Salvação concedida por Deus.

Mas, como sabemos, ao longo de toda caminhada de Israel, muitos foram os atos cometidos contra Deus e sua Aliança por parte deste povo escolhido, tais como a idolatria, a opressão e tantos outros. O Senhor porém, em sua infinita misericórdia, não os abandonou, mas veio em seu auxilio, enviando-lhes seu próprio Filho, para que por meio de sua Palavra fossem salvos: mas quando, no tempo de sua miséria, clamaram a vós, vós os ouvistes do alto do céu, e, em vossa grande misericórdia, enviastes-lhes salvadores que os livraram das mãos dos seus inimigos” (Ne 9,27).

Ora, os privilegiados porém, renegaram-se a aceitar o convite para “a grande festa das núpcias” e assim, o banquete preparado pelo “pai do noivo” deixou de ser privilégio de alguns e estendeu-se a muitos: “virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos” (Lc 13, 29-30).

Com isso, Jesus nos revela que a salvação não é privilégio e nem garantia de ninguém, mas a mesma é oferecida a todos, sem exceções, que mediante seus esforços e principalmente pela prática da justiça e da Verdade conseguem transpor os umbrais da “porta estreita, pela qual, muitos tentarão passar e não conseguirão” (cf. Lc 13,24).

Através de seu sacrifício redentor, Jesus redimiu a todo o Universo com o preço de seu sangue; mas faz-se necessário que esse ato de amor seja assumido por cada um de nós, e mediante nossa aceitação pessoal nos tornarmos outros cristos, dispostos a assumirmos a nossa cruz de cada dia e seguirmos ao divino redentor, pois o caminho que nos conduz ao céu é pautado pela obediência e pelo sacrifício.

Que não sejamos tentados a cairmos em vãos pensamentos de que o fato de pertencermos a esta ou aquela religião nos dará o direito de chegarmos “as portas do Paraíso” exigindo que a mesma seja aberta para nós, pois corremos o grande risco de ouvir a severa advertência: “Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça!” (Lc 13,27)

Não nos deixemos enganar pela nossa falsa certeza de já possuirmos o reino dos céus, mas peçamos sempre a graça de levarmos uma vida pautada pela prática da justiça e da verdade, para que pelos méritos e merecimentos de Jesus Cristo nosso Senhor, e pela sua infinita misericórdia, sejamos contados entre os eleitos de seu Reino glorioso! 

Ir. Lourenço Palata Viola, OSB

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