O “idealcoolismo”: o álcool e práticas religiosas podem se misturar como medidas paliativas contra a angústia da condição humana.

Antonio Alves Xavier e Emir Tomazelli

e o alcoolismo também como uma prática sócio-cultural com amplos reflexos no psíquismo, convém clarearmos a maneira pela qual a psicanálise encara a religião e a religiosidade.

Começamos, respondendo de modo simples, quase etimológico a pergunta: o que é a psicanálise ?

O termo psicanálise compõe-se de: psico + análise.

Análise, do latim analysis, quer dizer observação, exame, estudo. Analysis é a ação de observar, de  examinar, de estudar um todo, decompondo-o em suas partes.

Psic(o), psiqu(e), do grego psych, de psycheqquer dizer: alma, alento, sopro de vida, espírito, mente. É aquilo vivo, imaterial, que está no corpo do indivíduo humano, mas que não é o corpo.   Psyche não se confunde com cérebro, psiche é a mente. Mente, do latim mens, mentis, significa intelecto, alma, espírito. Conseqüentemente, psiquê, mente e aparelho psíquico, tem o mesmo significado.

Literalmente, portanto, psicanálise é a observação, o exame, o estudo do alento, do sopro de vida, da alma, e em última instância, do aparelho psíquico, decompondo-o em suas partes constitutivas – Ego, Superego e Id e em seus sistemas – Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente.

Assim, a psicanálise estuda a mente, sua constituição e seu desenvolvimento, em seus aspectos dinâmicos, emocionais e simbólicos. A psicanálise estuda as forças que põem o aparelho psíquico em movimento e fazem a construção do psiquismo desde o início da vida do indivíduo. É o tratamento das forças inconscientes (desconhecidas) e conscientes (conhecidas), que  existem no aparelho psíquico, suas relações e interações.

Que forças são essas?

São as fantasias, emoções, instintos, pulsões, sonhos, desejos e pensamentos.

Por outro lado, agora, de uma maneira um pouco menos literal, podemos considerar que a psicanálise é a ciência do inconsciente. Ela é um corpo teórico explicativo e uma disciplina investigativa do funcionamento mental, além de ser uma prática clínica com metodologia e técnicas próprias.

Em vista disso, a psicanálise não é nem favorável às práticas religiosas. nem é anti-religiosa e nem faz pregações, menos ainda do  ateísmo. Nas sessões psicanalíticas não se aconselha, não se sugere e nelas não há lugar para qualquer tipo de indução, mas sim, utiliza-se da interpretação como recurso técnico básico. Há na atividade psicanalítica um grande respeito pela singularidade individual e pela identidade do analisando.

A idéia de que o tratamento psicanalítico leva, forçosamente, ao desaparecimento de Deus na mente do analisando, ou na mente de quem estuda ou pratica a psicanálise, além de ser um grande equívoco, gera uma posição preconceituosa em relação à psicanálise, que pode explicar por que algumas pessoas a evitam.

Porém, Freud afirma que a psicanálise é “um instrumento apartidário do qual, tanto o religioso como o laico poderão servir-se, desde que aconteça tão somente a serviço da libertação dos sofredores” e Odilon de Mello Franco Filho em seu trabalho “O eclipse do divino e a psicanálise” vai nos dizer que a psicanálise “é essencialmente iconoclasta”, no sentido de favorecer condições psicológicas para a destruição de ídolos. A psicanálise  o é ao questionar “relações que se tornam infantilizantes e objetos que se tornam ídolos.” E Odilon, nos diz, ainda, que:

(…) “Derrubados os ícones sedutores que jazem na cultura e no imaginário, ficam duas possibilidades: uma fé sem ídolos, ou a não-fé, como visão de vida; todavia, essa decisão não cabe à psicanálise. Nessa perspectiva, a formulação psicanalítica que mais parece condizente com esse projeto não é propriamente o “desaparecimento de Deus”, mas o “desaparecimento dos ídolos”. Aliás, esse projeto está claramente incluso naquele enredo que Friedman aponta em toda a narrativa bíblica: o foco da condenação de Deus não é dirigido à incredulidade do seu povo, mas à idolatria pela qual eles se deixam seduzir.

Nessa mesma linha de interpretação bíblica, Franco, S. G. cita José Miguéz-Bonino, que afirma: “Os ídolos precisam sempre ser destruídos para que uma experiência mais profunda de fé possa ser experimentada”. A expressão “precisam sempre” sugere que se trata de um processo não definitivo, a ser sempre retomado.”

Após essa breve introdução, chegamos ao alcoolismo, propriamente dito, e às suas relações com uma religião degenerada alcoólatra de idolatria do álcool – a “idolalcoolatria”.

E quanto ao termo religião o que pode ser considerado?

Tomemos, por exemplo, o que  o “Dicionário de Teologia” – Conceitos Fundamentais da Teologia Atual – organizado sobre a direção de Henrich Fries[1][1], apresenta:

“A etimologia da palavra religio não é clara: oscila entre religare (ligar-se), relegere (prestar particular atenção a uma coisa) e reeligere (eleger de novo)”.(1971,p.31)

Em seguida este dicionário de teologia vai dizer que:

 “A religião se altera e se falsifica por causa do modo pelo qual se cumprem ou se multiplicam excessivamente os diversos atos religiosos” (…) e que isso acontece quando o homem se coloca a si mesmo como razão última de si,(…) ou eleva a tal posição algo que o mundo possui ou contém[2][2]”(p. 35)

E ainda que (na mesma página):

“Sob a aparência de religião, esta mesma se destrói e se degenera em magia. Sem dúvida, tal caricatura da religião nada tem a ver com a essência da religião, e a essência da religião certamente não consiste em sua caricatura”.

Em outro dicionário, agora de Filosofia, Ferrater Mora[3][3] apresenta duas interpretações etimológicas para a palavra religião:

Primeira: O que é específico da religião é a subordinação e vinculação à divindade; ser religioso é estar religado a Deus ou à divindade.

Segunda: Como sendo a união de vários indivíduos para o cumprimento de ritos religiosos. Ser religioso é ter  escrúpulos, é ser escrupuloso no cumprimento dos deveres que se impõe ao indivíduo no culto a Deus ou à divindade.

Mais à frente ele aponta o perigo da separação entre a religião, a moral e a fé e diz que:

“Quando a moral se sacrifica por inteiro à fé, se cai no perigo de destruir a universalidade da ordem moral e de separar por completo a moral da fé”. (Diccionario de Filosofía, 1983, p. 55).

Pois bem, a partir destes conceitos sobre religião, podemos, de forma gradual, caracterizar mais nitidamente a religião degenerada do alcoólatra. Ela é de difícil reconhecimento, uma vez que, as pessoas em geral possuem uma noção do religioso normalmente associada a uma idéia de dedicação à boa santidade e ao bom sagrado, a orações, livros espirituais, cerimônias religiosas, templos e igrejas, uma visão que convém ser suplantada, para que se possa ter uma compreensão mais profunda do alcoolismo, como veremos a seguir.

Apesar dessas dificuldades em reconhecer a “idolalcoolatria”, fica muito difícil ignorar que o alcoólatra mostra, através de seu modo de ser, uma fé inabalável nas suas alcoolizações alcoólatras.

Quer coisa melhor? Alcançar um estado ideal como resultado mágico do gesto de esticar a mão, e usar apenas a boca, para usufruir a falsa onipotência oferecida pela ingestão de um líquido? Um líquido que é agora transformado em uma substância, cria do alcoólatra,  incorporal toda poderosa e submissa: uma substância corpo-incorporal ideal que dá força, dá euforia aumentando a falsa alegria, que super consola na tristeza e nas situações difíceis, some com os problemas, desinibe, “destenciona”, anestesia e, além de tudo, dá um prazer “diferente”?

Essas vantagens todas parecem ser tão reais pela fé psicótica desenvolvida pelo alcoólatra, que nem a depressão, confusões e aflições do dia seguinte, podem abalar.

Seguindo essa linha de pensamento, advertimos, que não existe imprecisão alguma ao se constatar que o alcoólatra, em seu narcisismo infantil desmedido, coloca-se a si mesmo e ao álcool como razão última de sua existência, para compensar a ausência de divindade em si próprio.

É elevando o álcool à condição de um ídolo submisso, como ele acredita ter criado, que faz da relação do alcoólatra com os efeitos químicos dessa substância, uma prática religiosa degradada em função de uma inversão da natureza da religião: o alcoólatra se apodera do divino, simulando sua existência no álcool, enquanto bebe. Ou seja, ao produzir o delírio inconsciente de ser possível alcançar o ideal divino através do álcool, deixando de ser humano, o abuso do álcool no alcoolismo parece ter um formato pervertido de religiosidade cuja finalidade é comemorar o desejo que o líquido tem de ser bebido..

Ao mesmo tempo, a moral não alcoólatra e a ética  não são passíveis de qualquer tipo de consideração mais realista quando se usa excessivamente o álcool. A necessidade crucial em alcoolizar-se faz com que o alcoólatra aja independentemente do bem ou do mal e do desvario que tal ação lhe trará, impondo dessa maneira, com uma conduta sem ética, e sem comiseração, amargura às pessoas que o rodeiam. Uma vez alcoolizado o “idealcoolista” está no alto, no topo e acima da moral e da ética  dos humanos, isto é nas nuvens do ideal, fora da lei, ou fora da lei do pai, ou fora do âmbito onde o pai pode ter qualquer tipo de jurisdição sobre a mãe. A adequação de seus atos não passa por consideração alguma, pois ele não consegue reconhecer o outro.

Observe-se que o alcoólatra geralmente tem, o tempo todo e quase por inteiro, seus interesses escrupulosamente entretidos pela divindade equacionada ao álcool (álcool=deus) alcoolizado ou não. Tudo indica, que o alcoólatra permanece com sua mente sempre mobilizada em relação ao momento da chegada da próxima ingestão alcoólatra ou mobilizada durante sua transcendência alcoólatra para que ela não se acabe, bebendo sem parar. Desse ponto de vista, o alcoólatra mostra-se religiosamente ligado e religado ao álcool como a um ídolo. No “idealcoolismo” o indivíduo comunga o álcool e não a hóstia  e o significado religioso da palavra alcoólatra fala por si mesmo: ”aquele que se submete, cultua e adora o álcool”.

Portanto, não estaria um indivíduo, que bebe sem cessar, que não consegue deixar sobrar bebida no copo, uma vez que o copo, e o líquido nele contido, ‘necessitam’ ser ingeridos até o final, e que bebe indiscriminadamente qualquer tipo de bebida, não estaria esse indivíduo demonstrando sua subordinação e vinculação a uma divindade chamada álcool? demonstrando sua subordinação e vinculação a uma divindade? Ou esse comportamento seria apenas uma dependência dos efeitos psicossomáticos do álcool? Ele buscaria, através de escrupulosas tentativas, otimizar seu culto de agrados à divindade, ao ficar sem comer para beber, ao convidar os amigos para beber ou isolar-se para beber, ao esconder zelosamente a garrafa da bebida alcoólica ou exibi-la com orgulho e, sobretudo, ao colocar o beber acima da sua família, profissão, sexo, saúde, convivência social, dinheiro,etc.? Ou  isso seria somente dependência da química do álcool?

Acreditamos, que o alcoolismo, produzindo psiquicamente a posse mágica de poderes ilimitados, pode ser visto como uma caricatura de religião, funcionando, desafortunadamente, para um número considerável de indivíduos como se fosse de fato uma religião.

“Eu comprava aquela garrafa bonitinha de wiskie e era como se ela fosse meu filho: eu a embrulhava bem, com carinho, em um pano, tipo aquele guardanapo grande. Embrulhava, sabe como? Como os bebês são embrulhadinhos quando nascem. Tinha uma super alegria e tomava todo o cuidado. Escondia aquele embrulhinho maravilhoso no melhor lugar do meu quarto, na melhor gaveta. Sentia que eu era o pai. Eu era esse alcoólatra daí: pai de um bebezinho de whisky!”

“Se a chuva cai, ou não; se o sol sai, ou não sai; penso em você Senhor. Tenho vontade de beber mais e mais, e de viver sempre contigo Senhor. Livrai-me de qualquer tipo de problema, protegei-me! Essa era, a minha burlesca oração diária com o copo de bebida na mão!”

Estes são dois depoimentos de ex-alcoólatras, exemplos simples de muitos depoimentos de indivíduos que usavam seu alcoolismo devotadamente. Não se trata, neste caso, de um uso em que a comunhão com a divindade destina-se a obter, pós-morte, a recompensa de uma vida eterna e prazerosa. Mas sim, a de obter, em vida, um abrigo psicótico das aflições humanas. Trata-se de alcançar, hoje, ainda vivo, pelo abuso da comunhão com o deus-álcool, o ideal daquela outra vida:

o alcoólatra religiosamente reza o copo e não o terço.

Esses indivíduos, em nossa opinião, são ‘patologicamente sensíveis’ aos sentimentos de culpa, aos sofrimentos da condição humana, e por esta razão, torna-se, para eles, indispensável, desenvolver uma crença delirante inconsciente de que podem obter a proteção do álcool, possuir força e prazer, ideais, e se aliviar da culpa,  agarrando-se à transcendência alcoólatra. Ou seja, o alcoólatra para fugir da culpa, dos sofrimentos, das dificuldades, da incerteza e dos  limites humanos, usa o álcool como a um deus que ele criou, seu filho, mas que também é pai e mãe, em quem projeta seus mecanismos onipotentes, com quem se identifica, supõe que domina, mas que acabará, por ele, sendo sempre dominado.

Freud nos disse que é indispensável o uso de medidas paliativas para se viver a vida humana, ressaltando que:

“O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício, que tanto indivíduos quanto povos lhes concederam um lugar permanente na economia de sua libido” (“O mal estar da civilização”,1930, p. 97).

E que, continuando Freud:

“O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens” (1930, p.95);

Conseqüentemente as dificuldades do homem para a obtenção da felicidade são muitas, e algumas são de tal forma intransponíveis, que

“Ficamos inclinados a dizer que a intenção de que o homem seja ‘feliz’ não se acha incluída no plano da ‘Criação” (1930,p.95).

Concluímos nossa página de hoje, citando novamente Freud, que já apresentava em “O futuro de uma ilusão” (1927) a relação entre o álcool e a religiosidade:

 “Que o efeito das consolações religiosas pode ser assemelhado ao de um narcótico é fato bem ilustrado pelo que está acontecendo nos Estados Unidos. Lá estão tentando agora – claro que sob a influência de um domínio feminista — privar o povo de todos os estimulantes, intoxicantes e outras substâncias produtoras de prazer, e, em vez delas, a título de compensação, empanturram-no de devoção.”


[1][1] FRIES, H.. Professor de Teologia  Fundamental da Universidade de Munique.

[2][2] (grifo nosso) – Algo que o mundo contém, elevado à posição de razão última de si corresponde ao ídolo, como o álcool é para o alcoólatra em sua religião alterada e falsificada – Ídolo: 1.Estátua, figura, ou imagem que representa uma divindade e que é objeto de adoração. 2  Objeto de grande amor ou de extraordinário respeito.

[3][3] FERRATER-MORA, J., Diccionario de Filosofía, Aliange Editorial, Espanha (Madri), 1984.

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