Meditação sobre a Semana Santa

Por Ir. Lourenço Palata Viola, OSB

Com a celebração da Missa da Ceia do Senhor damos início ao Sagrado Tríduo Pascal da Paixão, morte e ressurreição de Cristo, centro de todo o ano litúrgico. Durante estes dias santos somos convidados através do silêncio e da oração a meditar de maneira profunda nos sofrimentos de Cristo que “humilhou-se a si mesmo tornando-se obediente até a morte e morte de cruz” (Fl. 2, 8).

Na tarde da quinta feira santa, Jesus quis celebrar a Páscoa com seus discípulos; durante a Ceia perpetuou sua presença no meio de nós através do Sacramento da Eucaristia, antecipação de sua Paixão e sinal permanente de seu amor! Nos sinais do Pão e do Vinho Ele se dá em alimento que é força e vida no caminhar de cada dia; ao comungarmos de seu Corpo e Sangue, somos convidados a tornarmo-nos “alter Christus” na vida dos irmãos; sinais de seu amor e doação em meio a uma sociedade que se distancia tanto daquele que verdadeiramente nos ama.

A Eucaristia está também intimamente associada à figura do sacerdote; Jesus disse aos discípulos: “Fazei isto em memória de mim” (Lc. 22,19), com isso Ele queria transmitir um legado que perpassaria séculos, perseguições e mesmo assim se faria presente até o fim dos tempos, pois onde houver o sacerdote aí haverá a presença de Jesus na Eucaristia! Neste ano, o santo padre o Papa Bento XVI, convocou um ano sacerdotal, dedicado de maneira especial a figura daquele que, como dizia São João Maria Vianney: “é a figura do próprio Deus”; o sacerdote. Através de nossas orações, devemos pedir a Deus que nos dê sacerdotes santos, segundo o seu coração, sacerdotes que verdadeiramente sejam sinais e presença de Cristo na Comunidade e na vida das pessoas, “mensageiros da Esperança” doando-se sem medidas para a santificação do mundo, pois a “fidelidade de Cristo é a fidelidade do sacerdote”.

Como parte integrante desta mesma celebração, participamos do rito do “Lava pés”, momento que toca profundamente no coração de cada cristão, pois fazem-se presentes e atuais as palavras de Jesus ao realizar esse gesto tão significativo: “Vós me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Ora, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.” (Jo. 13, 14-15). Com este gesto Jesus mostra o verdadeiro papel da Igreja e de cada cristão; o serviço; a humildade; o colocar-se abaixo, considerando-se uns aos outros superiores a si mesmos. 

Ainda nesta noite somos convidados a permanecer em vigília, acompanhando o Senhor em sua agonia no Jardim das Oliveiras.  Pedro, Tiago e João, os mesmos discípulos que outrora haviam contemplado a Glória de Jesus no monte Tabor, agora contemplam sua humanidade envolta pela agonia e pelo sofrimento que de tão grandes que eram manifestam-se visivelmente no suor de sangue que escorre do rosto do Salvador. No Getsêmani a humanidade se encontrou com Deus; foi ali que Jesus tomou a irrevogável decisão de aceitar a infâmia da Humanidade e entregar-se a morte, e morte de cruz para que “pelas suas chagas fossemos curados” (I Pe. 2,24).

Inicia-se assim o curto período que antecede a cruz, mistério celebrado de um modo todo especial na sexta feira santa. Neste dia a Igreja revive o sacrifício redentor da cruz e adora o seu Deus pregado no madeiro, escândalo para os Judeus, loucura para os pagãos, mas para nós sinal de Vida e Salvação. 

As lamentações do Profeta Jeremias, lidas neste dia, convidam-nos a participarmos das dores e sofrimentos do Senhor causadas por nossos pecados; “O castigo da tua maldade está consumado, ó filha de Sião; ele nunca mais te levará para o cativeiro; ele visitará a tua maldade, ó filha de Edom, descobrirá os teus pecados.” (Lm. 4,22).

 Por nós foi flagelado, coroado de espinhos, insultado e blasfemado, por nós carregou a cruz e por nós deu sua vida; “Foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de dores e experimentado no sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima. Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças; contudo nós o consideramos castigado por Deus, por Deus atingido e afligido. Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniqüidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados.” (Is 53, 3-5). Na meditação da Paixão do Senhor, vemos que no alto da cruz, mediante tantas dores e sofrimentos a única queixa de Jesus é: “Tenho sede!” (Jo. 19, 28), ali se expressava a ardentíssima sede pelas almas, sede que somente o nosso amor pode saciar; amor que até então era como o “vinagre”! No poço de Jacó, Jesus revela-se a Samaritana como o único doador da água que de fato mataria sua sede, a água da vida, e assim ela lhe pede: “Senhor dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede” (Jo. 4,15). E é também ali, no alto da cruz, de seu lado aberto pela lança que jorra sangue e água sinais dos Sacramentos, fontes de água viva que saciam a nossa sede! No Sábado Santo a Igreja reveste-se de luto e medita junto ao túmulo do Senhor, pois o amado dorme: “Conjuro-vos, filhas de Jerusalém, não desperteis nem perturbeis o amor, antes que ele o queira.” (Ct. 8,4).

Que nestes dias saibamos vivenciar com amor e Fé os mistérios de nossa Salvação e dizermos como São Boaventura: “Jesus crucificado, minha Esperança!”. 

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