Com exposição no Mosteiro de São Bento, José Spaniol, Marco Giannotti e Carlos Eduardo Uchôa investigam o papel da espiritualidade no mundo contemporâneo

Paula Alzugaray – Revista Istoé

Entrar em uma instituição religiosa é, por si só, um convite a silenciar – especialmente se localizada no caótico centro de São Paulo, como é o caso do Mosteiro de São Bento. Este estado de calma interessa profundamente a Carlos Eduardo Uchôa, José Spaniol e Marco Giannotti, que ocuparam o edifício, fundado em 1598, com instalações, pinturas, fotografias e um vídeo. “A arte sempre teve uma relação transcendente com a realidade, mas essa dimensão espiritual se perdeu. Nós sentimos vontade de resgatar esta característica religiosa da arte, no sentido de ‘re-ligar’: criar uma comunhão entre as pessoas e algo invisível e universal”, diz Giannotti. A conversa que surgiu entre os três artistas e o íntimo conhecimento do espaço por Uchôa – que é monge do Mosteiro de São Bento – tornaram a presença de um curador dispensável. Além de artistas, os três são também professores – profissão que, como a de um religioso, exerce o ensinamento, o aconselhamento.

Essa similaridade foi explorada nas instalações de Spaniol, que ocupa o parlatório – local de encontro entre os monges e a comunidade – com novas obras de suas séries “Lousas” – quadros negros com desenhos feitos a giz – e “Balanças”, que explora a relação entre imagem e palavra. Para isso, ele se apropria de livros e móveis do mosteiro, que são suspensos no ar por colunas de eucalipto. “A ascensão é um tema central na religião.E um objeto fora de seu lugar de rotina nos permite novas possibilidades de contemplação”, diz ele. As colunas guiam o público pelos corredores até as salas que abrigam pinturas e fotografias de Uchôa e Giannotti. O catolicismo aparece como tema nas 14 pinturas de cada um deles que abordam a via crúcis – caminho de Jesus Cristo com a cruz. Há ainda claras referências à sociedade atual nas pinturas de Giannotti, com grafismos que remetem a grades de proteção.
Essa união entre a realidade social e a espiritualidade é ainda mais pulsante na última obra da exposição. No piso superior, dentro de uma acolhedora capela, até então fechada ao público, está a videoinstalação de Uchôa. Livros espalhados pelos bancos e um tapete branco conduzem o público até o altar, onde em meio às imagens católicas barrocas do espaço uma tela mostra cenas captadas na Cracolândia e no Viaduto do Chá. “Meu trabalho apresenta as mazelas da sociedade, do nosso tempo, mas ao mesmo tempo evidencia a possibilidade de uma redenção. Há sempre o desejo de permitir a reflexão”, diz o artista-monge.

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