Exposição aberta hoje no Mosteiro de São Bento leva imagens de cenário de zumbis para capela

Jornal da Tarde, 25 de Janeiro de 2010 – Fábio Mazzitelli, fabio.mazzitelli@grupoestado.com.br

O cenário de zumbis da cracolândia ganhou ares sagrados dentro da até então restrita capela do colégio do Mosteiro São Bento. Parte da exposição Arte e Espiritualidade, aberta hoje ao público, é uma videoinstalação do artista e monge Carlos Eduardo Uchôa, que levou ao altar do templo imagens de usuários de crack vagando pelas ruas do centro, cena que se cristalizou na capital nos últimos anos. O monge afirma que a ideia não é chocar nem denunciar, e sim sensibilizar o público, sobretudo os paulistanos, para o problema, que se tornou um cartão postal às avessas da cidade.

Dom Eduardo Uchôa na capela do Mosteiro

“Há uns dois anos que ando por lá e fico impressionado com a questão da violência. Vivemos em um mundo com guerras étnicas e muitos conflitos e em São Paulo isso se reproduz aqui no centro”, afirma Uchôa. “O olhar diário é superficial e de consumismo e as pessoas se sentem em um tempo diferente da rua. Mas somos tudo isso e vivemos essa duplicidade. Também somos os meninos da cracolândia”, acredita Uchôa.

A obra do artista e monge, também professor e reitor da Faculdade São Bento, tem o título sugestivo de “Redenção”. O vídeo foi feito pelo próprio Uchôa, que saiu de carro às ruas do Centro no entardecer de 6 de janeiro com uma ideia e uma câmera na mão.

“Os meninos com cobertor na cabeça e andando juntos parecem zumbis, mas não é um vídeo denúncia. Fiz uma coisa muito sutil, aludindo ao drama deles. Não quero fazer algo chocante”, afirma o monge, que espalhou bíblias e livretos sagrados pelos bancos da capela. “Proponho a internalização da solidariedade humana mais profunda, que tem a ver com essa espiritualidade daqui.”

A capela que acolhe o trabalho do monge foi construída em 1937 no terceiro andar do Mosteiro de São Bento e nunca havia sido aberta ao público – só os alunos do Colégio São Bento tinham acesso, mesmo assim, restrito.

Além do vídeo da cracolândia – que conta também com gravações da Rua da Consolação e da Avenida Paulista e se alternará com imagens em tempo real do vizinho Vale do Anhangabaú –, a instalação conta com um tapete de espuma branca que cobre o caminho para o altar da “redenção”, no qual só é possível pisar após tirar os sapatos. “É uma forma de sensibilizar”, diz Uchôa.

Ontem, na abertura para convidados, o monge conversou com a reportagem durante 30 minutos sobre o tapete branco da capela. Nesse intervalo, foi cumprimentado por 11 pessoas, algumas emocionadas com o trabalho. “Posso ver aqui o poder da arte e da fé. Isso é muito importante”, diz Joana Baraúna, funcionária pública.

 

A videoinstalação é o ponto alto da exposição montada em 21 espaços de três andares do mosteiro. Algumas das salas hoje abertas eram secretas, de uso só dos frades. A exposição vai até 21 de fevereiro e é assinada também por Marco Giannotti e José Spaniol. 

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