Por Ir. João Baptista Barbosa Neto, OSB

Você sabia que o Mosteiro de São Bento de São Paulo possui marcas Históricas de balas de um atentado que ocorreu em 1924? Estão lá até hoje.

O Mosteiro de São Bento é um símbolo de grande importância para a cidade de São Paulo. Com mais de 400 anos de História, o Mosteiro sempre teve grande influência na cidade. Vale lembrar a própria localização em que foi construído o cenóbio beneditino. O local era a taba do cacique Tibiriçá. Foi doado pela Câmara de São Paulo em 1600 aos monges. Segundo o documento de doação das terras, pertencente ao arquivo do Mosteiro, o local era “o mais importante e melhor, depois do colégio”. Com o crescimento da Vila ainda no Século XVII, Fernão Dias Paes Leme, o Governador das Esmeraldas, ampliou a igreja e melhorou as dependências do Mosteiro. Anos depois, com a nomeação popular de Amador Bueno – um importante personagem da vila paulistana – como rei de São Paulo, sem este aceitar, recorre aos monges beneditinos, a fim de acalmar a população e fazer com que esta mudasse de idéia. Para que Amador Bueno não perdesse sua vida por não aceitar a ser rei de São Paulo, o Abade do Mosteiro, assim como também a comunidade monástica, acalmaram os ânimos e o povo mudou de idéia. Amador Bueno estava a salvo.

Aclamação de Amador Bueno como rei de São Paulo

São dependentes do Mosteiro de São Bento de São Paulo, o mosteiro de São Bento de Sorocaba, fundado em 1667 e o mosteiro de São Bento de Jundiaí de 1668. Além destes, foram fundados mais dois: Santana do Parnaíba (1643)e Santos (1650). Do primeiro não resta absolutamente nada. O mosteiro de Santos se tornou um museu em 1981.

Os Monges beneditinos da era colonial eram “fazendeiros”. Constam em documentos que só nas adjacências de São Paulo, há confirmação  da existência de pelo menos quatro fazendas beneditinas: a de São Bernardo, a de Jurubatuba, a de São Caetano e a de Parateí (Mogi das Cruzes). As três primeiras deram origem aos municípios do ABC paulista. A fazenda de São Bento do Parateí é a única fazenda ainda pertencente aos monges paulistanos.

Com o passar dos Séculos, já em 1900, chega ao Mosteiro, Dom Miguel Kruse, o qual se tornou abade e fez uma grande revolução no local. Em 1903 funda o famoso Colégio[1] e o Teatro de São Bento e em 1908 a Faculdade de São Bento, a 1ª Faculdade de Filosofia da América Latina, dependente da Universidade de Louvain, na Bélgica. Ambos os departamentos de ensino tinham em vista uma formação humanística autêntica.

Dom Miguel possuiu grande influência não só religiosa, mas também política. Escreveu importantes artigos em jornais da cidade, como ‘O Estado de São Paulo’. Fundou ainda, o jornal ‘O Estandarte Católico’, que funcionava no próprio Mosteiro. Nos jornais Dom Miguel travou debate histórico com o Dr. Luiz Pereira Barreto. O debate girava em torno de acusações contra a Igreja e sua doutrina. Com grande eloquência e elegância, Dom Miguel mostrou a verdade e se saiu vitorioso.

Dom Miguel ajudou ainda na vinda das monjas beneditinas ao novo mundo. O primeiro Mosteiro beneditino feminino foi fundado com sua ajuda em 1911, na região da Avanida Paulista. Trata-se do Mosteiro de Santa Maria, que na década de 60 daquele Século foi transferido para o bairro do Tucuruvi.

Ainda na Avenida Paulista ajudou a construir o Hospital Santa Catarina, trazendo as Irmãs da Congregação de Santa Catarina ao Brasil. Teve sua influência a construção dos Colégios Des oiseaux (Cônegas de Santo Agostinho) e Santa Marcelina (Congregação de Santa Marcelina) e a vinda das Irmãs Beneditinas Missionárias de Tutzing, que inicialmente se estabeleceram em Sorocaba. É comprovado seu envolvimento com o retorno dos jesuítas ao Brasil.

Óbvio que a construção atualdo Mosteiro não é a mesma de séculos anteriores. Já é a quarta construção. A demolição do antigo edifício, muito decadente na época, começou com a construção do Colégio. Mas foi em entre 1910 e 1012 que o cenário realmente mudou. São Paulo passava por grande processo de urbanização. Sua população aumentava exacerbadamente, ganhando relevância no cenário nacional. O Mosteiro seguiu este ritmo e em 1910 teve início à construção da nova igreja e Mosteiro. A construção em estilo eclético neo-românico, projeto de Richard Berndl – Professor da Universidade de Munique e um dos melhores arquitetos da Alemanha. É desta época. A decoração interna em estilo Beuronense foi feita pelo beneditino belga Dom Edelberto Gressnigt. A Basílica só foi consagrada em 1922. Nesta época foram instalados os sinos e o relógio mais preciso de São Paulo.

Ainda na Década de 20 do Século passado, São Paulo sofreu um ataque das tropas do General Isidoro Dias Lopes. O ano era 1924. Deste ataque o Mosteiro guarda marcas até hoje.

marcas de balas no Mosteiro - 1924

Quem vem em direção ao Largo de São Bento pelo Viaduto Santa Ifigênia poderá se deparar com esta parede histórica. A parede é a lateral do Colégio de São Bento. É fácil perceber a parede cravada de balas, pois está bem próxima ao muro que dá para o viaduto. Nesta ocasião, preocupado com o que poderia acontecer de pior, o abade pediu proteção ao Sagrado Coração de Jesus. Com a proteção alcançada, o abade mandou construir um altar em honra ao sagrado Coração de Jesus, consagrado em 1926. Neste altar temos as imagens do Sagrado Coração de Jesus ladeado por Santa Mactildes e Santa Margarida Maria de Alacoque, devotas e iniciadoras da devoção ao Sagrado Coração.

Além disso, São Paulo passou pela revolução de 1932, a qual tentava derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas. O Mosteiro, sempre cumprindo seu papel, acolheu diversos desabrigados da cidade e os monges ajudaram aos feridos nas diversas ruas da capital.  

Em 1946 o Mosteiro ajuda na fundação da PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Assim a Faculdade de São Bento é transferida para a PUC e uma biblioteca completa foi doada pelos monges à fundação nascente.[2]

Todos sabemos, mas sempre é bom lembrar que em Maio 2007 o Mosteiro recebeu um hóspede ilustre. Trata-se do Papa Bento XVI.

Sua monumental Biblioteca – a mais antiga da cidade fundada em 1598 – é fonte de pesquisas importantíssimas para a História de São Paulo e do Brasil. Possui obras raras que demonstram a relevância histórica da abadia. Foi tema de pesquisa de Pós-graduação em 2008 e de Monografia final de graduação em 2009, além de várias pesquisas acadêmicas envolvendo aspectos não só históricos, mais também arquitetônicos e bibliográficos.

A Basílica está sempre aberta e é comum encontrar os monges rezando em coro e entoando o canto gregoriano. Aliás, o Mosteiro de São Bento preserva esta tradição musical e seus Monges possuem alguns CDs lançados, que podem ser encontrados na loja do Mosteiro. Esta por sinal é uma das fontes de renda da casa monástica. Os famosos bolos estão lá. Mas agora, são possíveis de serem encontrados numa boutique gastronômica nos Jardins.[3]

No que tange ao diálogo intelectual, a Faculdade de São Bento promove as palestras ‘Filosofia no Mosteiro’. São debates filosóficos proferidos por grandes pensadores do Brasil e do mundo. ‘Seminários Discentes’ são apresentações dos trabalhos de pesquisa dos alunos do Mestrado. Ambos são eventos abertos ao público. A Biblioteca também promove as palestras ‘Cultura Geral’ com temáticas mais abertas.

Detalhe de uma das portas do parlatório do Mosteiro

Além da fundação do Colégio e da Faculdade de São Bento Dom Miguel Kruse idealizava a construção de uma Universidade. Comprou grande terreno no Bairro Alto de Santana para tal fim. Lá construiu um observatório astronômico – um dos primeiros de São Paulo.[4] Era também local de lazer dos internos do Colégio. Além disso, alguns pesquisadores como também os monges cientistas fizeram grandes avanços científicos. Exemplo disso, foi Dom Amaro van Emelen. Este escreveu o primeiro trabalho sobre apicultura, sendo esta muito utilizada, ainda hoje por grandes pesquisadores da área. Tudo isto para ilustrar a dimensão e o diálogo intelectual dos monges com a cidade. A idéia de uma Universidade beneditina em São Paulo  não vingou por problemas financeiros acasionados pelas missões beneditinas no norte do Brasil.

Em 2007 teve início o brunch no Mosteiro. Tratava-se de uma presença maior da comunidade no Mosteiro de São Bento. Além de conhecer algumas dependências do Mosteiro, os visitantes ainda ajudavam os projetos mantidos por este.

Em 21 de Março de 1959 teve início a Fundação Lar de São Bento, mantenedora da Casa Dom Macário. A ideia foi da Associação dos Antigos Alunos do Colégio de São Bento “ASBA”, que tinham como objetivo, desenvolver uma campanha permanente para educar jovens carentes, moradores dos bairros da periferia de São Paulo. Nesta época esteve a frente do projeto Dom Afonso Niessl.

Em parceria com o Instituto Jacques Maritain,[5] a Faculdade de São Bento promove o Café Filosófico. Este também é um evento concorridíssimo onde além de refletir sobre um tema pertinente, podemos apreciar um delicioso café com pão de queijo.

Fala-se até que no mosteiro há um túnel que faz a ligação subterrânea até a Catedral da Sé. não passa de uma falácia. Ou caso tenha existido, pode ter sido usado como protótipo para a construção do Metrô.

Como vimos, o Mosteiro de São Bento de São Paulo é testemunha de diversos episódios da Paulicéia de Mário de Andrade. Falta você conhecer estas histórias e este lugar sem igual no Centro da maior cidade do Brasil.


[1] Teve, já em sua construção a 1ª piscina olímpica de São Paulo. Recebeu em 2009 a condecoração de “Escola Modelo de Educação Chinesa” do Ministério das Relações Exteriores do Governo Chinês.

[2] No Mosteiro continuaram os cursos internos de Filosofia. A Faculdade reiniciou o curso abaerto de Filosofia no ano 2000, obtendo notas máximas na avaliação no MEC. Teve início o mestrado em 2008 e o curso de Teologia em 2009.

[3] Rua Barão de Capanema, 416, Jardim Paulista, 3063-0522. www.mosteiro.org.br.

[4] Os equipamentos foram importados da Alemanha por Dom Miguel Kruse em 1921 e instalados em Arujá no ano de 1922. Tais equipamentos – Luneta, cúpula e outros – foram transferidos para a chácara do Alto de Santana em 1929, quando se construiu o observatório oficial de São Bento. Por diversos motivos o observatório cessou suas atividades na Década de 40 do Século XX. Hoje a cúpula do antigo Observatório de São Bento encontra-se no Observatório Astronômico de Diadema – SP, e a luneta no Observatório municipal de Piracicaba, também em São Paulo.

[5] O Instituto Jacques Maritain foi fundado no Mosteiro de São Bento de São Paulo e tem este como sede, onde se reúne uma vez ao mês. Atualmente é presidido pela Profª Drª Maria Luiza Marcílio, a qual também preside a Comissão de Direitos Humanos da USP.

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