Publicado por José de Souza Martins em O Estado de S. Paulo

[Caderno Metrópole], Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009, p. C8. 

Do Porto Geral de São Bento ficou a ladeira desse nome que, descendo da Rua Boa Vista, vai dar na Rua 25 de Março, por onde passava o rio Tamanduateí antigamente. Nem a ladeira era onde é hoje. Uma ilustração que o Abade enviou ao Mosteiro de Tibães, em Portugal, no século 18, mostra que a da época começava no próprio Largo de São Bento. Na entrada da ladeira havia um portal barroco monumental, como em cidades portuguesas de então.

Fotografia de Militão de Azevedo -1862. Mosteiro de São Bento, tendo em primeiro plano o Rio Tamanduateí e a Rua 25 de Março

Ali atracavam as embarcações do Mosteiro que vinham das três fazendas beneditinas da cabeceira e da foz do atual rio dos Meninos. Na cabeceira, as fazendas Jurubatuba e São Bernardo. Na foz, atravessada pelo rio, que aí desaguava em delta, a Fazenda de São Caetano do Tijucuçu. No tempo da seca, os produtos eram transportados em dois barcos pequenos, de meia carga. Na cheia era usado um barco grande, de dez metros de comprimento, tanto no transporte de madeiras, verduras, azeite de amendoim, farinha e feijão quanto no dos produtos da indústria que os monges mantiveram em São Caetano de 1730 até 1871, quando libertaram seus escravos, 17 anos antes da Lei Áurea. Era uma grande fábrica de materiais cerâmicos, com três fornos, para a queima de tijolos, telhas, telhões para canaletas de água, e também cerâmica utilitária vidrada, como pratos, alguidares, panelas e potes. No próprio século 18, um mestre de cerâmica foi contratado pelos monges para ensinar sua arte aos meninos escravos da fazenda. O Mosteiro teve, no Porto Geral, um armazém para os produtos desembarcados. Sua cerâmica era usada na reforma de suas casas de aluguel, da igreja e do Mosteiro. Mas boa parte da produção era vendida e era essa sua principal fonte de renda. Telhas da fábrica foram usadas numa reforma no Palácio do Capitão-general, em 1792, no Pátio do Colégio, e no Convento de São Francisco. Há registro de esmola de telhas para o Recolhimento de Santa Teresa, na Sé.

Em 12 de outubro de 1825, o Tenente Coronel Engenheiro José Antônio Teixeira Cabral embarcou no Porto de São Caetano rumo à foz do rio, no Tietê, 19 km abaixo, para fazer uma verificação geral de seu leito. Descobriu que havia profundidades variáveis de 1,20 m a 4 m. O nível das águas vinha oscilando desde o século 18. Ora muita, ora pouca, devido ao desmatamento nas margens, com implicações na navegação. Em 1763, um dos barcos do Mosteiro naufragara, levando ao fundo toda a carga de telhas.

Nesse mesmo ano, um barco levou escravos de São Caetano, para pagar promessa na Igreja de Nossa Senhora do Ó, em romaria dirigida pelo índio administrado Marcos Bueno da Conceição, feitor dos escravos. Na ida e na volta, fizeram parada no Porto Geral para merenda no Mosteiro. Promessas para santa tão distante eram justa manha para viajar, folgar e atenuar o cativeiro.

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