“Sapientia Aedificavit/Sibi Domum.” Prov. 9 “A Sabedoria edificou para si uma casa.” 

O livro é sem duvida a constituição e preservação de uma idéia, de uma cultura. Sabe-se que nossa cultura é o que é devido à tradição transmitida por gerações. Esta é obvio, só fora possível por meio dos livros.

Na História do livro, o Mosteiro e mais especificamente a figura do Monge, sempre esteve ligada à leitura e a preservação desta. Isto pelo fato de a Regra de São Bento dar valor e imenso cuidado a este precioso objeto, tido como “vaso sagrado do altar”.

Ala nova da Biblioteca do Mosteiro de São Bento de São Paulo

Através disso, muito do que temos hoje, deve-se aos cuidados dos Monges.

A Bíblia, leitura por excelência, era a principal mediação para elevar o Monge a Deus. Era a “Lectio Divina”. Mas existiam outras leituras: Exegeses, outros comentários bíblicos, História da Igreja e de Homens ilustres; Grandes feitos da humanidade; Filosofia – esta até mesmo pagã. “O Nome da Rosa” , de Umberto Eco, expressou muito bem a realidade de uma Biblioteca Monástica Medieval.

Diante disso, foi se conservando ou progredindo uma espécie de conhecimento, fazendo com que o Mosteiro se tornasse numa casa de cultura, um Centro Cultural. Deste contexto, temos a divisa da Biblioteca Monástica Medieval em que, um Mosteiro sem Biblioteca, é como a uma praça de guerra sem provisões. “Claustrum sine bibliotheca quase castrum sine armamentaria”. Foram nos Mosteiros que houve avanços na ciência e na tecnologia, só para citar alguns pontos. Ainda hoje, médicos recorrem aos escritos sobre medicina de Santa Hildegardis, monja de Bingen. As lentes surgiram a partir dos inventos de um monge no Século XII – embora não se tenha segurança sobre a data. Mendel, um monge Agostiniano, ao fazer sua meditação diária no claustro de seu Mosteiro observou a diferença nas ervilhas, e passou a pesquisar sobre tal fato, chegando a grandes descobertas, de modo que, Mendel ficou conhecido como o pai da genética.

Porta de entrada da Biblioteca Histórica da Abadia de São Paulo, tendo a cima a homenagem do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo ao Beneditino Frei Gaspar da Madre de Deus

Esse apreço à intelectualidade monástica é observado também na obra “Tractatus de Studiis Monasticis”, de Dom Jean Mabillon, Monge Francês do Século XVIII. Neste tratado Dom Mabillon estima e dá máxima importância ao trabalho intelectual na vida Monástica.

Seria muito difícil imaginar o mundo atual sem as pesquisas e descobertas desenvolvidas no Mosteiro.

Há tantas outras coisas que surgiram e se conservaram pelo esforço e cuidado dos monges, que poderei noutro momento aprofundar.

O Mosteiro de São Bento de São Paulo não foge a regra. Desde sua fundação em 1598, já contava com uma Biblioteca, mesmo que pequena. Com mais de 400 anos de História, o principal Mosteiro da Paulicéia formou importantes vultos que constitui a São Paulo contemporânea. Vale lembrar aqui, que estes não eram apenas monges, mas alunos do Colégio e da Faculdade de São Bento – a 1ª Faculdade de Filosofia da América Latina.

No que tange a Biblioteca Monástica, esta é a mais antiga Biblioteca da Cidade de São Paulo com mais de 100.000 exemplares. Suas áreas são ricas em variedade: Filosofia; Teologia (e seus desdobramentos); História eclesiástica e profana; exegética; Brasiliana; Monaquismo; Pedagogia; Psicologia; Direito, etc. Este templo da cultura desde seu início era uma lugar venerável e religioso. O monge deveria ser bem instruído, e para isso a Biblioteca tinha seu papel singular na  formação do religioso.

A Monumental Biblioteca do Mosteiro de São Bento de São Paulo

Mas a grande Biblioteca não é a única do Mosteiro de São Bento de São Paulo. O dito cenóbio possui mais treze outras bibliotecas distribuídas pelos seus cômodos.

Bibliotecas 

Colégio – O Colégio de São Bento de São Paulo fundado em 1903 pelo Abade Dom Miguel Kruse possui mais de 3.000 exemplares de diversas disciplinas para o atendimento de seus alunos.

Noviciado – Para a assistência dos noviços, o noviciado do Mosteiro conta com uma Biblioteca com cerca de 3.000 exemplares, em sua maioria títulos das áreas de espiritualidade, Monaquismo e Teologia.

Oblatos – Os Oblatos tem à sua disposição, em sua secretaria uma Biblioteca com 1.000 exemplares.

Chineses – Devido ao grande número de alunos de origem chinesa, o Colégio de São Bento recebeu com distinção do Ministério das Relações Exteriores da China a condecoração de “Escola Modelo de Educação Chinesa”, sendo este colégio o 1º do Brasil e um dos poucos no mundo a ser bilíngüe Chinês/Português. A Secretaria do departamento chinês possui uma boa Biblioteca com 500 exemplares em língua chinesa.

Sala de Recreios – Extensão da grande Biblioteca com 1.000 exemplares.

Lógica Jurídica – O Departamento de Lógica Jurídica (Pós-Graduação) acomoda cerca de 450 exemplares.

Biblioteca Papal – O Papa Bento XVI quando de sua visita ao Brasil em Maio de 2007, se hospedou no Mosteiro de São Bento, e teve a sua disposição uma Biblioteca com assuntos referentes ao Brasil e sua cultura. A Biblioteca continua no quarto do Papa até hoje.

Quadro de Dom Mabillon dependurado numa das estantes da Biblioteca de São Bento

Órgão – O grande Órgão do Mosteiro de São Bento também possui sua Biblioteca, claro, referente a Partituras, Técnica e História do Canto Gregoriano.

Sacristia – Os livros litúrgicos utilizados nas celebrações da Basílica são guardados na Sacristia.

Arquivo – Livros, crônicas e Documentos antigos de São Paulo e do Mosteiro encontram-se no Arquivo Monástico.

Abadia – O Abade possui uma Biblioteca com 500 exemplares.

Sala de aula do Noviciado – Livros de ofícios ou de côro são guardados no noviciado. A cada candidato que chega ao Mosteiro são fornecidos deste local seus livros de ofícios.

Além disso, cada Monge possui sua Biblioteca particular. Cada um possui afinidades em determinadas áreas do conhecimento ou possui uma leitura mais direcionada em vista de sua pesquisa, pois inteligência é capacidade de cognição.

É isso, o Monge é um intelectual ou tende a ser. Ao menos possui todos os meios para desenvolver um aparato cognitivo invejável. A leitura é preponderante na vida claustral.

O Monge o Livro e o Tempo: Trabalho Intelectual no Mosteiro normatizado pela Regra de São Bento

Antes que se faça confusão a tal comentário, vale ressaltar que tal intelectualidade só tem sentido na vida Monástica quando há doação ou troca de conhecimento. Não é um conhecimento egoísta. O mais importante é que aquilo que se pensa, deve ser vivido na prática. É apropriar-se do conhecimento e fazer uso criativo dele. Para o Monge não há necessidade de escrever tratados. A prática da vida feliz é o que faz o Monge ser o que ele é: simplesmente Monge. O conhecimento é o que motiva a transformação da vida, pois conhecer é mudar de conduta. O Monge deve expor ao outro o seu conhecimento, para que este participe desta gloria. Esta não é do que descobre, mas do que se revela, do próprio Cristo.

Ir. João Baptista Barbosa Neto, OSB

Biblioteca do Mosteiro de São bento de São Paulo 

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