Por Antonio Alves Xavier e Emir Tomazelli

Pensamos que o “Choque de Humanidade” (C.hum.) é um recurso teórico muito útil para a compreensão do aparelho psíquico em suas finalidades e um ponto técnico crucial no tratamento do alcoolismo em qualquer método ou forma de sua abordagem.
É um consenso, seja entre profissionais que trabalham no campo do alcoolismo ou entre as pessoas que convivem com o doente alcoólatra, que ele não se considera doente, é incapaz de pedir ajuda e é muito orgulhoso. Pensamos que o doente alcoólatra somente tem chances reais de deixar suas alcoolizações de lado, quando chega a um razoável contato com sua condição humana inexorável.
Pensamos que levá-lo à possibilidade de iniciar um tratamento, e mantêlo em tratamento, é uma tarefa básica e para tanto, em consonância com as concepções do “idealcoolismo”, tentaremos responder a estas 3 questões:
– o que faria o alcoólatra estabelecer minimamente contato com sua realidade humana e perceber sua relação pervertida com o deus-álcool para, a partir daí, pedir ajuda?
– como o alcoólatra poderia admitir sua impotência perante o uso psico-religioso degradado que faz dos efeitos psicossomáticos do álcool e romper com a divindade que ele cria e que dela se apodera, para acabar, no final das contas, sendo apoderado por ela?
-como e porque o alcoólatra poderia manter-se em tratamento e alcançar o estado alcoólico?
Fazendo uma leitura leitura psicanalítica para responder essas 3 questões admitimos, com Freud, que o profissional que atua neste campo terá provavelmente melhor êxito se for mais ativo numa busca da mudança de estado do paciente de alcoólatra para alcoólico:
“A partir do momento” – escreve Freud – “que os médicos reconheceram claramente a importância do estado psíquico na cura, tiveram a idéia de não mais deixar ao doente o cuidado de decidir sobre o seu grau de sua disponibilidade psíquica, mas, ao contrário, de arrancar-lhe deliberadamente o estado psíquico favorável graças a meios apropriados. É com essa tentativa que se inicia o tratamento psíquico moderno” (Fedida,P. 2002, p.119). (estado psíquico-grifo nosso).Pensamos que é com essa tentativa que se inicia e se desenvolve o tratamento do “idealcoolista” e que entre os ‘meios apropriados’ está o “choque de humaidade – C.Hum” em papel de destaque, uma vez que, concordando com Brennman, acreditamos que no “idealcoolismo:“No momento em que o paciente procura a análise somos, portanto confrontados com um problema complexo. Mas me parece que a tarefa clínica é capacitar o paciente a fazer uso de um mundo mais pleno, compreensivo, e amoroso, que é a única experiência que pode resgatá-lo.”(…)”Qualquer que possa ser a perversão e a preocupação restrita, penso que em última instância é a bondade, a humanidade e a verdade o que são dolorosamente ansiadas”(Brenman, E, “Crueldade e estreiteza mental”(1985, p. 270 e 272)À luz da conceituação do “idealcoolismo”, o que se está querendo dizer com favorecer o alcoólatra a tomar um ou mais “choques de humanidade”, é afirmar que através disso ele poderá confrontar sua natureza humana, entendendo que ela não é tão inteiramente desprovida de recursos, com sua profunda crença no estado ideal de incorporação do divino. Consequentemente, os“choques de humanidade” objetivam constantemente desacreditar o alcoólatra da possibilidade de se tornar um deus se desumanizando por meio dos efeitos psicossomáticos do álcool. Os “choques de humanidade”, por outro lado, produzindo uma desilusão na crença do ideal, proporcionam, concomitantemente, chances reais para que o “idealcoolista” consiga, parando de beber, dar seu primeiro passo para alcançar o estado alcoólico, deixando de alimentar com o álcool – corpo incorporal/substância ideal – seus desejos por uma alienação da condição humana. Mostrar a ele que a vida sem o álcool é possível e que pode ser prazerosa.
Seria pela crescente crença na sua humanidade, como uma saída para se livrar do sofrimento e obter liberdade, que o alcoólatra, pragmaticamente, poderia abrir-se a essa nova forma de vida fora do consumo salvador do álcool.
Às vezes, o “choque de humanidade” também pode ocorrer como resultado de um acontecimento dramático, como por exemplo, um desastre, uma morte em família, uma perda de emprego, falência da própria empresa, ou uma complicação com a polícia e as leis, mas em todos os casos, representa sempre um cotejamento do alcoólatra com a realidade da sua condição humana de finitude e desamparo.
O “choque de humanidade” reafirma que a humanidade pode igualmente entrar, “sem que isso seja o fim do mundo”, através da porta aberta pela crise das perdas, do sofrimento e da solidão.
Quando alcança êxito, o “choque de humanidade” expõe ao alcoólatra as vantagens da solidariedade e do amor humanos; proporciona sua acolhida mesmo nas mais desfavoráveis circunstâncias em que possa se encontrar e cria, finalmente, uma situação propícia para sua re-humanização ao conduzi-lo, constantemente, para o contato com sua realidade humana, através de “autos choques de humanidade”.
Assim, o “choque de humanidade” se estende a uma prática comum realizada pelos membros de AA como nos apresenta Bill W. um dos co-fundadores de AA em seu livro “O modo de vida de AA” (1967, pg.44):
“Nosso primeiro problema é aceitar nossas circunstâncias atuais como são, a nós mesmos como somos, e as pessoas que nos cercam como também são. Isso é adotar uma humildade realista sem a qual nenhum verdadeiro progresso pode sequer começar. Repetidamente precisamos voltar a esse pouco lisonjeiro ponto de partida. Esse é um exercício de aceitação que podemos praticar com proveito todos os dias de nossas vidas”
Por outro lado, só é possível ao alcoólatra abandonar sua organização patológica de estreiteza mental de cunho psico-religioso e admitir que com o álcool “perdeu o domínio de sua vida”, se seus mecanismos onipotentes cederem em relação ao princípio de realidade e que seu masoquismo de vida passe, em certa medida, ao primeiro plano. Para tanto, é indispensável um melhor arranjo da economia psíquica que torne a excitação mais aceitável, permitindo que o investimento libidinal dirija-se ao outro humano, às coisas do mundo externo, e não apenas tome o caminho da excitação alcoólatra. Avançar para esse estado mental representa para o “idealcolista” contumaz um grande “choque de humanidade”.
O “choque de humanidade”, concomitantemente, procura gerar no alcoólatra o desencanto frente aos poderes mágicos do deus-álcool-Pai todo poderoso, aquele que lhe poderia conceder perfeita proteção em relação à sua sobrevivência e lhe daria garantias de uma vida de completa ausência de sofrimentos. Após os “choques de humanidade” a constatação desiludida do alcoólatra poderá ser esta: “Ele, o deus álcool, falhou e eu – identificado com o deus álcool –, falhei. Não dá mais!”O alcoólatra talvez passe a compreender, então, através do sofrimento que acompanha a desilusão, que a saída para a sua vida não é mais uma desesperada busca, que fracassou, de tentar escapar do humano para ser deus. O ideal é agora percebido como impossível de ser atingido. Não tem saída, ele é humano!
Ao finalizarmos as considerações relacionadas ao conceito de “choque de humanidade” ressalvamos que:
– para que o “choque de humanidade” surta algum resultado proveitoso na direção da re-humanização do alcoólatra é preciso que a religião degradada “idealcoólica” não esteja tão fixada e ainda que seu masoquismo – mortífero e moral – não seja tão intenso.
– ao mesmo tempo, faz-se imprescindível, que o “idealcoolista” no início do tratamento tenha mínimas condições egóicas para deixar seu refúgio nas alcoolizações provedoras da organização patológica de cunho psico-religioso. É essa uma condição imprescindível, pois sem ela não haverá a possibilidade de dar continuidade ao tratamento. A seqüência de qualquer ação terapêutica com o alcoólatra exige que exista um ego minimamente integrado, para que ele, ainda que tenuamente no início, possa se evadir da organização patológica de estreiteza mental e estabelecer contatos com a posição depressiva, aceitando sua humanidade.
 
São Paulo, 3 de dezembro de 2009

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